O “zap do bem” de Luciano Huck. Para quem?

A fim de promover um ‘banco digital do WhatsApp’, o presidenciável Luciano Huck mandou mensagens para comunidades de sabe lá quantas regiões do país prometendo R$ 200 para quem abrisse uma conta. O relato é de Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Luciano Huck
Luciano Huck (Foto: Reprodução)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Com ar de playboy, barba por fazer, e camiseta despretensiosa, o apresentador e candidato a candidato a presidenciável em 2022 Luciano Huck se apresenta numa postagem do WhatsApp com a seguinte mensagem: “Se você mora na Região de Vergel do Lago, Maceió, Alagoas, e está recebendo esta mensagem minha, e se ela chegou por um SMS de três a cinco dígitos, a gente quer te ajudar. A ideia é que 200,00 cheguem à sua conta de celular como crédito, tipo uma carteira digital, para você pagar conta, para você pagar boleto, para você fazer compras no seu bairro... Então, acesse o link que está aqui na sua tela para você se inscrever no ‘Zap do Bem’. E o único número que vai se relacionar com você, quando você entrar no zap do Bem, vai ser esse daqui que é o 021-30944888. Só confie neste nesse número, tá? Boa sorte, fique com Deus, sei que tá difícil, mas vai passar. Com fé em Deus vai passar. Tudo de bom pra vocês”.

Com uma população estimada em mais de 60 mil habitantes, o bairro do Vergel é um dos mais antigos de Maceió (AL), que surgiu de um sítio de fruteiras às margens da lagoa mundaú, habitado no início por grandes proprietários e pescadores. Hoje, tem ruas pavimentadas, um pequeno comércio e uma avenida urbanizada, margeando a lagoa, conhecida como "Dique Estrada" ou "Pajuçara II", numa alusão a praia de Pajuçara.A população do Vergel do Lago triplicou nos últimos anos com a construção dos conjuntos residenciais Virgem dos Pobres e Joaquim Leão. São centenas de casas em alvenaria de tijolos e telhas, boas partes já ampliadas, que surgiram para acabar com as favelas, que margeavam a lagoa.

A princípio, a ideia nos remete àquele mega cadastro produzido pela Rede Globo, para a campanha à presidência da República, de 2018, “O Brasil que eu quero”. Os dados da campanha (a princípio revestida de ar inocente e patriótico) assombram. De acordo com o site G1, “O Brasil que eu quero” terminou cobrindo 99,5% dos municípios brasileiros, apresentando o seguinte balanço: “9% das mensagens foram gravadas por crianças; 7%, por adolescentes; 13%, por idosos; e o restante (71%), por adultos. Na participação por sexo, 28% são mulheres e 65%, homens; grupos (amigos, vizinhos, colegas de trabalho e de escola etc.) participaram com 7% dos vídeos”. Um verdadeiro sucesso, que coletou nomes, telefones e direção de eleitores de Norte a Sul, entre os dias 23 a 29 de setembro daquele ano fatídico, que nos legou Bolsonaro. 

Do vídeo enviado à TV Globo, para ser exibido no Jornal Nacional, dando cara a um país que não se via na TV - e, talvez por isto, o retorno tão massivo -, constavam o celular de quem tinha gravado o vídeo, o nome do município e o nome completo do autor. Uma fonte rica e inesgotável de possibilidades de ações de campanha, não é mesmo? 

Qualquer semelhança com tal iniciativa pode ser mera coincidência. Daí a importância de se apurar o que diabos levou Luciano Huck a sair dos seus cuidados para gravar a tal mensagem para um bairro miserável de Alagoas. De posse do telefone do “Zap do Bem”, para onde eram direcionados os pobres candidatos a receber R$ 200,00 sem nenhum esforço ou filas, era importante ligar e tirar tudo em pratos limpos. Forçando um sotaque regional – que me desculpem os alagoanos, mas foi pela causa – fiz a ligação, em 08/12/2020, como candidata a receber o “adjutório”.

