Os corvos não farão falta na montagem de um pacto das esquerdas

FHC volta a pregar o que fez durante todo o ano de 2015 - a saída de Dilma. É muito cinismo falar em convergência nacional, respeito à diversidade de opiniões quando se prega o desrespeito à Constituição e o impeachment de uma presidente eleita democraticamente pelos brasileiros, sem a prática de nenhum crime de responsabilidade

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fhc (Foto: Chico Vigilante)
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Datas importantes tendem a nos tornar mais reflexivos que normalmente. A passagem para cada ano novo é uma delas. Promessas são feitas. Planos para um novo tempo são traçados.

Como político divido muito pouco meus sonhos pessoais com os sonhados para o Brasil neste ano que se inicia, após aquele torturante 2015 que tanto nos ensinou sobre a índole humana e política de alguns brasileiros.

O ano de 2016 mal começou e já me surpreendo – embora não devesse – com certas figuras da oposição que não perdem um segundo sequer no sentido de continuar pregando a discórdia, o ódio, a desgovernança e o exercício da mentira deslavada, embutidos num falso discurso de esperança em mudanças para o bem do Brasil.

FHC - no mais hipócrita dos estilos acadêmicos sobre os últimos acontecimentos na América Latina qualificado por ele de  ventos antipopulistas -  o que pretende na realidade é introduzir seu tema preferido: pregar a retirada da presidenta Dilma da Presidência da República, sob qualquer hipótese.

Após afirmar que o populismo começa a se desfazer e que os resultados das últimas eleições na Argentina e na Venezuela são sinais promissores ele confessa que seus votos para 2016 são que essa brisa benfazeja chegue ao Brasil.

FHC volta a pregar o que fez durante todo o ano de 2015 - a saída de Dilma. Ele diz: Há sinais de esperança. Comecemos 2016 com ânimo, imaginando que pelo melhor meio disponível (renúncia, retomada da liderança presidencial em novas bases ou, sendo inevitável, impeachment ou nulidade das eleições) encontraremos os caminhos da convergência nacional, respeitando a diversidade de opiniões, propiciando uma vida mais decente para todos, com a retomada do crescimento, a volta do emprego e a reconstrução da política republicana.

É muito cinismo falar em convergência nacional, respeito à diversidade de opiniões quando se prega o desrespeito à Constituição e o impeachment de uma presidente eleita democraticamente pelos brasileiros, sem a prática de nenhum crime de responsabilidade – única hipótese que poderia constituir razão jurídica para tal.

Em nenhum momento ele se preocupou em defender a prisão de Eduardo Cunha, ou outras figuras comprovadamente envolvidas em vários processos nas últimas décadas, com provas de ilícitos em processos nacionais e internacionais.

FHC também deve ter sofrido um lapso de memória em nem ao menos tentar defender seu colega tucano, o senador Aécio Neves, cujo nome é citado mais uma vez como recebedor de propinas em depoimentos da Operação Lava Jato.

Na última delas, em delação premiada  homologada pelo STF, Carlos Alexandre de Souza Rocha, entregador de dinheiro do doleiro Alberto Yousseff, afirmou que levou R$300 mil em setembro ou outubro de 2013 para o diretor da UTC, Antonio Carlos D’Agosto Miranda, e que este lhe disse que a soma iria para Aécio Neves.

Segundo o documento da delação, publicada pela imprensa, em uma das entregas feitas Carlos Alexandre de Souza Rocha disse que Antonio Carlos Miranda estava muito ansioso pelos R$300 mil.

Ao perguntar a Miranda a razão de tamanha ansiedade, Carlos Alexandre de Souza Rocha ouviu dele que “não aguento mais a pessoa me cobrando tanto”. Indagado sobre quem era essa pessoa Miranda respondeu : Aécio Neves.

À pergunta de Rocha, mas Aécio não é da oposição? o diretor da UTC, Miranda, teria respondido: “aqui a gente dá dinheiro pra todo mundo, situação, oposição, pessoal de cima do muro, pessoal do meio campo, todo mundo”.

A este respeito Aécio disse mais tarde “trata-se de uma falsa denúncia com o claro objetivo de tentar constranger o PSDB, confundir a opinião pública e desviar o foco das investigações”.

