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Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do IE-UNICAMP

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Os justos pagam pelos pecadores

Riscos fiscais, juros elevados e crédito caro penalizam bons pagadores e expõem distorções estruturais do sistema financeiro

Logo do Banco Central na sede da instituição em Brasília (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Embora o Banco Central considere não haver riscos iminentes capazes de comprometer a solidez do Sistema Financeiro Nacional (SFN), o último Relatório de Estabilidade Financeira (REF) e a Pesquisa de Estabilidade Financeira (PEF) identificam diversos fatores de risco que demandam monitoramento contínuo.
Os primeiros se referem a riscos fiscais e macroeconômicos. A sustentabilidade fiscal é o risco mais citado pelas instituições financeiras como o mais importante, em função do mito ideológico de risco de inadimplência do Tesouro Nacional em relação aos seus títulos de dívida pública em moeda nacional.

O risco de variação das taxas de juros, ou Risco de Taxa de Juros na Carteira Bancária (IRRBB), é a vulnerabilidade dos ativos e passivos de uma instituição a mudanças nas taxas de mercado. Ele impacta o Valor Econômico do Patrimônio (EVE) e a Margem Financeira (NII).

O impacto no EVE (Economic Value of Equity) é avaliado pela sensibilidade do valor presente dos fluxos de caixa de longo prazo. A alta de juros pode diminuir o valor (no mercado secundário) dos títulos prefixados, devido ao custo de oportunidade.

O impacto no NII (Net Interest Income) é a medição do efeito imediato na margem financeira, ou seja, a diferença entre o ganho da instituição com ativos (crédito) e o pago em passivos (depósitos). Em “choques paralelos”, há aumento ou redução uniforme de juros curtos e longos.

Mas, em steepener ou flattener, há inclinação ou achatamento da curva de juros. Configura-se quando juros curtos e longos variam de forma diferente.

Para a gestão e/ou o monitoramento desses riscos, as instituições financeiras utilizam testes de estresse para prever cenários extremos e garantir a conformidade com as exigências do Banco Central. A cobertura de risco pode incluir o uso de derivativos para compensar perdas com taxas flutuantes, protegendo o fluxo de caixa.

As preocupações dos investidores residem na sustentabilidade da dívida pública e nos seus impactos na curva de juros, na taxa de câmbio e na condução da política monetária. Isso pode elevar os custos de captação e afetar negativamente os balanços dos bancos.

Há um alerta sobre a desaceleração do crescimento econômico e a manutenção de taxas de juros elevadas. Isso pode intensificar a inadimplência dos devedores, elevar a necessidade de provisões e levar a uma maior restrição de crédito. Sem refinanciamentos dos empréstimos para a alavancagem financeira, a busca por maior escala de produção e aumento dos retornos operacionais se definha.

O cenário internacional atual é periclitante como fator de risco crucial. A incerteza global é o risco mais citado no conjunto geral de preocupações das instituições. Os principais focos são o reposicionamento das políticas comerciais globais (como tarifas impostas pelos EUA a produtos brasileiros), conflitos geopolíticos e seus impactos nos preços das commodities e na inflação global.

O risco de crédito e endividamento refere-se ao comprometimento de renda das famílias. Ao chegar a 29,3%, em janeiro de 2026, permanece historicamente elevado e demonstra tendência de ascensão.

Excluindo o financiamento imobiliário, uma modalidade com taxas mais baixas e menor inadimplência, o comprometimento chegou a 27,1%. É também o maior patamar da série iniciada em março de 2011.

A alta do comprometimento da renda é similar ao movimento do endividamento das famílias. Nesse caso, o indicador ficou estável em janeiro de 2026, mas perto do pico da série histórica. O endividamento é calculado a partir do saldo das dívidas das famílias e leva em conta a renda acumulada em 12 meses. Considerando o financiamento imobiliário, o endividamento ficou em 49,7%.

A alta nos juros médios foi motivada pela composição da variação do crédito. As modalidades com taxas mais altas, como o cartão de crédito rotativo, afetam a taxa de juro média anunciada. Destacou-se a elevação da taxa média das operações de cartão de crédito rotativo (+11,4 p.p.), atingindo 435,9% a.a.!