- O projeto era uma --- (inaudível), que até o mês passado, até mais ou menos julho... A gente deu uma parada, retomamos em agosto, até mais ou menos novembro, os cadastros, né? Das famílias, que eram feitos com ONGs, nas comunidades dessas cidades. Essas ONGs, elas cadastravam as famílias que necessitassem e a gente ia fazer os repasses, né? Através das empresas parceiras. Teve muita empresa que ajudou. E a gente fazia o repasse, através da conta, que é uma conta digital no WhatsApp. Facilitava, a pessoa transferia o dinheiro direto pelo WhatsApp, e as pessoas não precisavam ter o toque com as cédulas.

- Não tinha cadastro não?

- Então, esse cadastro era feito pelas ONGs de cada comunidade. Era feita uma pesquisa das famílias que necessitavam, nas regiões selecionadas. A gente começou primeiro ali em Vergel do Lago, depois...

- Vergel do Lago onde é?

-Vergel do lago é Recife... (o rapaz, de nome Áureo Dantas, responde sem prestar atenção, pois Vergel do Lago é um bairro pobre de Alagoas). 

- Ah... E não vai mais chegar aqui não? Em Alagoas... (pergunto, aproveitando o vacilo do atendente). E precisava cadastrar?

- É, algumas famílias, sim. A ONG cadastrava as famílias que moravam nos lugares mais pobres. E este cadastro vinha para um banco de dados. Era feito uma pesquisa, dos que realmente precisavam do valor (neste ponto o sotaque do interior paulista foi denunciado na volta do ‘R’) e aí depois era feito um depósito para essas pessoas. Elas abriam a conta e era depositado um valor de R$ 200,00 em parcela única, para o dono dessa conta.

- E quem dava o dinheiro era o Luciano?

- Então, o Luciano era um parceiro do projeto. O projeto mesmo ele foi idealizado pela (...)

- Quem foi que idealizou, que eu não ouvi direito? Cê pode repetir?

- A OI. A operadora.

- Ah! Sim...

- E o Luciano entrou como parceiro do projeto também. Teve o (...) Nunes... Também foi um parceiro do projeto.

- Quem é Nunes? Quem é?

- Whindersson Nunes (influencer). E também teve o Marcos Mion (apresentador).

- Eles deram dinheiro também?

- Eu não tenho esta informação, mas provavelmente sim, porque entraram como parceiros, devem ter feito, sim, doações, para o projeto, mas o projeto arrecadava dinheiro mesmo de empresas e empresários, pessoas que queriam doar, mesmo, participar, pessoas que se comoviam com as histórias das famílias, doavam um valor, e assim a gente conseguiu fazer a doação em dinheiro para essas pessoas. 

- E foi muita gente que ganhou?

- Então, em torno de 10 mil famílias conseguiram ser beneficiadas por esse projeto. 

- Oxente!

- Não tenho o número exato, mas foi mais ou menos esse número de família. 

- Vai ter de novo? Porque eu precisava tanto...

- Então, no momento a gente está sem previsão de reabrir o projeto. Ele está encerrado. Eu não vou ter benefícios.

- Entendi. Precisava ter conta em banco?

- Não, porque a gente já é um banco. A gente já é um banco digital. A gente abria a conta pra pessoa...

- E como é essa conta em banco?

- Conta Zap. Nós somos uma conta digital, como um pós-bank, enfim, um banco digital mesmo, só que a gente funciona pelo WhatsApp.

- Eu nunca ouvi falar desse banco não...

- Sim, a senhora pode procurar na Internet, mesmo. Vai ter o site da gente lá, a senhora pode também ver no WhatsApp com Zap.com... A gente é um banco que funciona pelo WhatsApp. É o primeiro banco do Brasil que funciona pelo WhatsApp.

- Entendi...

- A senhora consegue abrir a sua conta como se fosse o aplicativo de um banco, tudo pelo WhatsApp. A gente tem um número, que esse que a senhora está ligando... Se a senhora salvar esse número no WhatsApp, ele vai ter... A senhora pode mandar um Oi que ele te responde. Ele vai ter um atendente virtual, aí a senhora pelo para abrir uma conta, vai pedir alguns dados da senhora, necessários para a abertura de uma conta e aí a senhora já tem uma conta aberta e a senhora consegue fazer tudo pelo WhatsApp. Boleto para depositar, transferência, para outra pessoa que tenha a conta Zap, com boleto...

