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Edinéa Alcântara

Engenheira civil, doutora em desenvolvimento urbano e prof. do IFPE-Garanhuns

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Os morros pedem socorro

Não podemos mais culpar a natureza pelo nosso despreparo em lidar com eventos sazonais e previstos. Eles tendem a se acentuar

Equipes de resgate trabalham em área de deslizamento causada por chuvas em Recife (Foto: REUTERS/Diego Nigro)

1 - O Recife tem uma consolidada história de trabalho em defesa civil, construída em distintas gestões da prefeitura, algumas com destaque.

2 - Na primeira gestão de Jarbas Vasconcelos (1986-88), tivemos o mestre Jaime Gusmão à frente da URB-Recife. Ele desenvolveu a concepção de tratar o morro como faixa, do topo até a base, acentuando que, para proteger uma barreira, não é suficiente conter as encostas, mas disciplinar as águas com drenagem, retaludamento e plantio de grama, evitando-se que as águas se infiltrem no maciço. A própria lona de plástico pode impedir que as águas se infiltrem na barreira.

3 - Nas duas gestões do prefeito João Paulo, essas ações foram intensificadas e sistematizadas no Programa Guarda-Chuva, sob a concepção e a coordenação da Geóloga Margareth Alheiros, discípula de Jaime Gusmão, que estruturou a Defesa Civil do Recife, que tornou-se referência nacional em prevenção, treinamento e orientação à população de como viver nos morros. De forma complementar, os programas Parceria nos Morros e Viva o Morro sistematizaram e aperfeiçoaram ainda mais a experiência no tratamento de encostas, voltada para diminuição de riscos. Associadas ao tratamento das encostas, foram implantadas medidas preventivas de manutenção e limpeza de galerias e canaletas nos morros e nas áreas planas. Somadas às ações nos morros, elas constituíram uma política exitosa, porque houve pouquíssimos óbitos nesse período.

4 - Lamentavelmente, parece que pouco foi aproveitado do legado de Jaime e Margareth. Nunca vi tantas mortes, nem tantos danos, em toda a minha vida de engenheira, acompanhando, de longe ou de perto, as ações em áreas de morros. Só no Recife já são 128 no grande Recife em 03/6. Mais do que nunca é preciso adotar as diretivas desses mestres, avançar e multiplicar, pois elas já demonstraram ao país como lidar com morros e alagados e diminuir os danos e riscos sobre a população que aí reside. Desafio que deverá tocar, especialmente, ao prefeito do Recife, por se tratar de um engenheiro.

5 - Não podemos mais culpar a natureza pelo nosso despreparo em lidar com eventos sazonais e previstos. Eles tendem a se acentuar. As mudanças climáticas o indicam. Cidades semelhantes, planas e ao nível do mar, como Veneza e Amsterdam, lidam com gestão da água e com esses eventos de forma planejada e preventiva. O Plano de Gestão de Resiliência de Veneza é referência para a Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres (UNISDR). A malha de canais de Amsterdam é referência mundial de bom manejo das águas. Desconheço algum plano de Resiliência e de Contingência para o Recife.

6. A complexidade da temática exige um olhar transdisciplinar com manutenção e prevenção sistemática e continuada. Suspeitamos que o atual prefeito não seja o grande responsável por toda essa tragédia. Entre a administração de João Paulo e o atual prefeito passaram-se 12 anos. Possivelmente existe um passivo dos governos anteriores de continuidade nas ações preventivas para diminuir a perda de vidas e ampliar a redução de danos. Por ser o atual prefeito, mesmo a apenas menos de um ano e meio, terá que trabalhar muito e rápido para dar conta dos retrocessos no cumprimento da Lei Nº 12.608 de 10 de abril de 2012, que institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, e define as estratégias e ações a serem realizadas preventivamente.

7 - Espero que todas as vidas perdidas sensibilizem o governador, o prefeito do Recife e de outros municípios, e que encaminhem determinações vigorosas para que os seus técnicos estudem os caminhos para a prevenção diante de chuvas extremas como as que ocorreram e vêm ocorrendo.

7 - O governador e os prefeitos andaram passos atrás. Agora precisam cuidar dos mortos. Oxalá, eles e suas equipes resgatem a excelência do trabalho desenvolvido nessa área, o mais rápido possível. Do contrário, teremos mais danos e mortes neste inverno, que mal começou. Isso não é impossível, pois a memória dos trabalhos citados está com as/os técnicas/os dos órgãos competentes. Nãos será fácil. Precisamos de uma força-tarefa envolvendo o executivo nos três níveis de governo, o legislativo, a academia, os conselhos das categorias, a sociedade civil e as comunidades envolvidas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.