Falsas denúncias em delações premiadas podem ocorrer mas porque Aécio só diz isso quando se trata de denúncias contra ele?

O próprio FHC em seu artigo afirmou que ”como as regras da democracia prevalecem, não impera o medo e a mídia atua com propriedade informando o que ocorre nos gabinetes “.

Será que a mídia só atua com propriedade quando se trata de denúncias contra políticos petistas ? Ou FHC não leu os jornais sobre as denúncias a respeito de Aécio Neves ?

FHC quer tirar Dilma e deixar em seu lugar Michel Temer. Se a imprensa age com propriedade segundo FHC, ele deve ter gostado de saber, como todos nós, que a denúncia do Estadão sobre a emenda apresentada pelo deputado Eduardo Cunha explica bem que a manobra de Cunha na Lei dos Portos permitiu que o grupo Libra, da família Torrealba, do Rio de Janeiro, conseguisse renovar sua concessão no terminal portuário de Santos, em São Paulo, mesmo estando em dívida com a União.

Segundo a reportagem  dos jornalistas Daniel Bramatti, José Roberto de Toledo e Roberto Burgarelli, a Libra foi o único grupo beneficiário da alteração na lei e logo após a empresa doou R$ 1 milhão a uma pessoa jurídica criada por Michel Temer.

"Mesmo sendo candidato a vice, Temer criou em 2014 uma pessoa jurídica para receber doações eleitorais e repassá-las a candidatos a outros cargos públicos, como deputados estaduais e federais. Sua conta recebeu R$ 1 milhão de dois dos sócios do Grupo Libra, arrendatário de uma área de 100 mil m² no Porto de Santos há mais de 20 anos", diz o texto. 

A dívida do grupo Libra acumulada até 2008, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários, era de R$ 544 milhões – o que representa quase R$ 850 milhões em valores atuais. Será que FHC está preocupado em saber quanto terão pago no total dos donos da Libra para a renovação da concessão? O povo brasileiro quer saber.

A concessão foi renovada pelo ex-ministro dos portos, o deputado Edinho Araújo (PMDB-SP),  desligado do governo pela presidente Dilma Rousseff no começo de outubro de 2015 – ponto citado por Temer na sua carta de DR enviada a Dilma, como exemplo da “falta de preocupação” da presidente em “eliminar do governo” um ministro a ele “ligado”. Tá tudo explicado!.

Os corvos do quanto pior melhor para o país continuam, portanto, seu sobrevôo. Não estão preocupados em colocar na cadeia os corruptos, sejam eles quem for, e devolver para os cofres públicos o produtos de seus roubos. Nem em cobrar impostos das milhares de grandes empresas devedoras do fisco.

O que a oposição de FHCs, Aécios, Cunhas e Temers,  querem é defender seus próprios interesses, é proteger seus ilícitos, é mentir, é continuar na mesma pregação insana de 2015. Querem, o mal do Brasil e estão se lixando para o emprego dos trabalhadores brasileiros, os que dão seu suor e sangue para o progresso do país.

Eles não fazem e não farão falta ao Brasil. Não estão preocupados em montar uma frente pela governabilidade, buscar pontos de consenso pelo bem do Brasil e dos brasileiros, definir  uma agenda de reformas para restaurar o dinamismo e a confiança na economia brasileira.

Teóricos  brilhantes deste país, como o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, tem pregado como única saída para este difícil momento da vida do país, um movimento pactista no interior das esquerdas, o que não é uma tradição nacional, mas neste momento uma necessidade, única fórmula capaz de devolver  alguma esperança às classes populares.

Assim como já preguei em vários artigos volto a defender  reformas constitucionais  por meio de uma Assembléia Nacional Constituinte eleita especificamente para este fim, visando tornar a democracia representativa mais representativa, o sistema eleitoral mais representativo e mais transparente; e permitir que a democracia representativa seja complementada com a democracia participativa.

Para isso é necessário que os partidos de esquerda, os movimentos sociais organizados, a juventude, os intelectuais, os artistas, os trabalhadores e todos aqueles que acreditam na democracia se unam primeiramente e prioritariamente em defesa do Estado Democrático de Direito e em seguida em torno desta agenda comum de reformas por meio de uma Assembléia Nacional Constituinte.

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