Os dez anos da UNASUL e o primeiro ano do golpe no Brasil

É emblemático que no mesmo dia em que o circo de horrores ocorreu na Câmara de Deputados, a União de Nações Sul-Americanas faça aniversário de existência

Num dia como este um ano atrás, o Brasil sofria a sua ruptura institucional mais recente. Golpe, pra ser mais exato. Golpe diariamente em relação a todos os direitos que perdemos. Golpe assumido em televisão aberta por um presidente com somente 9% de aprovação. Golpe por crime que nunca existiu.

É emblemático que no mesmo dia em que o circo de horrores ocorreu na Câmara de Deputados, a União de Nações Sul-Americanas faça aniversário de existência. Neste caso, a UNASUL faz 10 anos, o que é um marco histórico bastante importante. O esforço de unidade e integração de 12 nações sul-americanas sediado em Quito, que hoje tem dificuldades importantes a serem ultrapassadas, mas que também recolhe reconhecimentos.

A UNASUL já existia antes de 2007, com outro nome. Era a Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA). A pioneira reunião de líderes sul-americanos ainda como CASA se deu em Cuzco, no Peru, em 2004. Era o período da chamada “onda rosa”, onde líderes mais esquerdas ocuparam as presidências dos países mais importantes da América do Sul, gozando naquele momento de um ciclo permanente de crescimento econômico e popularidade acentuada em seus países. O nome UNASUL foi adotado em 17 de abril de 2007, numa reunião de cúpula pra tratar de temas energéticos.

Dez anos depois, a UNASUL se aparelhou. Há agências que lidam com integração regional em níveis bastante profundos. Deve ficar pronto ainda este ano a sede do Parlamento do Sul, em Cochabamba, na Bolívia. Outras agências, como o Conselho de Defesa Sul-Americano tem reuniões recorrentes, e tem se posicionado de forma contundente em relação à delicada situação na Venezuela. Outros órgãos, como o Conselho Sul-Americano sobre o Problema Mundial das Drogas, tem atuação importante.

A natureza do que se pretendeu na UNASUL em termos de integração representa um problema hoje. A marca de líderes mais expressivos como Lula, Néstor Kirchner e Hugo Chávez está em todas as partes da UNASUL. O prédio da UNASUL chama-se Edifício Néstor Kirchner e há uma estátua do presidente argentino em sua entrada. Néstor foi presidente da instituição entre abril de 2010 e outubro de 2010, quando é vítima de ataque cardíaco e vem a falecer.

Para a onda conservadora que se instalou na América do Sul a partir de 2015, isto é difícil de digerir. Os líderes de maior expressão hoje no continente e que tocam reformas neoliberais amplamente questionáveis em termos de eficiência e de popularidade tem receio da UNASUL.  A UNASUL teve papel importante na denúncia do golpe, papel este que foi exercido em menor escala também pela Organização dos Estados Americanos (OEA). O atual chanceler brasileiro Aloysio Nunes Ferreira, então presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, foi o primeiro a chiar com a “intromissão” da UNASUL, da forma que inclusive lhe é peculiar e que nada tem de diplomático. Falava-se em acionar a cláusula democrática, e suspender o Brasil do bloco, algo que ocorrera com o Paraguai em 2013, após o golpe que tirou Fernando Lugo do poder. O vice-presidente boliviano Alvaro Garcia Linera afirmou na época que um golpe de estado no Brasil e a instalação de um governo conservador seriam catastróficos para a América Latina.

Ele tinha razão.

Desde então, a UNASUL vem sendo esvaziada, mas não por completo. Os choques entre Argentina, Brasil e UNASUL se desenrolaram novamente quando da passagem da presidência pro-tempore do Uruguai para o próximo mandato, que deveria ser exercido pela Venezuela. Brasileiros e argentinos protestaram fortemente, enquanto acusavam a Venezuela de não ter condições de exercer o cargo. O secretário-geral da UNASUL, Ernesto Samper, teve habilidade para contornar a situação, gerando inevitavelmente um desgaste.

Até o presente momento, o Itamaraty não tinha produzido uma nota oficial. Constava na página inicial do Ministério das Relações Exteriores a entrevista que o chanceler Aloysio Nunes Ferreira deu ao jornal chileno El Mercúrio, onde fala de incompetência e populismo. Curiosamente, o chanceler brasileiro não falou sobre mais uma delação e lista de políticos onde o seu nome figura novamente.

Mas é emblemático. A UNASUL representou um momento onde as nações sul-americanas criariam um fórum privilegiado de debates, sem a intervenção externa, sem a hegemonia norte-americana, que lidaria com assuntos prioritariamente sul-americanos – não confundir com foro privilegiado, o questionável subterfúgio que Ferreira e o ex-chanceler José Serra, dentre muitos outros, têm pra se defender das denúncias de corrupção.

No dia em que a UNASUL faz dez anos de existência, o Brasil parece não se importar. A maior das iniciativas de integração da região parece ser ignorada por aquele que deveria ser o maior interessado nesta integração, no desenvolvimento conjunto de seus países, na integração de suas políticas de defesa e segurança, entre outros aspectos. A UNASUL é estratégica para o Brasil, fundamental para o seu desenvolvimento.  Mas a pequenez de nossas linhas atuais de política externa é constrangedora, em contraste com os anos de altivez de Celso Amorim.

Mesmo que não haja concordância ideológica entre os membros da UNASUL, tanto Serra como Aloysio Nunes Ferreira falaram em “política externa desideologizada”. Além de uma tremenda falácia, isto não passa de mais um discurso político para um grupo específico de interesse, bastante interessado no golpe, no retrocesso dos direitos sociais e num alinhamento de política externa que pouco tem a ver com o desenvolvimento do nosso país.

Negar a UNASUL também é falacioso, mas todo este governo se sustenta em premissas falsas. Enquanto isto, dado o quadro internacional, perde-se a chance de aprofundar a integração entre os países sul-americanos, nos fortalecendo, fortalecendo nossa liderança e nossa inserção internacional.

O golpe também é por isso.

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