Os Estados Unidos como República, não como Império – O “som e fúria” da Europa após as mudanças na política dos EUA
O fato de que os EUA, em essência, deixariam a Europa entregue às suas próprias ilusões seria um evento calamitoso para a tecnocracia de Bruxelas
Publicado originalmente no Strategic-Culture em 26 de fevereiro de 2025
Trump não compra a principal mentira destinada a servir como a cola que mantém unida toda essa estrutura geopolítica da União Europeia (UE).
As peças estão se encaixando em um padrão distinto – um padrão previamente preparado.
O Secretário de Defesa dos EUA, Hegseth, na Conferência de Segurança de Munique, nos deu quatro ‘nãos’: Não à Ucrânia na OTAN; Não ao retorno às fronteiras pré-2014; Não a garantias de paz do ‘Artigo 5’ como retaguarda, e ‘Não’ a tropas dos EUA na Ucrânia. E, em um toque final, ele acrescentou que as tropas estadunidenses na Europa não são ‘para sempre’ – e até colocou um ponto de interrogação sobre a continuidade da OTAN.
Uma fala bem direta! Os EUA claramente estão se afastando da Ucrânia. E pretendem normalizar as relações com a Rússia.
Então, o Vice-Presidente Vance lançou o seu petardo no meio da elite europeia reunida. Ele disse que as elites haviam se afastado dos valores democráticos “compartilhados”; estavam excessivamente dependentes de reprimir e censurar os seus povos (propensos a prendê-los); e, acima de tudo, ele criticou duramente o Cordon Sanitaire [Cordão Sanitário] europeu (‘firewall’) pelo qual os partidos europeus fora da Centro-Esquerda são considerados politicamente non-grati: É uma ameaça falsa, ele sugeriu. Do que vocês realmente têm tanto medo? Têm tão pouca confiança na vossa ‘democracia’?Ele deu a entender que os EUA não apoiarão mais a Europa se ela continuar a suprimir constituências políticas, prender cidadãos por crimes de opinião e, particularmente, cancelar eleições - como foi feito recentemente na Romênia. “Se vocês estão fugindo dos seus próprios eleitores”, disse Vance, “não há nada que os EUA possam fazer por vocês”.
Essa doeu! Vance acertou em cheio onde dói.
É difícil dizer o que especificamente mais desencadeou o colapso catatônico europeu: Foi o medo de que os EUA e a Rússia se unissem como um grande eixo de poder – privando a Europa de poder continuar a deslizar nas costas do poder estadunidense, através da noção ilusória de que qualquer estado europeu deve ter acesso excepcional ao ‘ouvido’ de Washington?
Ou foi o fim do culto à Ucrânia/Zelensky, tão valorizado pela elite europeia como a ‘cola’ em torno da qual uma falsa unidade e identidade europeia poderia ser imposta? Provavelmente, ambos contribuíram para a fúria.
O fato de que os EUA, em essência, deixariam a Europa entregue às suas próprias ilusões seria um evento calamitoso para a tecnocracia de Bruxelas.
Muitos podem assumir preguiçosamente que o dueto estadunidense em Munique foi apenas mais um exemplo da conhecida tendência de Trump de lançar iniciativas ‘excêntricas’ destinadas a chocar e derrubar paradigmas congelados. As falas em Munique realmente fizeram isso! Mas isso não as torna acidentais; na verdade, são peças que se encaixam em um quadro maior.
Está claro agora que a blitzkrieg [guerra-relâmpago] de Trump contra o Estado Administrativo dos EUA não poderia ter sido montada sem um planejamento cuidadoso e preparação ao longo dos últimos quatro anos.A enxurrada de Ordens Executivas Presidenciais de Trump no início do seu mandato não foi um capricho. O principal advogado constitucional dos EUA, Johnathan Turley, e outros advogados afirmam que as Ordens foram bem redigidas juridicamente e com o claro entendimento de que desafios legais surgiriam. Além disso, a equipe de Trump dá boas-vindas a esses desafios.O que está acontecendo? O recém-confirmado chefe do Office of Budget Management (OBM) [Escritório de Gerenciamento do Orçamento], Russ Vought, diz que o seu escritório se tornará o “interruptor liga/desliga” para todos os gastos executivos sob as novas Ordens Executivas. Vought chama o redemoinho resultante de uma aplicação do radicalismo constitucional. E Trump agora emitiu a Ordem Executiva que restabelece a primazia do Executivo como o mecanismo controlador do governo.
Vaught, que fez parte do OBM no governo Trump 01, está escolhendo cuidadosamente o terreno para uma guerra financeira total contra o Deep State [Estado Profundo]. A batalha será travada primeiramente na Suprema Corte – onde a equipe de Trump espera vencer com confiança (já que Trump conta com uma maioria conservadora de 6-3). O novo regime será então aplicado em todas as agências e departamentos do governo. Prepare-se para ouvir gritos de dor.
A questão aqui é que o Estado Administrativo – alheio ao controle executivo – apropriou-se de prerrogativas como imunidade à demissão e autoridade auto-concedida para moldar políticas, criando um sistema de estado dual, administrado por tecnocratas não eleitos, que, quando implantado em departamentos como o de Justiça e o Pentágono, evoluiu para o que é conhecido como o Deep State americano.
No entanto, o Artigo Dois da Constituição diz de forma muito clara: O poder executivo será investido no Presidente dos EUA (sem nenhum "se" ou "mas"). Trump pretende que a sua administração recupere esse poder executivo perdido. Na verdade, esse poder foi perdido há muito tempo. Trump também está reivindicando o direito do Executivo de demitir ‘servidores do Estado’ e de ‘cortar’ gastos desnecessários a seu critério, como parte de um requisito de executivo unitário.
