Os porquês de toda essa balbúrdia

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Adquiri há tempos uma convicção sobre a causa mais profunda de toda essa confusão reinante mundo afora e especialmente visível nos EUA e no Brasil de hoje. Não se trata mais, ou somente, da disputa esquerda versus direita ou dos embates na política e na economia. A coisa é mais ampla e a ela me referi aqui neste espaço democrático e republicano do Brasil 247.

Acredito que o problema é de ordem institucional. Não me atenho apenas às instituições formais, mas também às culturais, dos costumes e crenças que compõem as diversas (e por vezes conflitantes) visões de mundo.

Penso que na sociedade contemporânea os modelos institucionais, herdados das Grécia e Roma antigas, do cientificismo surgido no início da Modernidade e também da Revolução Francesa, estão sendo arrostados.

A Família (ou os seus valores tradicionais), a Escola (ou seu método renitentemente mecanicista e cartesiano), as Religiões (ou o choque entre fé e ciência), o Mercado (ou sua lógica excludente) e o Estado (ou seu formato e missão estruturante) em síntese, tudo é questionável ou está em cheque. A contestação é geral e generalizada, o establishment está na pauta. 

E a grande mídia? Costumava não ser somente um canal de notícias e sim partícipe fundamental nos fatos, quase sempre não fazendo jornalismo e sim negociatas em benefício das famílias proprietárias. Agora em função das novas tecnologias digitais, mas também face ao descrédito que conquistaram estão, os grandes grupos, quase todos, em estado pré-falimentar. Ao menos aqui no Brasil.  

Parece que ocorre uma exaustão do sistema, um desgaste das abordagens vigentes em todas as dimensões da vida humana associada, mas em especial na Política e na Economia. Nesta porque a sua instituição central, o Mercado, logrou invadir todos os espaços com sua lógica obliterante e excludente e, por conseguinte, tudo e todos podem ser comprados ou vendidos e com isso restou espaço nenhum para o convívio humano genuíno e restaurador. Na política, o embate raramente praticado em torno de ideias ou de propostas, pretendendo somente desqualificar o adversário, acabou por desconstruir a própria Política.

E o que pode ser feito? “Sei que nada sei” como disse alguém (acho que foi Sócrates, cuja frase inoculou dúvidas no inquieto Descartes). Acho que nada temos para colocar no lugar dessas instituições arcaicas e corroídas pelo tempo (e pela tecnologia). 

Suponho apenas, por observação da História, que esses momentos de grande perplexidade ensejam o aparecimento de “salvadores” ou “mitos” (como preferem alguns). Trata-se de personagens cujo incapacidade de compreender e atenuar as crises, colaboram apenas por aumentar o caos. Aliás, aqui no Brasil um deles já confessou que “não pode fazer nada”.

Foi assim na Alemanha que, em função do Tratado de Versalhes vivia um cenário limitante e sufocante para o orgulho germânico, o que propiciou uma narrativa fortemente nacionalista e de identificação de um “inimigo” (os judeus, os negros, comunistas e outros mais). Hitler e seus “auxiliares” (Goebbels, Hess, Himmler, Goering e outros) souberam apropriar-se das circunstâncias locais e mundiais. O resultado todos conhecemos. 

Sobre os EUA vou me valer de um artigo do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: “...país que não só nasceu de um ato violento (a chacina dos índios), como foi por via da violência que todo o seu progresso ocorreu ... a união dos Estados “Unidos” (620.000 mortos na guerra civil) até à luminosa conquista dos direitos cívicos políticos por parte da população negra (inúmeros linchamentos, assassinatos de líderes, sendo Martin Luther King. Jr. o mais destacado entre eles), como ainda é o país onde muitos dos melhores líderes políticos eleitos foram assassinados, de Abraham Lincoln a John Kennedy. E essa violência tanto dominou a vida interna, como toda a sua política imperial, sobretudo depois da segunda Guerra Mundial. Que o digam os latino-americanos, o Vietnam, os Balcãs, o Iraque, a Líbia, os palestinianos, etc. etc.”

E ele prossegue “...desde a década de 1980, a desigualdade social tem vindo a aumentar, e tanto que os EUA são hoje o país mais desigual do mundo. A metade mais pobre da população tem hoje apenas 12% do rendimento nacional, enquanto o 1% mais rico tem 20% desse rendimento. Nos últimos quarenta anos o neoliberalismo ditou o empobrecimento dos trabalhadores norte-americanos e destruiu as classes médias...”

Isto posto, quem surgiu com o discurso de ““Make America Great Again” (a bem da verdade foi lançado por Reagan) e se apropria no cenário político? Donald Trump. E resultado está aí – ululante (como diria o eterno Nelson Rodrigues).

Muito bem, e no Brasil? Todos sabemos que aqui há um seguidor e fiel escudeiro do Trump que inclusive adotou um lema semelhante - “Brasil acima de todos”. Enquanto Trump aparecia com uma bíblia nas mãos, Bolsonaro dizia “Deus acima de tudo”, em apelo falsamente religioso, embora ambos seja truculentos e estimuladores da violência.  

 Bolsonaro tenta imitar todo o estilo “trumpista”. Ambos são líderes populistas. que quando acuados radicalizam seus discursos e ações em direção à sua base de apoio, para fortalecê-las.

Os dois culpam a mídia, a oposição, os demais poderes, lideranças mundiais e, no limite, desafiam o Estado de Direito. Falam diretamente às suas bases, as quais, na essência pensam como os dois “mitos” de pés de barro.

A Alemanha sobreviveu ao Hitler, os EUA estão lutando para se livrar do legado do Trump e o Brasil? Acredito que vamos no mesmo caminho, porém esse é um capítulo a ser escrito.

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