Os 4 fatores que ameaçam a candidatura de Lula, mesmo Flávio Bolsonaro estando em seu pior momento
Fatores econômicos, geopolíticos e a força do antipetismo ainda podem embaralhar a disputa presidencial e ameaçar o favoritismo de Lula
Após o Intercept Brasil conseguir um espetacular furo de reportagem, vazando diálogos entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, a candidatura do bolsonarismo a presidência da república vive o seu pior momento na disputa eleitoral. Segundo a equipe de jornalistas responsáveis pela análise do material que envolve o banqueiro preso, muito mais poderá vir a público e outros personagens podem ser dragados para o centro do escândalo, incluindo outros diálogos comprometedores relacionados ao próprio Flávio Bolsonaro.
As pesquisas de opinião eleitoral que saíram após o vazamento, confirmam a queda de pontos de Flávio e uma relativa recuperação de Lula, o que indica que existe um estrago real na campanha do principal representante da extrema direita brasileira. Possíveis aliados do centrão e da direita tradicional já se movimentam com cautela em apoio a Flávio, outros aguardam a evolução dos fatos para se posicionar, enquanto personalidades típicas do bolsonarismo começam a cobrar explicações e vociferar criticas. As principais candidaturas da direita estão entre a critica radical e o cuidado para não se precipitar, é o caso de Zema ( Novo) e Caiado ( PSD), que vacilam em se posicionar para não perder o dialogo com a base bolsonarista, enquanto Renan ( Missão) bate duro para tentar crescer entre eleitores da extrema direita. São táticas diferentes, mas ainda não é possível cravar se o eleitor mais conservador e reacionário vai mudar de opção, pelo menos até agora essa possibilidade é ainda pouco provável.
No espectro de esquerda cresceu o otimismo, alguns começam a insinuar que Lula já está reeleito, outros ainda estão vendo o cenário com reservas, mas admitem que a situação de Lula e do governo está melhor do que meses atrás. Nas redes sociais é um festival de memes e denuncias cotidianas relacionadas ao caso “BolsoMaster”, a cada avanço da policia federal contra alvos políticos ligados ao bolsonarismo, mais a militância de esquerda ganha munição. A 8º fase da operação “Compliance Zero” acaba de chegar na casa de Cláudio Castro( PL), ex-governador do Rio de Janeiro, qual será o próximo? A candidatura de Lula a presidência da republica conseguiu algo inédito, uma unidade histórica entre todos os partidos de esquerda com representação parlamentar, e já começamos ver análises de que o PT poderá vencer a eleição presidencial no primeiro turno.
É verdade que a fotografia do momento nos mostra que os ventos estão soprando a favor das forças progressistas, mas queremos chamar a atenção para 5 fatores que podem até outubro ameaçar a candidatura de Lula:
1. A resiliência bolsonarista e possível recuperação
Precisamos lembrar que não é a primeira vez que Flavio Bolsonaro esteve em apuros com a justiça, o caso da “ rachadinha” envolvendo o seu assessor Fabrício Queiroz teve 3 grandes picos de cobertura na mídia brasileira. Em Dezembro/2018 a Janeiro/2019 houve a explosão do caso, quando o relatório do COAF apontou movimentação atípica de R$ 1,2 milhão nas contas de Fabrício Queiroz. Depois em junho de 2020, no auge da campanha “ Cadê o Queiroz?”, ele foi preso em Atibaia-SP, na casa de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. O caso voltou ao noticiário e dominou as manchetes por semanas. Por ultimo, em novembro de 2020 o ministério publico do RJ denunciou Flávio Bolsonaro por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. A acusação era de desvio de R$ 6,1 milhões no gabinete da Alerj e esse caso teve um novo pico de cobertura.
Depois de toda essa repercussão negativa para o então senador da república Flávio Bolsonaro, o caso perdeu espaço na mídia após decisões do STJ em 2021 anulando quebras de sigilo por questão de foro e do STF anulando relatórios do Coaf. Em 2025 o TJ-RJ rejeitou novo pedido de quebra de sigilo e a investigação criminal foi encerrada, e no ano de 2026, Flavio Bolsonaro foi lançado candidato a presidência da republica pelo seu pai de dentro da cadeia, e sua ascensão foi meteórica,com uma impressionante transferência de votos, chegando a liderar dentro da margem de erro de várias pesquisas a corrida eleitoral contra Lula.