Claro, o Estado Administrativo está reagindo. O artigo de Turley tem o título: “Eles Estão Tirando Tudo o Que Temos: Democratas e Sindicatos Lançam Luta Existencial.” O objetivo deles tem sido prejudicar a iniciativa de Trump, utilizando juízes politizados para emitir ordens de restrição. Muitos advogados tradicionais acreditam que a reivindicação de Executivo Unitário de Trump é ilegal. A questão é se o Congresso pode criar agências projetadas para agir de forma independente do Presidente e como isso se alinha com a separação de poderes e o Artigo Dois, que investe o poder executivo absoluto em um único oficial eleito – o Presidente dos EUA.
Como os democratas não viram isso chegando? O advogado Robert Barnes basicamente diz que a ‘blitzkrieg’ foi “excepcionalmente bem planejada” e vinha sendo discutida nos círculos de Trump desde o final de 2020. Esse grupo emergiu de uma mudança geracional e cultural nos EUA. Essa mudança deu origem a uma ala Libertária/Populista com raízes na classe trabalhadora, muitos dos quais serviram nas forças armadas e passaram a desprezar as mentiras Neocon (especialmente as de 11 de setembro) que trouxeram guerras sem fim. Eles eram motivados mais pelo antigo ditado de John Adams de que ‘os EUA não deveriam ir ao exterior em busca de monstros para destruir’.
Em suma, eles não faziam parte do mundo WASP ‘Anglo’; eles vinham de uma cultura diferente que remontava ao tema dos EUA como uma República, não como um Império. É isso que se vê em Vance e Hegseth – um retorno ao preceito republicano de que os EUA não deveriam se envolver em guerras europeias. A Ucrânia não é guerra dos EUA.
O Deep State, ao que parece, não estava prestando atenção ao que um grupo de ‘populistas’ marginalizados, afastados do sofisticado ambiente de debates de Washington, estava fazendo: Eles estavam planejando um ataque coordenado ao canal de despesas federais – identificado como o ponto fraco em torno do qual poderia ser montado um desafio constitucional que desmontaria – em sua totalidade – os gastos do Deep State.
Parece que um aspecto da surpresa foi a disciplina da equipe de Trump: ‘nenhum vazamento’. E, em segundo lugar, que os envolvidos no planejamento não são oriundos da esfera Anglo-saxônica preeminente, mas sim de um segmento da sociedade que ficou ofendido com a guerra do Iraque e que culpa a ‘esfera Anglo-saxônica’ por ‘arruinar’ os Estados Unidos.
Assim, o discurso de Vance em Munique não foi disruptivo apenas por ser disruptivo; na verdade, ele estava encorajando a audiência a relembrar os primeiros Valores Republicanos. Foi isso que ele quis dizer ao reclamar que a Europa havia se afastado de “nossos valores compartilhados” – ou seja, os valores que animaram os estadunidenses que buscavam escapar da tirania, preconceitos e corrupção do Velho Mundo. Vance estava (de maneira bastante educada) repreendendo as elites europeias por recaírem nos antigos vícios europeus.
Vance também sugeriu implicitamente que os libertários conservadores europeus deveriam emular Trump e agir para se livrar dos seus ‘Estados Administrativos’, recuperando o controle sobre o poder executivo. “Derrubem os muros de proteção”, aconselhou ele.
Por quê? Porque ele provavelmente vê o Estado Tecnocrático de ‘Bruxelas’ como nada além de um desdobramento puro do Deep State estadunidense – e, portanto, muito propenso a tentar torpedear e afundar a iniciativa de Trump de normalizar as relações com Moscou.
Se esses eram os instintos de Vance, ele estava certo. Macron quase imediatamente convocou uma ‘reunião de emergência’ do ‘partido da guerra’ em Paris para considerar como frustrar a iniciativa estadunidense. No entanto, a tentativa falhou, supostamente descambando para discussões acaloradas e acrimônia.
Descobriu-se que a Europa não poderia reunir uma força militar maior que 20.000-30.000 homens. Scholtz (Alemanha) objetou, em princípio, ao envolvimento; a Polônia hesitou por ser vizinha da Ucrânia; e a Itália permaneceu em silêncio. Starmer (UK), no entanto, após Munique, ligou imediatamente para Zelensky dizendo que a Grã-Bretanha via a Ucrânia em um caminho irrevogável para a adesão à OTAN – contradizendo diretamente a política dos EUA e sem apoio de outros países. Trump não esquecerá isso, nem o papel anterior da Grã-Bretanha em apoiar as calúnias do Russiagate durante o seu primeiro mandato.
A reunião, contudo, destacou as divisões e a impotência da Europa. A Europa foi deixada de lado e a sua autoestima ficou seriamente abalada. Os EUA, essencialmente, deixariam a Europa entregue às suas próprias ilusões, o que seria calamitoso para a autocracia de Bruxelas.
Ainda mais significativo foi quando Trump, em entrevista à Fox News após participar da corrida de Daytona, descartou a alegação de Zelensky de que a Rússia queria invadir países da OTAN. “Eu não concordo com isso; nem um pouco”, retrucou Trump.
Trump não compra a mentira principal que serve como cola para manter toda essa estrutura geopolítica da UE. Sem a ‘ameaça russa’ e sem os EUA acreditando na mentira globalista central, não há pretensão alguma de que a Europa precise se preparar para uma guerra com a Rússia. No fim, a Europa terá que reconciliar o seu futuro como periferia na Eurásia.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




