Emir Sader avatar

Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

989 artigos

HOME > blog

Os mecanismos do capital improdutivo

Emir Sader discute como a intermediação concentra lucros e aprofunda desequilíbrios na cadeia produtiva

Os mecanismos do capital improdutivo (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

A visão usual é que o lucro se gera na empresa, que paga aos trabalhadores menos do que o valor obtido. Isso, sem dúvida, é verdadeiro, quer chamemos o valor obtido de lucro, de mais-valia ou, de maneira mais neutra, de excedente.

O que se pretende demonstrar é como esse lucro se desloca na cadeia produtiva. Cada vez menos é o produtor — ao qual nos referimos como os trabalhadores, mas também o empresário produtivo — que se apropria do resultado do valor agregado de um determinado produto; e, cada vez mais, quem o faz é o intermediário.

Todos sabemos do peso dos atravessadores. O conceito foi inventado justamente para refletir a dimensão negativa dos intermediários nos processos produtivos, que ganham não ajudando, mas colocando gargalos ou pedágios sobre o ciclo produtivo.

O que se destaca hoje é a existência de um desequilíbrio muito forte entre os esforços que se dedicam ao estudo e à divulgação da variação de preços no tempo dentro das cadeias produtivas.

O impacto econômico desse processo é simples: do lado do produtor, o lucro é insuficiente para desenvolver, ampliar ou aperfeiçoar a produção e, em consequência, a oferta não se expande. Do lado do consumidor, o preço é muito elevado, o que faz com que o consumo também seja limitado.

Quem ganha é o intermediário, com margens muito elevadas sobre um fluxo relativamente pequeno de produto. E os intermediários, cada vez mais, são imensas redes de comercialização que passam a ditar preços, com ganhos financeiros de oligopólio, uma economia de pedágio.

A lógica de desintermediação, naturalmente, é a de reduzir os lucros gerados no pedágio, redistribuindo essa apropriação do excedente entre o produtor — que poderá produzir mais e melhor — e o consumidor, sob a forma de preços mais baixos, o que permitirá um consumo maior e a compra de mais produtos. O intermediário, inclusive, poderia ganhar menos sobre um volume maior e voltaria a ter a sua parte do bolo sem prejudicar a cadeia produtiva.

O poder do intermediário para travar o processo e maximizar o seu lucro ajuda a entender a dificuldade da agricultura em pequena escala, mas o argumento é válido para um leque muito amplo de atividades produtivas.

O custo da intermediação financeira encarece muito o produto final e reduz a produtividade da cadeia nos processos produtivos. Além disso, permitiria estimular investimentos complementares nas áreas de gargalo, de forma a diversificar a oferta e reduzir o efeito de cartelização.

Seria um instrumento para identificar pontos de incidência para políticas antitruste e de defesa de mecanismos de mercado, melhorando a relação de força dos produtores frente aos intermediários — uma relação cada vez mais desequilibrada.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.