Caso não apareça nenhuma nova prova contundente de relações promíscuas entre Flávio e Vorcaro, não podemos esperar que a base eleitoral da extrema direita rompa com a candidatura da família bolsonaro, podendo inclusive o caso “ BolsoMaster” perder tração na realidade política do país, especialmente por envolver um arco grande de forças políticas do centrão que não desejam o avanço das investigações do caso. Isso significa que numa situação de polarização política extrema, a pressão do voto útil sobre aqueles que querem derrotar Lula e o PT pode devolver a candidatura de Flávio os votos que ele perdeu pelo desgaste atual, produzindo assim uma concreta recuperação de suas condições competitivas.
2. O anti-petismo e anti-lulismo consolidado no Brasil
O PT esteve envolvido diretamente nas principais disputas políticas do país nas ultimas quatro décadas, vitima de golpes e todo tipo de ataques pesados por parte da burguesia brasileira, acabou acumulando um forte desgaste. O que se traduz num anti-petismo e anti-lulismo que deu base para uma contra revolução antidemocrática dirigida pelo bolsonarismo entre 2016 e 2018 -- Golpe contra a presidenta Dilma, governo Temer e chegada do neofascismo golpista ao poder. Essa base social radicalmente crítica principalmente ao PT, mas também a qualquer força progressista, tem influencia de massas no país. Trata-se de um grande paredão que impede o crescimento do espaço à esquerda na opinião publica brasileira, produzindo uma situação de polarização política extrema em que vivemos nos últimos anos.
As pesquisas em geral tem mostrado que o espectro reacionário e progressista ocupa cada um de 35% a 40% do espaço político-eleitoral, restando uma margem de 20% a 30% de eleitores que se dizem não se identificar com nenhum espectro e que possuem opiniões pendulares, que oscila de acordo com a conjuntura imediata. Na atual situação política, com os escândalos públicos envolvendo a candidatura bolsonarista, esse eleitor de “centro/independente” tende a aumentar sua rejeição a Flavio Bolsonaro e pode se inclinar para outras candidaturas de direita ou até mesmo optar por votar em Lula.
Mas ao olharmos atentamente para polarização do país e a consolidação das bases eleitorais à esquerda e à direita, é nítida que a margem de mudança da opinião publica está restrita a uma fatia pequena do eleitorado e ajuda a explicar porque nesse momento Lula não dispara nas pesquisas, mesmo com boas entregas, mesmo defendendo pautas como o fim da escala 6x1 e mesmo com tantos escândalos envolvendo o bolsonarismo. Isso significa que se a situação econômica fugir ao controle ou escândalos como o “BolsoMaster” também envolver personagens identificados como próximos ao governo até setembro/outubro, Lula poderá ter problemas com a opinião publica e Flávio poderá se recuperar.
É preciso ainda destacar que existe um anti-petismo de esquerda, que se expressa em pequenas organizações e personalidades da esquerda ultra radicais e/ou erráticas, que geralmente subestimam as consequências dos avanços da extrema direita no Brasil e no mundo. Embora seja um setor muito minoritário, ainda sim, são capazes de concretamente ajudar eleitoralmente a extrema direita ma matemática eleitoral. Dois exemplos: Bolsonado ganhou a chance de ir ao segundo turno em 2022, porque os votos das candidaturas presidenciais de esquerda juntas, tiraram a chance de Lula vencer no primeiro turno. Assim como, Edegar Preto ( PT) ficou de fora do segundo turno para governador no Rio Grande do Sul em 2022, pois os votos das candidaturas de esquerda desses pequenos partidos foi suficiente para ajudar Eduardo Leite (PSDB) ir ao segundo turno. Uma simples visita no site do TSE para verificar esses números, facilmente se confirmar esses dois exemplos que acabamos de citar.
