O ‘zig zag’ da educação paulista

Dispender esforços para "reorganizar" a rede estadual de ensino soa superficial quando, se sabe, o que a escola de São Paulo precisa é de investimentos na valorização de seu corpo docente e de seus funcionários

Não consigo concordar com os argumentos oficiais postos - pela imprensa, ressalte-se - para justificar o processo de reestruturação do ensino no estado de São Paulo, que já vem debilitado por uma educação continuada que produz, em sua maioria, jovens analfabetos funcionais ou analfabetos 'ao pé da letra'. 2015 não foi um ano, o de número 21 com o PSDB à frente do governo estadual, de boas notícias para a comunidade escolar e para a sociedade no campo da educação pública paulista.

Estamos fechando o ano com estudantes insatisfeitos com a falta de diálogo e com a forma equivocada de realizar mudanças estruturais sem ao menos consultar a comunidade escolar, como é o processo que prevê escolas de ciclo único. Dezenas de unidades escolares estão sendo ocupadas no interior e na capital por movimentos de defesa do ensino e por estudantes e professores, cerca de dez dias depois do anúncio oficial de como vai funcionar a rede de ensino em 2016.

Embora o governo estadual queira fazer crer tratar-se de intransigência dos estudantes, na realidade, a ocupação de escolas busca, entre outros, preservar o que é público e afastar qualquer risco de ver o patrimônio estadual dilapidando até o ponto de ficar "inviável a manutenção de sua posse". Além disso, os estudantes defendem seu direito de estudar próximo de suas casas. Pais e mães defendem o direito de ter seus filhos em uma única escola. Reorganizar qualquer coisa causando um enorme transtorno à imensa maioria dos envolvidos não convém que seja feita no afogadilho.

E o mais triste é ver que a reação do governo a tal movimento segue o manual utilizado contra professores e estudantes em outros momentos: sua força de polícia contra os manifestantes, sem sensibilizar-se de que o processo precisa ser suspenso para ser amplamente dialogado, pelo menos. O assunto promete duros embates na Assembleia Legislativa, onde muitos deputados, inclusive, estão recebendo a reclamação da sociedade.

É preciso que o senhor secretário da Educação e o senhor governador do estado se sensibilizem. A educação em São Paulo começou o ano com fechamentos de salas de aula, com dispensa de professores; atravessou meados de 2015 com uma das maiores greves de professores já realizadas por aqui e fecha o ano com uma proposta que em nada favorece a comunidade escolar.

Dispender esforços para "reorganizar" a rede estadual de ensino soa superficial quando, se sabe, o que a escola de São Paulo precisa é de investimentos na valorização de seu corpo docente e de seus funcionários, precisa equipar seus laboratórios, precisa cuidar efetivamente da segurança dos estudantes, tantas vezes vulneráveis ao tráfico de drogas e a outras formas de criminalidade no entorno das escolas; precisa melhorar a merenda que serve aos estudantes, enfim...

Por isso não consigo aceitar os argumentos oficiais de que a reestruturação busca "atender as demandas de cada etapa escolar, com escolas atentas à nova realidade de cada faixa etária". Toda a comunidade envolvida no dia a dia das escolas sabe que a prática vem mostrando outra coisa frente às muitas tentativas de mudar a rede de ensino paulista sem, efetivamente, tocar em feridas abertas.

O que a escola de São Paulo precisa é enfrentar seus obstáculos que a impedem de evoluir em qualidade; ficar jogando "Escravos de Jó" de tempos em tempos, não vai garantir o aprendizado dos estudantes.

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