Os herdeiros de Martin Bugreiro

"Na cidade do Dr. Blumenau, se não é cultura do homem branco europeu, matamos, deixamos à própria sorte, enterramos e cobrimos de pedra", escreve Josué de Souza

www.brasil247.com -
(Foto: Reprodução)


Por Josué de Souza 

Em uma das paredes de sustentação da ponte Gov. Wilson Pedro Kleinübing, conhecida na cidade como Ponte do Tamarindo, tem uma pintura de de uma pessoa vestida de traje típico alemão abraçada com um negro, um pouco ao lado, compõem a mesma imagem uma flecha e uma pena, imagino que represente a cultura indígena. Claro que também acompanhado de figuras de notas musicais, bandeirinhas de festas e copos de chope.  O lugar fica a alguns metros do terminal rodoviário e é um dos acessos à cidade para quem vem pelo norte.

Não é preciso muito esforço intelectual para concluir que a obra expressa o mito de democracia racial que é a Alemanha sem passaporte. Ao entrar na cidade, seja de carro ou de ônibus, o visitante fica com a impressão de que por aqui todos são bem vindos. Ao som de uma música alemã e regados com a alegria de uma gelada nos confraternizamos e construímos a terra sem males.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Desde o dia 27 de abril, à paisagem foram adicionadas pedras, que milagrosamente brotaram por ali. Na ação foram utilizados tratores e caminhões. As pedras foram colocadas no lugar onde havia um acampamento indígena por mais de 20 anos. Residia no local, um casal de idosos, indígenas da etnia Kaingang. No momento da ação dos tratores eles estavam no Rio Grande do Sul buscando matéria prima para compor artesanatos e objetos que vendem na cidade. Além da casa, móveis, roupas, peças de artesanatos e objetos pessoais simplesmente desapareceram.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Não é a primeira vez que o endereço é alvo de uma ação deste tipo. Em 2020, a Prefeitura Municipal de Blumenau tentou retirar os indígenas do local. Na época, talvez os mesmos tratores da prefeitura tentaram destruir o acampamento. A ação foi impedida graças a mobilização e a resistência dos próprios indígenas, e da intervenção do Ministério Público Federal. Agora, na surdina, sem nenhuma determinação judicial, a residência foi dada a cabo. Simbolicamente enterrada pelas pedras que, agora, artificialmente compõem a paisagem.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Nada mais simbólico. A ação aconteceu nos últimos dias do mês de abril. Pouco mais de uma semana depois do dia do índio. Aquele no qual nos fantasiamos na escola. Da mesma forma, a pintura representada no local não retrata o índio, apenas alguns elementos estereotipados de sua cultura. Nesta terra, nem todas as culturas são glorificadas. Nem todos são bem vindos.

Na cidade do Dr. Blumenau, se não é a cultura do homem branco e europeu, matamos, deixamos à própria sorte, enterramos e cobrimos de pedra. Quem quer que fez a ação, deixaria Martin Bugreiro orgulhoso. São seus herdeiros. Só lhes falta o colar de orelhas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email