Os Bolsonaros perderam a Tramontana

O jornalista Gilvandro Filho, colunista do 247 e membro do Jornalistas pela Democracia, conta que os antigos navegadores que se aventuraram pelos mares do Atlântico e do Pacífico costumavam se guiar por uma estrela polar, a Tramontana, "infalível para quem seguia o seu prumo corretamente", e traça um paralelo com a falta de rumo do presidente Jair Bolsonaro e seus três "intrépidos" filhos, que já nomearam não apenas afilhados para cargos públicos, mas os inimigos da hora, incluindo o maior de todos: a imprensa; "Para o clã, tudo de ruim que acontece no Brasil nos últimos 23 dias é culpa da imprensa que, sem mais nem porque, inventou um boicote ao governo"  

Os Bolsonaros perderam a Tramontana
Os Bolsonaros perderam a Tramontana

Por Gilvandro Filho, dos Jornalistas pela Democracia Os antigos navegadores que se aventuraram por bravios mares do Atlântico e do Pacífico costumavam se guiar por uma estrela polar, a Tramontana, infalível para quem seguia o seu prumo corretamente. Em tempos de caravelas, era infalível e absolutamente necessária. Não conseguir avistá-la era sinal de problemas, quase sempre fatais. Era quando os navegadores “perdiam a Tramontana”. O termo, se fôssemos usar o linguajar dos tempos virtuais de hoje, “viralizou” pelos séculos. Caiu um pouco em desuso na atualidade (é coisa dos mais velhinhos), mas se utiliza por aí. É o mesmo que “perdeu o bonde”, “pirou de vez” ou, trazendo para o Recife, “endoidou o cabeção”.

Qualquer um desses termos cai como uma luva no presidente Jair Bolsonaro e nos seus três intrépidos filhos, que já nomearam não apenas afilhados para cargos públicos, mas os inimigos da hora. Desses inimigos, o maior está definido: a imprensa.

Para os Bolsonaro, o grande motivo para o governo do clã não deslanchar não á falta de programa e de clareza de temas, nem o nível inacreditável a maioria dos seus ministros, ou a influência de figuras como Olavo de Carvalho, Steve Bannon e o próprio trio Flávio-Carlos-Eduardo, cujo desempenho não encontra paralelo na antologia da ostentação política nacional.

Para sair da política e entrar na seara do crime comum, e sempre olhando pela miopia dos Bolsonaro, a barafunda do governo nada tem a ver com a denúncia do ministério Público do RJ em cima de deputados estaduais, entre eles o hoje senador eleito e diplomado (mas ainda não empossado) Flávio Bolsonaro.

Nessa linha, a derrocada do governo não tem a ver com os desdobramentos do episódio de fuga e aparecimento em hospital de luxo de Fabrício Queiroz, o ex-assessor-motorista-pagador-amigo de fé-irmão-camarada da família. Nem com o envolvimento fraterno dos dois com Adriano Magalhães da Nobrega, chefe da milícia Escritório do Crime (RJ), preso por ser suspeito do assassinado na vereadora Marielle Franco e do motorista dela Anderson Gomes. Nem com a mãe do tal miliciano, assessora contratada pelo gabinete de Flávio. Nem com a homenagem do mesmo Flávio ao citado policial. E vai por aí.

Para o clã, tudo de ruim que acontece no Brasil nos últimos 23 dias é culpa da imprensa que, sem mais nem porque, inventou um boicote ao governo. Pura implicância. A tese foi defendida, nessa quarta-feira, pelo Bolsonaro do meio, Carlos, único dos três que não tem mandato, mas o mais próximo do pai-presidente, a ponto de, na posse, circular sentado no assento do bando traseiro do Rolls Royce presidencial por todo o percurso feito pelo presidente e pela primeira-dama. Ou no “bebê-conforto” oficial, como disseram nas redes sociais (não me lembro de quem).

Essa zanga toda é porque a maioria dos jornalistas - não somente os brasileiros, mas os da mídia internacional -, ninguém gostou do discurso do presidente do Fórum de Davos. Mas, nem podia. Foram seis minutos de um nada constrangedor. A falta de um mísero aplauso por parte dos analistas deve ter perturbado por demais o “Zero-Dois”, que ainda nominou a todos os jornalistas de “bandidos”. Boris Casoy deveria pedir retratação pública.

A presença de Bolsonaro em Davos, por sinal, entra com dois pés para o rol de sintomas de fiasco (termo que fez o segundo-filho espernear...) do governo. Sem querer fazer comparações, até por impropriedade, basta lembrar Lula em Davos, em 2003, para se ver como as coisas mudaram. Lá, o ex-presidente lançou as bases de vários programas, como o Fome Zero, e foi aclamado. Enquadrou o “Deus Mercado” e foi elogiado pelo próprio presidente do Citibank. O cantor Bono, na plateia, o saudou por levar ao evento a preocupação social.

Uma velha foto de Davos com Lula, Obama, Angela Merkel e outros líderes políticos mundiais, todos entrosados e gargalhantes, republicada nesses dias nas redes sociais, deve funcionar como um espinho na garganta de um presidente que acha o máximo falar sem dizer nada e almoçar no bandeijão do evento para ostentar a mesma “humildade” que imagina ter ao assinar decretos com caneta BIC.

A partir de Davos 2003, Lula teria seu nome inserido entre os grandes líderes políticos do mundo, a ponto de receber, no encontro de 2010, o prêmio de Estadista Global do Fórum.

A partir de Davos 2019, o Brasil talvez fique conhecido como o país do presidente sobre o qual afirmou o prêmio Nobel de Economia: “(...) é um grande país. Merece alguém melhor. Ele me dá medo”.

O quadro que o governo Bolsonaro e os Bolsonaro estão pintando do País no mundo se deve ao conjunto da obra, tão extensa e tão rápida. Isto não é culpa da imprensa. Até porque eles têm uma para chamar de sua, sempre atenta e disposta a defender o chefe.

Os fatos bizarros existem e, feito vírus, estão vivos e se multiplicando. Nada disso foi criado por ninguém para “atacar” o governo.

E isto deve doer.

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