3.Guerras + El Ninho = Inflação
O mundo está vivendo nesse momento uma crise energética produzida por duas grandes guerras regionais - Rússia x Ucrânia/Otan e Irã x EUA/Israel. Os países envolvidos nessas guerras são grandes produtores de energia, especialmente no caso da guerra do golfo pérsico, que acaba estrangulando a oferta de combustível e fertilizantes, não só pelo fechamento do estreito de Ormuz, mas também porque toda estrutura petroquímica dos países da região já sofreu estragos que poderão ser ampliados caso a guerra seguir escalando. Segundo dados da Opep, o preço do barril de petróleo em novembro/dezembro de 2025, antes do inicio dos combates entre EUA e Irã, oscilava entre U$60,00 e U$70,00 dólares. Após o inicio do conflito, esse preço subiu para U$90,00 a U$120,00 dólares. O governo Lula tem conseguido segurar relativamente o preço da gasolina e do diesel na bomba do posto de combustível, acaba de publicar um decreto fixando o valor do subsídio de R$0,44 por litro de gasolina. Mas sabemos que é uma operação difícil de manter por longo tempo e surtos inflacionários ligados a oscilações mais fortes do preço do petróleo provocado pelas guerras podem se impor na realidade, prejudicando a popularidade do governo. Mas como se isso não bastasse, uma forte onda de alerta está tomando as redes sociais e a mídia tradicional sobre a possibilidade da formação de um super El Ninho no segundo semestre desse ano.
Caso esse fenômeno climático de impacto fora dos padrões se confirmar, teremos chuvas e secas intensas por todo segundo semestre, que poderá causar quebras de safras e pastos. As culturas de milho, trigo, café, soja e pastagens podem sofrer um estrago maior, elevando o preço desses produtos, como também o preço da proteína animal bovina, suína e aves, criações que tem como base da sua alimentação pastagens e ração a base de milho.
Uma inflação fora de controle no segundo semestre desse ano, principalmente entre os meses de julho a setembro, pode alterar o humor do eleitor, servindo de munição pra oposição atacar e conseguir tirar votos da candidatura de Lula.
4.O Fator Trump
No momento em que escrevemos esse artigo, Flavio Bolsonaro se encontra em Washington, e os rumores de um possível encontro com Trump está por toda mídia. Não é possível saber se será recebido ou não numa agenda na Casa Branca, caso aconteça, será um fato incomum, pois um presidente americano receber formalmente um candidato à presidência de outro país, tem potencial para desencadear tensões diplomáticas e pode ajudar a candidatura bolsonarista sair das cordas nesse momento.
Mas independente se Trump vai ou não receber Flávio no salão oval, sabemos que no mundo real, a vitória de um candidato bolsonarista seria muito bem vista para os planos da estratégia trumpista para a América Latina. O Brasil pode estar sofrendo nesse momento uma influencia na disputa política via redes sociais através das grandes Big Techs no qual não temos como aferir. Ao mesmo tempo, uma movimentação cirúrgica do governo americano em relação ao governo brasileiro sobre temas que envolve o combate o crime organizado podem também atingir a opinião publica brasileira para o bem ou para o mal.
A dinâmica política da América Latina de 2025 até agora, tem confirmado uma ascensão de candidatos ligados ao trumpismo, essa tendência pode ser interrompida ou ampliada, a depender do resultado eleitoral no Peru, Colômbia e Brasil.
Hoje, esses são os 4 fatores críticos, com potencial de causar estragos na pretensão de Lula em alcançar um quarto mandato. Repare que parte desses fatores analisados possuem condições de serem controlados e mitigados, mas a depender da intensidade do desenvolvimento e do cruzamento dessas variáveis, todos os esforços em domar a gestão dessas crises poderá sair do controle e as consequências podem se expressar nas urnas.
Precisamos ter a consciência que a esquerda não tem hoje maioria no congresso nacional e dificilmente esse cenário vai mudar na disputa desse ano, também não apresenta condições de ampliar significativamente seu poder em governos estaduais e as pesquisas tem demonstrado muita dificuldade do governo em ampliar sua avaliação positiva em margem confortável. Esses são sinais que o “bom momento” de Lula é precário, e todo otimismo sem fundamentação, pode ser um estado de espírito equivocado para o tamanho do desafio, a dura realidade está exigindo superação sem vacilos para que Lula seja tetra!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

