Os dois papéis que Caiado deve cumprir em 2026
Caso a eleição se encerre na largada, o efeito é pró-Lula
O pré-candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, caminha para cumprir dois papéis excludentes em 2026: ou facilita a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou inviabiliza uma alternativa de direita — e até de centro — fora do bolsonarismo em 2030.
Caso a eleição se encerre na largada, como alguns dirigentes de institutos já admitem, o efeito é pró-Lula: Caiado fragmenta a direita, drena votos do senador Flávio Bolsonaro e, mesmo desidratado pelo voto útil, cumpre o papel de dispersão. Se houver segundo turno, o ex-governador de Goiás tende a funcionar como incubadora dos votos de uma direita resistente ao clã Bolsonaro, para eclodirem na etapa final contra o incumbente. Como compartilham o mesmo perfil, Caiado será pressionado a aderir ao senador Bolsonaro no round decisivo ou, no mínimo, conduzirá seu eleitorado nessa direção pela própria linha de campanha. Daí por que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, acerta ao identificar no ex-governador de Goiás maior capacidade de sangrar Flávio do que Eduardo Leite, cuja moderação centrista, embora palatável à Faria Lima, não compete no mesmo campo gravitacional da direita dura.
Se Lula e o senador Bolsonaro orbitarem a casa dos 45%, como sugerem levantamentos recentes, abre-se uma janela real para liquidar a disputa no primeiro turno. Ainda assim, as análises se concentram no segundo turno, ignorando tendências como: a convergência precoce dos polos desde a pré-campanha e no primeiro turno; o favoritismo do petista, inclusive em mercados preditivos; a baixa elasticidade de migração de votos entre turnos sob polarização acirrada; e a possível compressão da base de votos válidos. Some-se a isso um Censo Demográfico atualizado, que reduz o ruído amostral das pesquisas em relação a 2022.
Os levantamentos no radar trarão mais clareza, mas também registrarão um contexto de pressão inflacionária no ápice dos efeitos da guerra do “Vietirã” — parcialmente amortecidos pelo carry trade —, um primeiro trimestre tradicionalmente marcado por reajustes de preços e a reativação do noticiário de corrupção, com as delações de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e Maurício Camisotti, empresário e peça-chave nas fraudes da seguridade social, no horizonte próximo.
"Já está claro que os diretórios [estaduais do PSD] vão ser liberados [para a sucessão presidencial], até mesmo no primeiro turno" , disseram à Idealpolitik interlocutores a par das articulações. O plano de Kassab de levar Caiado a 15%, para negociar com ambos os polos, é hoje considerado improvável.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
