Obscurantismo científico, furto de Beagles e ajudinha da PM

Uma sociedade vesga não compreende como os benefícios da ciência, dos medicamentos, dos testes em laboratórios são alcançados

Uma sociedade vesga não compreende como os benefícios da ciência, dos medicamentos, dos testes em laboratórios são alcançados
Uma sociedade vesga não compreende como os benefícios da ciência, dos medicamentos, dos testes em laboratórios são alcançados (Foto: Jean Menezes de Aguiar)

Com a informação de que os 178 Beagles furtados do Instituto Royal eram utilizados em estudos sérios para a cura do câncer, os engajados-de-plantão ficaram com cara de chuchu. O que houve no Instituto, na calada da noite, em Direito, se chama crime de furto qualificado, com pena no Código Penal de 2 a 8 anos de reclusão. E a Polícia Militar "ajudou". Falou para os ladrões andarem rápido. Se a "versão" jurídica não é esta, por que será que a Polícia Civil registrou ocorrência de crime neste sentido? Teria o delegado "enlouquecido"? Com certeza não.

O obscurantismo está em alta numa sociedade em que o analfabetismo em ciência é a regra. Não estranhe, é mera lição de ninguém menos que o maravilhoso Carl Sagan na obra "O mundo assombrado pelos demônios". Também parece estar na moda um pieguismo espumoso, em que pessoas adoram proclamar "pena" de coisas e pessoas, o traço visível do preconceito. O mesmo "sentir pena" ou "dó" usado como biombo no furto dos cães, sob a estapafúrdia alegação, nada provada, mas berrada, de que os "pobres" Beagles eram maltratados.

O médico Marcelo Morales, coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e membro da diretoria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), afirmou, categoricamente, que nenhum animal retirado do laboratório do Instituto Royal sofria maus-tratos ou mutilações. Mas que se dane o médico, a ciência, os fatos e a cura do câncer. Quem sabe das coisas ligadas a "cachorrinhos" deve ser a bonita Marina Zatz de Camargo, mais conhecida como Luisa Mell, "modelo & manequim".

O jornalista Alan Maschio, do Antiblog, abriu crítico questionamento. "Por uma simples questão de coerência, quem é contra o uso de animais para pesquisas médicas deve abrir mão de todo e qualquer tipo de tratamento que tenha feito uso desse recurso para evoluir. E bota tratamento nisso – são muitos. ... Acho ridículo, por exemplo, que se teste o potencial alérgico que um produto no olho de um coelho. Mas estamos falando de cosméticos, neste caso. Não de remédios ou de tratamentos contra o câncer. Por sinal... Será que as mulheres que invadiram o instituto paulista para salvar os beagles usam maquiagem?"

Surf e casquinha

Muita gente já se apresentou pra surfar na onda e tirar sua casquinha. Até em Brasília, claro. Henrique Alves (PMDB), presidente da Câmara, prometeu uma "comissão externa" de deputados. Que festa não será isso. Jetons, passagens aéreas, aluguel de carros, motoristas, seguranças, almoços, hotéis, viagens internacionais a Europa (com as patroas! – ou namoradas) para se comparar como são os institutos de outros muitos países etc.

O deputado-delegado Protógenes (PCdoB) também já se apressou em protocolar um requerimento pedindo a criação de uma Comissão Especial "na" Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado para saber o que a Polícia Civil fará. Deve estar muito preocupado. De quebra, quer uma "lei" proibindo teste em animais. Que cabeça "evoluída" a do parlamentar, dirão os pesquisadores da SBPC. Por falar no delegado, cadê Tiririca?

O deputado Ricardo Izar (PSD) também protocolou requerimento. Mas no Ministério da Ciência e Tecnologia. Quer a adoção de ações que restrinjam o uso de animais para pesquisas do setor de cosméticos. Talvez pelos cálculos do deputado, o cosmético se der alergia, ou câncer, no ser humano, não tem problema. O que importa são os cachorrinhos.

Já o deputado Ricardo Trípoli (PSDB) desafiou, sobre duas cadelas que a polícia lhe entregou temporariamente: "Vou às últimas consequências. Seja qual for a instância do Judiciário que eu tenha que ir para mantê-las conosco". Que beleza. Deve ter calculado que com uma declaração desta garante uns 5 mil votos nas próximas eleições. O pior é que pode não estar errado em seu cálculo.

Uma sociedade vesga não compreende como os benefícios da ciência, dos medicamentos, dos testes em laboratórios são alcançados. Tudo isto para que humanos, sim, humanos – crianças, idosos, jovens, doentes terminais e tantos outros-, tenham uma vida melhor. Avança Brasil.

Do blog Observatório Geral

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