Organização sindical: perspectivas e desafios na conjuntura atual

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Vivenciamos no Brasil um momento que exige reflexão e ação. Ameaçados por forças conservadoras e pelo neoliberalismo, sofremos retrocessos nas liberdades democráticas e ameaças aos direitos da classe trabalhadora.

Guardadas as devidas proporções, estamos revivendo a década de 80 quando também havia uma crise política e econômica. Os partidos de esquerda tinham pouca representação parlamentar. Havia uma forte organização social.  O movimento sindical ocupava um amplo e significativo espaço na sociedade. 

Em 1987, fruto do exercício do diálogo aprofundado, nasce, motivada pela criação de uma corrente sindical ampla e representativa, a Articulação Sindical. Naquele momento o papel de Luís Gushiken, então Secretário Sindical do PT, foi fundamental; estimulando o diálogo, promovia o debate e a formulação de novas concepções e práticas sindicais para enfrentar a fragmentação do movimento sindical CUTista.  

Com a percepção de que os trabalhadores também precisavam representantes no Congresso Nacional para defender seus interesses e enfrentar o patronato, a classe trabalhadora passou a eleger suas lideranças para compor a Câmara e o Senado.

Atualmente parece ocorrer uma inversão da década de 80.  Ser governo, exercer funções no Legislativo e Executivo, representar trabalhadores, gera conflitos e contradições. Provoca o movimento sindical para que retome seu papel de protagonista. Ações desenvolvidas desde o início deste ano comprovam a retomada da iniciativa política dos trabalhadores, nos fortaleceu para embates importantes: contra o PL da terceirização, o desemprego e o ajuste fiscal.

Para um maior avanço, é necessária uma autocrítica sobre a organização que valoriza categorias específicas e fortalece o corporativismo em detrimento da construção do sentido de pertencimento à classe trabalhadora. O trabalhador não se vê como parte do grupo e não tem o sindicato como instrumento de conquista coletiva.

A fragmentação sindical também contribui para uma visão hierarquizada da sociedade. Nossa mea culpa precisa passar pela forma organizativa interna. Ao reforçarmos a organização vertical em detrimento da horizontal, perdemos o conceito de classe. Temos, inclusive, uma dissociação organizativa que faz com que, por exemplo, um sindicato de base seja filiado à CUT seja filiado a uma federação de outra central sindical. E esta federação pode estar filiada a uma Confederação de uma terceira central. Isso gera contradições internas, enviesa encaminhamentos, enfraquece ações.

A disputa ideológica exige também a ampliação e o aprofundamento da formação sindical, que hoje atinge um pequeno grupo, em geral formado por dirigentes. Os sindicatos precisam ser estimulados a resgatar sua atribuição formativa, atingindo amplas massas. São as entidades de base que fazem o contato direto com o trabalhador. Estratégias combinadas de formação e comunicação são fundamentais. As mídias sociais podem propiciar espaços importantes para a disputa da hegemonia. Nossos adversários, além de serem donos dos grandes meios de comunicação, usam muito bem as redes sociais e demais instrumentos tecnológicos para disseminar e fortalecer suas ideologias. Glauber Rocha dizia que com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” se podia revolucionar o cinema. E o fez. Possuímos muitas maneiras para levar a efeito ações significativas que nos levem a uma verdadeira revolução no movimento sindical.

A organização do trabalhador no local de trabalho é aspecto fundamental que precisa ser resgatado. A ousadia organizativa pode nos levar a organizar os trabalhadores que fazem parte de sindicatos cujas direções não compõem nossas fileiras. As CIPAS, nas quais temos abdicado de atuar são espaços importantes para uma organização ampla e forte. Para a OLT é fundamental, ainda, a territorialização, a interiorização, o enraizamento da CUT. Não pode ser pensada e articulada apenas nas grandes cidades. Para contribuir com essa tarefa é fundamental resgatarmos as CUTs regionais. 

A onda conservadora e neoliberal, combinada com nossas dificuldades, fez com que entrássemos em um círculo vicioso que nos levou a vítimas de uma operação de cerco e aniquilamento. Ajustes fiscais não revertem as dificuldades financeiras do governo e trouxeram consequências desastrosas como o desemprego e a diminuição de direitos. O círculo se fecha, e as campanhas salariais não trazem resultados econômicos. Precisamos encontrar as ferramentas para quebrar a corrente. Sair do imobilismo, continuar o movimento para a construção de um círculo virtuoso, construir alianças com os movimentos sociais é estratégico para mudar a política econômica, barrar o conservadorismo, avançar em direitos e cidadania.

Essas reflexões somente terão sentido se formos capazes de organizar uma metodologia de amplo e profundo debate entre nós.  Ao inviabilizarmos qualquer debate que se nos apresenta perdemos a chance de fortalecer os trabalhadores e suas organizações e reafirmar o caráter classista, democrático, de luta e pela base da Central Única dos Trabalhadores para fortalecer a luta pela construção de uma sociedade socialista. 

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