Os “gêmeos freirianos” e sua super-missão: espalhar as palavras do mestre

A colunista Cynara Menezes, do Jornalistas Pela Democracia, relata a saga de dois educadores gaúchos que levam adiante o legado teórico de Paulo Freire. Para os 'gêmeos freirianos' a educação no Brasil ainda patina justamente porque ainda não aplicou o método freiriano

Paulo Freire: escola como espaço livre para a construção da cidadania
Paulo Freire: escola como espaço livre para a construção da cidadania

Por Cynara Menezes, para o Jornalistas Pela Democracia

Supergêmeos, ativar:
– Forma de um professor de português!
– Forma de um livro de gelo!

Quem foi criança nas décadas de 1980 e 1990 certamente lembra dos Supergêmeos Zan e Jayna, que, ao chocar as mãos, ganhavam o poder de se transformar. Ele, em qualquer coisa na forma de água, gasosa, líquida ou congelada; ela, em qualquer animal real ou mitológico.

A memória do desenho me faz cócegas na memória enquanto converso com os gêmeos gaúchos Ivo e Ivanio Dickmann, porque para mim a tarefa que eles assumiram é digna de super-herói: espalhar a sabedoria de Paulo Freire na terra de ignorantes em que o Brasil se transformou após a ascensão da extrema direita. Ivo e Ivanio dedicam a vida a divulgar os livros e as ideias do educador, tão respeitado lá fora e tão vilipendiado aqui dentro por gente que nunca leu sua obra.

Nos últimos seis anos, os “gêmeos freirianos”, como gostam de ser conhecidos, lançaram um livro por semestre pela Dialogar, a editora de Ivanio, que é historiador, mas se dedica com exclusividade às publicações: Primeiras Palavras em Paulo Freire, Pedagogia da Partilha, Pedagogia da Liderança Popular (todos assinados em dupla), Pedagogia da Gratidão (organizado por Ivanio)… O mais recente, 365 Dias com Paulo Freire, organizado por ambos, traz uma ideia do educador para cada dia do ano.

O carro-chefe é o Primeiras Palavras…, que vendeu até agora 5 mil exemplares, uma espécie de introdução às ideias do educador pernambucano. O livro pode ser baixado gratuitamente pela internet aqui, assim como o Pedagogia da Liderança Popular (aqui). Nunca, em governo algum, um livro dos gêmeos foi recomendado pelo MEC para ser aplicado nas escolas.

“Quando as pessoas dizem que a culpa dos problemas da educação no Brasil é de Paulo Freire, não têm ideia de que é justamente o contrário, a educação é ruim porque não tivemos a oportunidade de aplicar a metodologia dele. A metodologia que temos é uma educação dedicada a formar gente alienada, que serve para este modelo de mercado que a gente vive”, diz Ivanio. “Tivemos muito mais oportunidade de 2003 em diante, mas não no grau necessário. Na verdade, dos ministros da Educação que tivemos, quem mais falou do Freire foi Cristovam Buarque, no primeiro mandato de Lula.”

“Não há nenhum estudo que diga qual o modelo majoritário de educação no Brasil, que consolide a percepção de que somos freirianos. A perspectiva construtivista, aplicada em muitas escolas, não é só freiriana, é mais influenciada por Piaget, que não faz uma crítica à sociedade e sim propõe como a criança pode aprender melhor”, completa Ivo. “Embora os governos petistas tenham criado universidades e CEFETs no Brasil inteiro, não fixaram nenhuma regra dizendo que o ensino neles deve ser freiriano, até porque seria inconstitucional.”

Quando crianças, Ivo e Ivanio tinham sido coroinhas da igreja católica em Carazinho (RS), pensaram em se tornar padres e chegaram a entrar no seminário dos Oblatos de São Francisco de Sales, em Viamão. Foi no seminário que começaram a frequentar a Pastoral da Juventude, receberam a influência da Teologia da Libertação e tiveram contato com a Comissão Pastoral da Terra e o MST. Depois de quase cinco anos no seminário, contam, saíram com uma “visão social” do mundo.

Ivo foi o primeiro a descobrir Paulo Freire, em 2003, na faculdade de Filosofia, quando leu, para um trabalho, a Pedagogia do Oprimido. “Fiquei muito impressionado e falei para o Ivanio ler. Virou a nossa Bíblia. A gente gosta de outros também, mas a Pedagogia é especial. Curioso que normalmente as pessoas começam pela Pedagogia da Autonomia, que é a obra do Freire mais lida no Brasil”, diz Ivo, hoje professor da pós-graduação na UnoChapecó.

Além dos livros, os gêmeos freirianos se dedicam a dar cursos online e oficinas gratuitas, sempre com a cabeça voltada ao professor, para fazê-lo conhecer e valorizar o trabalho de Paulo Freire, o pensador mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo, atrás apenas dos norte-americanos Thomas Kuhn, filósofo, e Everett Rogers, sociólogo. Freire é quase duas vezes mais citado do que Karl Marx.

“Edgar Morin e Paulo Freire são os responsáveis pela última grande síntese pedagógica que o mundo produziu. A Pedagogia da Autonomia, de Freire, e Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, de Morin, dois livros que dialogam entre si, são os pilares da pedagogia moderna”, defende Ivanio. “Para destruir Freire teria que ser com teoria à altura. Com memes não dá.”

Com tanto amor e respeito por Paulo Freire, não dá raiva ver tanta gente falando idiotices sobre o educador, a exemplo do ministro da Educação, que chegou a chamar um mosaico em sua homenagem de “feio”?

“Este é o argumento mais vazio que pode existir. O nível baixou muito, Weintraub é uma pessoa extremamente despreparada. Fazia sentido se estivesse no quarto escalão do governo, não como ministo. Só serve para dar mais visibilidade a Freire. Quanto mais batem nele, mais seu legado se fortalece. E o mosaico é lindo, ele não entende nem de educação nem de arte”, diz Ivanio, que evita responder aos haters nas redes sociais. “É inócuo rebater memes. Tenho me dedicado mais a compartilhar conteúdo.”

“Eu sinto uma mescla de irritação com tristeza. Me deixa mal humorado, sim”, reconhece Ivo. “E os ataques são tão massivos que a gente tem a certeza que são pagos ou robôs. O desprezo a Paulo Freire, por outro lado, tem tudo a ver com um governo que enxerga a educação como um gasto, não como um investimento. Weintraub não está lá para melhorar a educação pública, mas para afundar o barco.”

Para os gêmeos, o que incomoda a extrema direita em Freire não é exatamente o método de ensino, mas sua concepção política do ato pedagógico, já que ele não conseguia enxergar a educação sem o ponto de vista da luta de classes, daí a frase famosa: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se o opressor”.

Ivanio usa seus superpoderes de pensamento lógico para dar a real. “A tentativa de interditar Freire tem a ver com impedir que se forme pensamento crítico nas escolas, como aconteceu na ditadura militar. Ele pregava que educar não é ensinar a ler a palavra, é ensinar a ler o mundo. O estudante que aprende a ler o mundo pode desmontar o modelo econômico vigente, pode sair da opressão e querer transformar a sociedade. É isso que incomoda os inimigos de Paulo Freire.”

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