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André Fernandes

Graduado em Direito e Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Recursos Naturais pela UPeace - Universidade das Nações Unidas. Pesquisador de antropologia da América do Sul.

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Os delírios perigosos de um Império fascista e sociopata

Os Estados Unidos estão fazendo de refém o mundo inteiro com suas bombas e seus delírios

Uma fotografia publicada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, na rede Truth Social, mostra a reunião com o diretor da CIA, John Ratcliffe, e o secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, enquanto comandam a invasão militar americana na Venezuela - 03/01/2026 (Foto: Redes sociais/Divulgação)

Certa vez, disseram-me que o narcisista é muito semelhante ao sociopata. Pois bem, muitos retratam o Presidente Donald Trump como um narcisista patológico. Acredito que passou despercebido, possivelmente por misturar geopolítica com psicologia, que não se trata de um “narcisista no poder”, mas de um “poder narcisista”: os Estados Unidos se tornou um império sociopata, e, como todo sociopata, uma vez acuado, torna-se muito perigoso.

O narcisista sempre acredita que os fins justificam os meios, e que seus fins são justos, assim como os meios imorais e covardes que ele emprega. O governo americano acredita no seu “destino manifesto”, quer acreditar que é uma “força benéfica” no mundo, uma “ilha democrática” rodeada de um oceano de traficantes, ditadores e terroristas.

A psicologia diz que isso se trata de uma projeção: você projeta nos outros aquilo que de fato define sua personalidade. Para outros, seria um “gaslighting”, um recurso da retórica narcisista: ou seja, Washington acusa todos aqueles que não se submetem aos seus desmandos àquilo que ele realmente é: autoritário, corsário, traidor, terrorista e covarde — estas são as virtudes do governo dos Estados Unidos da América, agora mais do que nunca na figura de Donald Trump. Seu assalto à Venezuela e ao povo venezuelano deixou evidente que é um Império sociopata e terrorista.

Aliado com o “culto da morte” do Oriente Médio, os Estados Unidos estão fazendo de refém o mundo inteiro com suas bombas e seus delírios de grandeza, acreditando, junto com sua gangue de mafiosos — Marco Rubio e outros — que irão sair ilesos e inocentes, fiéis às imagens da realidade alternativa que projetam em suas cabeças fruto de um “destino manifesto” em crise: um mundo pronto destinado a servir aos Estados Unidos da América e ao despotismo fascista mercenário que o serve no oeste da Ásia.

Os analistas políticos ainda discutem quem manda em quem: a “cabeça ou o rabo do cachorro”, mas sabe-se que é raivoso e fora de controle. Os psicanalistas chamariam isto de “colapso”. Ambos os países são duas cabeças da mesma quimera, e, como todo sociopata, não possuem limites.

Fratura-se, então, o sistema interestatal capitalista e se desintegra o direito internacional: o país “mais democrático” do mundo é aquele que inicia todas as guerras e financia todos os conflitos que trazem miséria, desespero e calamidade à humanidade. Pelo menos agora as coisas estão claras: o governo norte-americano é fascista, e fascistas são todos aqueles que se aliam e o apoiam.

Acabou-se a discussão de governo neoliberal ou de bem-estar social. Acabou a dicotomia “capitalismo vs socialismo”. Não se trata nem de colonialismo — pois o próprio colonialismo exige uma certa manutenção do povo colonizado para que possa gerar riqueza para o colonizador. Depois de Gaza, trata-se do puro extermínio.

E, vamos ser claros, trata-se exatamente disto que Donald Trump e seus asseclas ameaçam a Venezuela: ou se entregam ou os exterminamos. Nosso negócio não é o comércio, não somos liberais, não somos a favor da livre-concorrência, nem do colonialismo. Vocês escolhem: iremos roubá-los e vocês sobreviverão por alguns anos na miséria e no caos, ou te exterminamos com nossas bombas.

Onde estão as Nações Unidas? Onde estão os direitos da mulher, no caso a nova presidente Delcy Rodrigues ameaçada de ter um “destino pior que Maduro”? Onde estão os direitos da humanidade? O direito internacional? Bem, sinto dizer, alguém acendeu a luz e vimos que tudo isso era uma ilusão para mestrandos e doutorandos em humanidades.

Um governo de truculentos ameaça todo um continente — tenho que lhes dizer, eu já esperava por isso faz muito tempo — e surgem todo tipo de lacaios e “gusanos” sem espinha dorsal a apoiar tal ato. Estes não têm o costume de “mandar todos a Cuba”? Pois muito bem, podem ir todos para Miami limpar latrinas para serem expulsos de volta por um governo que não lhes quer e que os considera tão humanos quanto os palestinos.

Mais uma vez, há vantagem em tudo: agora sabemos quem possui espinha dorsal ou geleia na coluna vertebral, porque aqueles que torcem ao lado dos opressores do mundo são os primeiros a “abrirem o berro” nos momentos de dificuldade. Escondem sua covardia atrás da torcida e do desfrute.

Talvez a esquerda brasileira e mundial finalmente aprenda que não se discute com fascistas: você vai pra guerra! E a esquerda vacilou e negociou por tanto tempo que, vejam só, a guerra chegou até vocês! Vão fazer o que agora? Vão apelar para o Tribunal de Haia? Boa sorte, os palestinos que o digam.

