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Camilo Irineu Quartarollo

Autor de nove livros, químico, professor de química, com formação parcial em teologia e filosofia.

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Obras inacabadas

Atualmente, Piracicaba é uma terra deflorada, árvores podadas, tocos e cavacos

Obras inacabadas (Foto: Prefeitura de Piracicaba)
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Deus “coçô os zóio” aqui na terrinha de Piracicaba e lhe escorreu um rio de lágrimas. O pai celestial amiudou-se por aqui pela intuição e reciprocidade dos olhares. Por tanto amor, sentou-se nas pedras do Salto e chorou, pois Ele mesmo não acreditaria que teria criado tanta beleza de si próprio. Sua voz ribombou nas pedras do Bongue: creio, eu existo! 

Atualmente, Piracicaba é uma terra deflorada, árvores podadas, tocos e cavacos. Os arredores do rio principal está horrível. Tem mais megaprojetos que pernilongos a zunzunar nas orelhas. Nem bem se termina uma obra pública o prefeito já garganteia outra. Com bordão copiado do programa federal para os inadimplentes, o prefeito incorporou um pessoal desde a campanha dele, o DESENROLA. Aqui a administração usufrui das verbas federais e vai subindo os impostos municipais, e não sobra! 

Se ao menos fizesse as pequenas obras... Às vezes ficamos em dúvida se há governo, porque não consegue cumprir tarefas mínimas ou entregar as começadas. E vão cortando árvores...

Sofrem também as APP, áreas de proteção permanente, lagoinhas, encostas e de nascentes. Essas garantiriam um clima mais ameno, um ar mais respirável e beleza de animais diversos. Contudo, passíveis de construções irregulares e questionadas no Ministério Público, notadamente nos bairros Monte Feliz, Noiva da Colina e Água Branca. Por destruir a vegetação, é objeto de ação na Justiça o projeto chamado de Revitalização da Rua do Porto junto às margens do Rio Piracicaba. 

O novo núcleo urbano, o tal Núcleo Urbano Isolado 15 – Nuinorte II, será sobre uma região de proteção hídrica, nas margens da Rodovia Hermínio Petrin (SP-308), que liga Piracicaba a Charqueada. O plano é atrair empresas do setor metalomecânico, para uma área de 109 mil metros quadrados. O que manda, nos parece, é o investimento e retorno rápido. As APP correm risco. 

A Câmara de vereadores, exceto algumas vereadoras e vereadores mais conscientes, pouco ajuda nessa complexidade. Pois, sua maioria constitui-se de partidários do chefe do executivo. Os projetos, enfiados de última hora, são aprovados sem os estudos das minúcias próprias de leis e projetos. Votam numa crença da boa intenção do prefeito. Essa pressa impede discussões aprofundadas e torna a Câmara quase um apêndice da prefeitura, com rasgados elogios ao chefe da administração. 

Para os moradores antigos de beira, os “lá de baixo”, o rio é obra divina na qual convivem respeitando seus ciclos de cheia e abundância, de quando se vivia da pesca, do peixe com mandioca, da pamonha, das rezas para o Divino, das quermesses onde se contavam causos, onde se vivia um dia após outro na voz familiar da natureza e se dormia com os bichos. Os caipiras restantes, e já são poucos, conhecem o barro em que pisam, de ouvir pássaros sabem quando chove, quando esfria e a hora de pitar na soleira aos olhos das circunstâncias, as quais não andam boas, compadre. Somos obras inacabadas, mas do pai divino.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.