Moisés Mendes avatar

Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

1145 artigos

HOME > blog

Os abolicionistas brancos do século 19 e os escravagistas do século 21

"A elite fez na luta contra a escravidão o que é impensável hoje com o empresariado dito liberal absorvido pela extrema direita”, escreve Moisés Mendes

Manifestação pelo fim da escala de trabalho 6x1 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O mundo iria acabar a partir do que aconteceria no Brasil em 1888, com o previsível fim da escravidão. Os jornais anunciavam: as fazendas e as cidades não terão trabalhadores, e os escravos não saberão o que fazer da vida quando libertos.

Mas pouco se fala hoje dos jornais criados por  abolicionistas, entre os quais muitos empresários sinceros. Essas publicações artesanais existiram em vários Estados e suas histórias nos conduzem a mais uma conclusão constrangedora: hoje, não há nada parecido.

A possibilidade de fim da escala 6 X 1 criou a mesma reação hegemônica do fim do século 19. O Brasil irá quebrar se acabar com um modelo de trabalho cruel e superado. Mas não há contraponto organizado de parte da elite, como aconteceu em 1888. 

Não há, pelo ponto de vista dos empresários, nada semelhante aos jornais que apoiavam o fim da exploração de pessoas escravizadas. Nenhuma entidade empresarial tem posição categórica pela abolição da escala quase escravagista.

Um exemplo do que não temos hoje. Em 1882, na região do latifúndio gaúcho, um grupo de fazendeiros, comerciantes e profissionais liberais criou a Gazeta de Alegrete. Eram liderados pelo advogado e também fazendeiro Luis de Freitas Vale, o Barão do Ibirocay. A Gazeta surge um ano antes da publicação de ‘O Abolicionismo’ por Joaquim Nabuco.

Foram criados, além do jornal, clubes emancipatórios por lideranças da cidade. A sociedade se organizou para a libertação muito antes da abolição. Em 7 de setembro de 1884, a Gazeta anunciava: por decisão da Câmara de Vereadores, não há mais escravizados em Alegrete. Faziam festas nas fazendas e na cidade.

A escravidão é dada como encerrada no Rio Grande do Sul naquele ano de 1884. Era uma medida imperfeita, que possibilitava desvios provocados pelos interessados em ganhar dinheiro com a perspectiva do fim do trabalho cativo. 

Muitos anunciaram a libertação, mas continuaram explorando o escravismo sob outros disfarces. Mas, no que importava, havia o gesto político com o aviso: não queremos mais transformar pessoas em escravos.

O importante é que a Gazeta de Alegrete, na terra dos bois e das ovelhas, é contemporânea da Gazeta da Tarde, o jornal que José do Patrocínio transforma em voz do abolicionismo. Mas a Gazeta de Patrocínio circulava entre iluministas do Rio de Janeiro. A Gazeta de Freitas Valle, no sul do Brasil agrário e atrasado.

Alegrete é a terra de Luiza de Freitas Vale Aranha, sobrinha do barão e mãe de Osvaldo Aranha. E terra do próprio Osvaldo e, depois, de Mario Quintana, João Saldanha, Paulo Cesar Pereio, Aldo Fagundes, Walmor Chagas, Laci Osório. 

Ali, no meio do campo, o movimento abolicionista ganha impulso e inspira outras ações na mesma direção no resto do Estado. Com o predomínio de lideranças brancas, porque elas mandavam, aliadas a líderes negros emergentes.

Alguém imagina algo parecido hoje, em qualquer parte do Brasil, diante da reação quase escravocrata dos brancos ricos e da classe média que se negam a extinguir a escala 6 X 1? 

Onde pode ser encontrado alguém do porte de um Barão do Ibirocay, que ganhou o título do Império  por ser um abolicionista? Há abolicionistas hoje na elite brasileira, que ainda é flagrada explorando trabalho escravo?

Que essa elite escravista, se não quer ler o negro José do Patrocínio, leia o branco Fernando Henrique Cardoso em seu grandioso ‘Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional’, de 1963, sobre os escravocratas gaúchos. 

Que leia os historiadores mais jovens Jônas Marques Caratti (autor de ‘O solo da Liberdade’, Editora Unisinos) e Marcelo Santos Matheus (‘Fronteiras da Liberdade’, da mesma editora), com histórias de gente, e não com as controvérsias de novas teses sobre a escravidão. Dois livros com a palavra liberdade nos títulos. 

Leiam os arquivos das Gazetas do Alegrete e do Rio e o jornal A Federação, o mais importante do Rio Grande do Sul na época, o jornal de Júlio de Castilhos, também abolicionista.

Leiam os jornais dos positivistas e os folhetos e panfletos de cariocas, paulistas, baianos, produzidos  em defesa da abolição. Não se atrapalhem com as acusações, repetidas hoje, de que tudo que partia dos brancos era uma farsa. Não era.

Mas não procurem nada parecido nos jornais das elites do século 21. Lembrem-se disso que não é detalhe: A Província de São Paulo foi um jornal abolicionista, com opiniões incisivas sobre o fim da escravidão.

Saibam que A Província é o nome original do que se chama hoje O Estado de São Paulo, o Estadão, que  sabota o fim da escala 6 X 1, porque pode causar desagregação entre capital e trabalho. A elite branca antes liberal foi absorvida pelo fascismo bolsonarista.

Este é o título de um editorial recente do Estadão sobre o projeto: “Uma PEC feita para palanque”. No melhor estilo do jornalismo usado como trincheira pelos escravagistas. E que o Estadão, na sua origem, combatia.

A elite brasileira e o jornalismo das corporações por ela produzido retrocederam ao que existia de pior no começo do século 19, com chamadas como essa, para artigo de Malu Gaspar no Globo: ‘PEC que acaba com escala 6 x 1 tem potencial para emparedar o governo Lula’. 

Quem teria emparedado Lula, conforme a versão da direita? Está lá no texto de Malu Gaspar: Erika Hilton, a autora da ideia considerada desastrosa. Erika é a abolicionista do século 21. Uma ativista atrevida, articulada, transgressora, negra e trans. E com mandato. 

O texto da colunista do Globo poderia estar em qualquer jornal defensor do escravismo em 1888. Tentem, sem muito esforço, ver como jornalistas do século 21 abordariam em suas colunas as campanhas contra a escravidão no final do século 19.

(Tenho a honra e a ostentação de dizer que, entre 1970 e 1973, trabalhei na Gazeta de Alegrete, o jornal criado em 1882 para lutar pelo abolicionismo. Comecei minha lida de repórter num jornal criado para lutar pela abolição. A Gazeta circula até hoje.)

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.