Onde há fumaça, o fogo já alastrou

(Foto: Agência Brasil)

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia 

Os que viveram o período do arbítrio ou tem alguma preocupação com o social sentem de longe o cheiro de pólvora no ar... Quando um presidente da República fala ser necessário “colocar filtro” nos projetos a serem apoiados pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), ou quer ser informado sobre os índices de desmatamento – hoje na casa dos 88% -, e que ele agora considera muito grave serem divulgados lá fora, isto tem um nome e não admite apelidos: Censura!

E é bom não encararmos como atitude “desastrada” as falas destrambelhadas de Jair Bolsonaro quanto às várias pautas que tem escolhido para embaralhar o jogo na mídia e nas mesas de bar. Suas atitudes têm medida, alvo e rumo certo. Tumultuar os fatos à flor da pele, para agir na camada subcutânea com manobras entreguistas e persecutórias aos direitos dos trabalhadores. Em suma, desviar a atenção.

Nos últimos dias, atirou na história da jornalista Miriam Leitão, ex-militante do PC do B, que atuou na propaganda contra a ditadura, fazendo pichações e colando cartazes. Foi presa aos 19 anos, grávida e torturada. Denunciou isto na época, numa atitude corajosa, no ano de 1972, o ano em que a repressão mais matou e desapareceu com os que resistiam ao regime totalitário e truculento, tão elogiado pelo presidente, enquanto declara ser adepto da liberdade de expressão.

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Não é verdade. E tanto é assim que quer ter ciência e ser informado em primeira mão, comunicado, sobre o que vai ser divulgado. Ora, não nascemos ontem, e sabemos bem o que quer dizer isto. Ou ele pensa que liberdade de expressão só vale para a mídia e memes, que diz tolerar?

Não é verdade que Miriam Leitão seja uma jornalista de esquerda. É falsa a “novelinha” que Bolsonaro contou para os correspondes estrangeiros, a respeito do passado de Miriam, que nunca pegou em armas e tampouco pensou em ir fazer a Guerrilha do Araguaia.  

Há um aspecto interessante nesse “imbróglio”: as Forças Armadas nunca admitiram publicamente chamar pelo nome aquilo a que todos nós sempre soubemos chamar-se Guerrilha do Araguaia. Ao nomeá-la dentro do Palácio, o atual presidente oficializou a existência da guerrilha que os militares negaram ao longo desses anos, embora as suas “campanhas” estejam registradas nos boletins mensais do Exército, para quem quiser saber quanto foi gasto para dizimar cerca de 70 jovens idealistas, no palco da selva amazônica.

O que é verdade nesta história é que Miriam é uma boa jornalista e profissional reconhecida pelos seus pares. O que também é verdade é que Miriam sofreu uma censura tão violenta quanto a que o presidente está tentando impor à Ancine e ao INPE, quando não lhe foi permitido, assim como ao seu marido, participar de uma feira do livro em Santa Catarina. E censura não cai bem nem contra o cinema, nem contra um diretor de instituição, a mídia, nem contra uma jornalista, qualquer que seja o colorido de suas ideias.

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A grande questão que se coloca é a seguinte. É desrespeitoso para com o passado de Miriam Leitão mentir e deturpar a sua história de vida. Vindo de um presidente da República, o desrespeito torna-se ainda maior. É ultrajante contra um cientista e diretor de uma instituição de renome ser atacado em público por seu chefe (isto é assédio moral). É ameaçador ver este mesmo presidente aventar a criação de um conselho que balize este ou aquele projeto artístico, não pela qualidade, mas pelo seu conteúdo.

Há, porém, um ponto convergente nesta história. O episódio contado por Miriam sobre a violência sofrida durante um voo, por petistas que “quase a agrediram”, foi desmentida por várias testemunhas presentes no mesmo avião. E não convém a generalização de que foi agredida “pelo PT”, pois ali não estava a direção do partido lhe dirigindo palavras fortes. Tampouco se pediu carteirinha de filiação aos supostos agressores. Sua versão, no mínimo ampliada, foi usada pela emissora em que trabalha para minimizar junto ao governo a ardência da nota em sua defesa, atacando o Partido dos trabalhadores. A nós, perplexos cidadãos, nos resta a postura intransigente contra a censura e a mentira, de qualquer natureza.  

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