- Mas se eu não tenho dinheiro nenhum, “nenhunzinho”, como é que eu vou ter conta?

- Eu estou explicando como é que funciona a conta – demonstrando certa impaciência – porque a ação, como eu disse, ela já encerrou. Não vai ter. 

- Mas que lástima...

- Não vai ter mais o benefício. Acabou já faz um mês.

- Vem pandemia de novo. Num tão falando por aí que vem pandemia de novo... Num vai reabrir?

- Então, a gente não sabe. Não tenho essa informação para passar para a senhora. Mas como ele é um benefício de uma única doação, não é como o auxílio emergencial, que pagava as pessoas todo mês, foi uma vez só... Então ele era uma região muito selecionada. Não é em todo o Brasil, nem em todas as pessoas.

- Em quantas cidades que teve isto?

- Em quantas cidades?... A gente procurou as comunidades... A primeira comunidade que a gente fez esse projeto desde o início, foi aí em Maceió, em Vergel do Lago...

- E eu não soube de nada disso. Nadinha de nada...

- A senhora é de Vergel? (lá em cima ele tinha dito que Vergel ficava em Recife, agora ele já me perguntava se eu era de Vergel, sabendo que eu tinha dito que falava de Alagoas)...

- Sou de Vergel...

- Foram alguns bairros de Vergel aí... E depois daí a gente foi para Recife, também para alguns lugares. A senhora mora ali mais ou menos perto da Praça Santa Tereza?

- É isso...

- Então, foi mais ou menos por aí...

- Mas que coisa...

- Depois a gente foi para Recife, ali, em Pernambuco, Vila Vintém, Favela do Plástico, a gente também esteve lá, e depois nós fomos para... Esse último agora foi em Salvador, na Bahia. 

Entendo. Perdi... Perdi... Meus meninos tavam tudo esperando esse dinheirinho, né?

- Sim. Entendo... Realmente lá a gente já foi a primeira, né? Que foi lá... No início do ano a gente conseguiu tá passando aí, né?

- A senhora tem mais alguma dívida?

- Não tenho não. Quer dizer. Luciano vem pra presidente?

- Desculpa, não entendi...

- Luciano vai vim pra presidente?

- Não sei. A gente não tem nenhum vínculo com ele nesta questão política. Ele foi só um parceiro do projeto e nada mais. Na questão política a gente não tem muita informação.

- Porque se você tivesse eu ia pedir pra vê se ele arranja o meu caso. Uma coisinha assim é pouco pra ele, né?

- É. É verdade. A senhora tem mais alguma dúvida?

- Era isso.

-Ok, então. A gente agradece o contato da senhora. Qualquer dúvida a senhora pode entrar em contato com a gente de novo. A gente deseja pra senhora uma boa tarde.

- Tu é da Oi?

- Não. Eu trabalho no Conta Zap. A senhora ligou para a conta Zap.

- Você pode falar seu nome pra mim?

- Meu nome é Áureo Dantas.

- Obrigada pela paciência de ouvir essa mulher humilde e precisava desse dinheirinho, entende?

- A gente está aqui para isso mesmo. Para atender a senhora e para tirar todas as dúvidas. Realmente, se eu pudesse fazer alguma coisa em relação ao projeto, mas eu não posso passar para a senhora uma informação falsa, né? Mas eu estou sendo o mais sincero possível com a senhora, com relação ao projeto ele realmente acabou e não tem o que a gente faça, mas caso o projeto reabra é só a senhora seguir a gente na rede social, que a senhora fica sabendo. Não tem nenhuma data, não sei se ele vai voltar, mas se a senhora quiser nos seguir, lá no Facebook, ou no Zap do Bem, a gente vai ter lá uma página para isso.

-  Fica com Deus.

- A senhora também.

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