E os latino-americanos descobriram que não são melhores que os palestinos. A União Europeia, na figura de seu personagem de filme de vampiro de quinta categoria, Kaja Kallas — Vice-Presidente da Comissão Europeia — já “abriu o berro” para dizer que Nicolás Maduro não era legítimo.

Kaja Kallas, outro “invertebrado” que apenas está no cargo que ocupa para “seguir ordens”. Assim como sua “superior” Ursula von der Leyen — se é que existe algum nível superior no interior da astenosfera onde vive essa gente.

Sim, a Europa e os Estados Unidos mostram suas caras, e só não veem os ignorantes e os cúmplices — que são quase a mesma coisa. O Brasil surge como um estandarte da liberdade! O Presidente Lula, odiado por Donald Trump — por enxergar aquilo tudo o que ele jamais poderá ser — tornou-se figura singular contra o fascismo norte-americano no seu ataque à América do Sul.

Eu irei tentar deixar bem claro: estamos tratando de um governo que, através de seu país mercenário, exterminou milhares de velhos, mulheres e crianças com bombas e tiros na cabeça de “snipers”. Ao que tudo indica, está começando a aplicar esses métodos terroristas no continente latino-americano.

Apesar de termos um histórico de ditaduras militares, a guerra de extermínio ainda é uma novidade entre nós, mas se não nos mobilizarmos poderá ser o nosso “novo normal”.

Na sua obra “A política externa norte-americana e seus teóricos”, o historiador Perry Anderson descreve como os lunáticos do Estado profundo norte-americano pensam sua política externa. Durante todo o século XX, o governo norte-americano se alternava entre a URSS e a China: os agentes do Pentágono e da CIA não se colocavam de acordo qual era o “inimigo” mais perigoso e, de tempos em tempos, procuravam atrair um dos dois para poder fazer frente à “maior ameaça” da vez.

Foi por isso que Nixon fez as pazes com Mao Tse Tung na segunda metade do século XX: o presidente americano tinha o objetivo de fazer frente à URSS, afastando a China da esfera de influência russa. Dividir para reinar.

No entanto, também fizeram o contrário: procuravam atrair a Rússia quando acreditavam que a maior ameaça viria da China. Resultado, o maior temor de todos os ideólogos e formuladores de política externa — Henry Kissinger, Zbigniew Brzezinski etc — finalmente aconteceu: a Rússia e a China uniram-se, e não há nada que o Pentágono e a Casa Branca possam fazer para separá-los.

Covardes que são, declararam guerra ao Sul-Global, pois sabem que, seja nos Brics ou em qualquer outra organização que envolva o Sul Global, o “Urso” e o “Dragão”, Washington e seus asseclas não serão bem-vindos. Nem eles e nem os europeus.

Tal qual uma gangue que infernizou a vida de todos no bairro, e hoje não são mais convidados para as festas, saem então batendo e arrombando a porta das casas. Eis o fim da democracia ocidental: um bando de países em franca decadência que somente provocam repulsa aos povos do Sul Global, e que agora resolveram partir para a última arma dos covardes: provocar o medo.

Antes, pelo menos havia a “Aliança para o Progresso” e seus congêneres. Não, não há mais nada. Apenas ameaças, bombas e sequestros de chefes de Estado. São estes os que querem governar a humanidade? São estes os bastiões da civilização?

A História, implacável como ela sempre foi, possui a virtude de separar o joio do trigo. Bem, chegamos nesse momento. Os barcos que trafegam os mares agora trocam suas bandeiras nacionais por bandeiras russas com a esperança de que as hordas de um império em declínio não os capturem — como foi recentemente com o petroleiro “Marinera” capturado pelas forças navais dos Estados Unidos.

Apesar do noticiado, não se sabe ainda a nacionalidade da embarcação, sendo que apenas tinham dois russos no navio. A Rússia oferece lealdade a todos aqueles com quem se alia. A China, sem deixar de visar seus interesses, oferece infraestrutura em lugar de ameaças.

É fácil ver que a civilização abandonou o “Ocidente” e se transferiu para o continente do “Sol Nascente”. Apesar de toda sua arrogância, prepotência e pretensão, acho que estamos vendo o início do crepúsculo de um império anglo-saxão e europeu após 500 anos de colonização e pilhagem.

Arnold Toynbee, em sua obra mestra “A Mãe Terra”, já havia previsto o retorno do Império Chinês como centro da civilização… enquanto o Ocidente mergulharia na barbárie. O também historiador brasileiro Moniz Bandeira vaticinou que o Império iria cair “atirando”.

As perguntas que passam pelas cabeças de todos que possuem inteligência acima de uma pressão atmosférica são: “como sobreviver a tudo isso?” “Haverá uma terceira guerra mundial?” “Como fazer frente à força sociopata e fascista que, ao que tudo indica, prefere incendiar o mundo a tentar nos enxergar como seres humanos em um mesmo planeta Terra?”

Platão, em “A República”, diz que a coragem é a primeira das virtudes. Todas as demais dependem deste sentimento de “fúria” diante do medo e da tirania. Sócrates, ao ser questionado se valia a pena ser justo em um mundo injusto e cruel, afirmou que aqueles que se colocam ao lado da justiça, no fim de suas vidas, partem deste mundo de forma serena, muito diferente dos covardes e cruéis.

Em nome da coragem e da justiça, clamo a todos os meus irmãos latino-americanos a resistir: deixem queimar em seus corações e em seus espíritos a fúria da resistência…

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.