O crescimento do endividamento e do comprometimento de renda das famílias foi atribuído, em parte, ao novo modelo de crédito consignado para o trabalhador do setor privado e a uma maior demanda por crédito emergencial. Ora, os cartões de crédito são distribuídos fartamente, sem avaliação de risco...

A inadimplência das Pessoas Físicas nesse crédito rotativo, devido ao não pagamento na “data de aniversário”, chegou a 64,5% em dezembro de 2025, ou seja, em cada três devedores, dois não pagavam! Aí “os justos pagam pelos pecadores”, porque nenhum banco pode perder recursos de terceiros (“o seu, o meu e o nosso”) com concessão de crédito. Para os adimplentes pagarem pelos inadimplentes, a taxa de juro do cartão de crédito rotativo é absurda.

O índice considera o valor médio estimado para pagamento do principal e dos juros da dívida no mês, comparado com a estimativa de renda mensal. A série histórica mostra trajetória de elevação desde o início de 2024, quando estava em 26,2%.

No caso das empresas, o alto custo do endividamento e a alavancagem elevada tendem a pressionar os balanços em um cenário de atividade econômica mais fraca.

A materialização de risco deteriorou-se recentemente, com aumento dos ativos problemáticos em quase todas as carteiras. Houve destaque para o crédito rural e para as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).

Quanto aos riscos tecnológicos e cibernéticos, cabe primeiro distingui-los. O risco tecnológico refere-se à possibilidade de perdas ou impactos negativos provocados pelos riscos inerentes ao emprego de recursos de TI na operacionalização dos negócios de uma entidade financeira supervisionada, abrangendo os dados e informações, os processos e as pessoas envolvidas.

O risco cibernético refere-se à combinação da probabilidade de incidentes relacionados ao ambiente cibernético ocorrerem e seus impactos. Em um sistema cada vez mais digitalizado, crescem as citações a riscos de ataques cibernéticos sofisticados e fraudes eletrônicas. Incidentes recentes demonstraram fragilidades em controles essenciais de instituições e de seus provedores de serviços.

A alta dependência de serviços de computação em nuvem e provedores de TI terceirizados é um ponto de atenção. Além disso, existem lacunas na gestão de riscos de APIs, sigla para Application Programming Interface (Interface de Programação de Aplicações), um conjunto de regras e protocolos que permite a dois softwares se comunicarem e trocarem dados entre si. São exploradas por criminosos para automatizar fraudes e dificultar o rastreamento de recursos.

O uso crescente de Inteligência Artificial (IA) traz problemas relacionados a questões legais, operacionais e à qualidade dos dados. Se esta for baixa, pode gerar modelos computacionais erráticos.

Finalmente, o BCB adota um greenwashing ou “banho verde”. Trata-se de uma estratégia de marketing enganosa, na qual empresas criam uma falsa imagem de sustentabilidade, divulgando ações ecológicas falsas, exageradas ou irrelevantes para aumentar vendas e reputação. Riscos climáticos são eventos extremos.

Testes de estresse indicam, por exemplo, que a intensificação do fenômeno El Niño pode elevar significativamente os ativos problemáticos na carteira de crédito rural. Embora o impacto no capital do sistema seja considerado limitado, eventos climáticos severos têm o potencial de gerar perdas superiores a 10% do capital para instituições específicas mais expostas a essas regiões.

A vida bancária é dura, aprenda a lidar com ela... Sem dúvida, é mais fácil (e irresponsável) adotar a demonização de banqueiros e do mercado financeiro.

Este é um fenômeno social e político existente desde a condenação cristã dos “judeus cobradores de juros” na Era Medieval. É (re)alimentado pela percepção de concentração de poder, desigualdade econômica e alto custo do crédito.

Essa narrativa fantasiosa utiliza o termo “banco do diabo” em contextos históricos. Descreve agentes financeiros como parasitas ou criminosos. Gera exclusão e estigmatização, sendo incapaz sequer de distinguir entre “bancões” de varejo e “banquetas” de gestão da própria fortuna, como as de Vorcaros (Banco Master) da vida...

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.