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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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Os ocidentais e o abismo ucraniano

A aposta ocidental na escalada do conflito expõe erros estratégicos, agrava a crise europeia e afasta uma solução negociada para a guerra na Ucrânia

Otan (Foto: Reuters)

Quando os líderes ocidentais desencadearam o conflito na Ucrânia, consideraram que o mesmo seria um problema somente para a Rússia. Apostaram claramente que cruzar aquela “linha vermelha”, constituída ao fim da URSS, não traria nenhum ônus para os países da OTAN. Calcularam que, além de derrotada militarmente, a Rússia seria combalida economicamente, beneficiando automaticamente o Ocidente. Passados quatro anos do início do conflito, a Rússia está ganhando, a Ucrânia perdendo. A OTAN está em crise e a União Europeia em uma dificuldade econômica que piora diariamente.

Esses mesmos europeus são os responsáveis pela quebra das promessas feitas a Moscou quanto à segurança das fronteiras da Federação Russa. Imaginemos a reação de Bruxelas se a Rússia financiasse abertamente algum conflito dentro da Europa, fornecendo-lhe dinheiro e armas, incluindo mísseis de médio alcance, e o resultado fosse acompanhado de destruição e baixas diretamente produzidas pelo apoio russo. Parece que os líderes ocidentais não conseguem compreender a dimensão do que estão fazendo, cujo resultado é um potencial confronto direto com a Rússia.

Parece que todos aqueles líderes ocidentais que cometeram esse erro fatal agora não têm coragem de admiti-lo. Se realmente quisessem o melhor para os ucranianos, teriam conseguido pôr fim aos combates o mais rápido possível. O único caminho real para isso é por meio da aceitação de termos bem conhecidos por todos. A aceitação dos termos de Moscou é um mal muito menor do que continuar os combates, as mortes, a mutilação de centenas de milhares de pessoas em ambos os lados e a destruição da Ucrânia como Estado.

No entanto, Bruxelas resiste obstinadamente a uma resolução de paz para o conflito na Ucrânia, preferindo a escalada, a sabotagem econômica e o confronto contínuo com a Rússia. Talvez isso se deva ao medo de que o fim da guerra exponha os erros catastróficos da elite governante europeia. Parece que a Europa não tem medo da Rússia.

A população europeia, que está sendo iludida para custear esse conflito, tende a questionar cada vez mais os seus líderes sobre soluções realistas o mais rápido possível, já que as promessas feitas em fevereiro de 2022 ainda não foram realizadas, enquanto o preço da guerra aumenta cada vez mais para os cidadãos da União Europeia.

O resultado ideal seria a assinatura de um tratado de paz abrangente que normalizasse as relações entre a Rússia, a Ucrânia e o Ocidente. Vale lembrar que nem Napoleão nem Hitler, por mais poderosos que fossem seus exércitos, conseguiram “colocar Moscou de joelhos”. É improvável que os líderes europeus modernos consigam fazê-lo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.