Os problemas da campanha de Lula

"A campanha será duríssima. Para vencer, nem Lula e nem a campanha podem cometer erros", analisa Aldo Fornazieri

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Lula (Foto: Ricardo Stuckert)


Parece que euforia de meses atrás de alguns petistas que alardeavam o otimismo da vitória de Lula no primeiro turno começa a ceder lugar a uma percepção mais realista. A campanha será duríssima, nada está garantido, para vencer terá que se ter uma estratégia muito bem definida e nem Lula e nem a campanha podem cometer erros. 

O agregado das últimas pesquisas mostra um encurtamento da distância entre Lula e Bolsonaro nas simulações de primeiro turno. Em que pese a grande distância de Lula para Bolsonaro nas simulações de segundo turno – cerca de 20 pontos – a depender do resultado do primeiro turno e do contexto da campanha, podem ocorrer mudanças de expectativas no eleitorado na virada do primeiro para o segundo turno. Assim, todo o cuidado é pouco. Há que se levar ainda em conta que não se pode emitir um juízo definitivo acerca do desempenho de candidaturas da chamada terceira via.

Os problemas da pré-campanha de Lula vieram a público com o afastamento do marqueteiro Augusto Fonseca e com as críticas ao coordenador de comunicação Franklin Martins. Não era preciso ter informações privilegiadas para perceber que as coisas não andavam bem. E também não há garantia de que a substituição de um ou dos dois por terceiros irá resolver os problemas. Ocorre que os problemas do PT e da campanha Lula são pregressos à pré-campanha. No presente e no futuro também não se poderá atribuir esses problemas à composição com Alckmin.

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O panorama de fundo desses problemas diz respeito à conduta do PT na atual conjuntura, marcada pelo governo Bolsonaro. Em artigo publicado em agosto de 2021, “A esquerda que joga parada”, fiz observações críticas à conduta apática do PT e das esquerdas em geral e as consequências negativas que este modo de proceder poderia proporcionar. 

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O PT e as esquerdas passaram dois anos e meio empenhando tempo e recursos em torno de duas batalhas infrutíferas: o fantasma de um golpe militar pró Bolsonaro e a bandeira do impeachment. No primeiro ponto, confundiu-se a vontade golpista de Bolsonaro e dos bonsolnariatas com uma possível ação militar. Bastava estudar as conjunturas dos golpes militares, ao menos do golpe de 1964, para entender que não existiam condições objetivas para que isto ocorresse agora. Quanto ao impeachment, as experiências de Collor e do golpe contra Dilma mostravam que sem grandes mobilizações populares não se cria condições necessárias para que a Câmara dos Deputados vote a abertura do processo. Se votasse, Bolsonaro sairia vencedor.

É necessário constatar que o PT, junto com a esquerda em geral, não teve força mobilizadora e pouco se esforçou para isto. A bancada do PT na Câmara desempenhou um papel pífio na oposição ao governo. Fez uma oposição protocolar, praticamente naturalizando os desatinos e as investidas autoritárias de Bolsonaro. Aliás, este foi o comportamento da Câmara dos Deputados como um todo.

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 Pode-se dizer, sem erro, que a atual bancada petista é a que tem o pior desempenho na história das bancadas do partido. As principais referências do oposicionismo ao governo são de parlamentares e senadores de outros partidos. E não fosse a CPI da pandemia se poderia dizer que Bolsonaro teria governado sem oposição no Congresso. E não fosse o STF, Bolsonaro teria escalado vários degraus no seu autoritarismo, destruindo mecanismos da democracia, da Constituição e do Estado de Direito. 

Desta forma, a não mobilização popular, o jogar parado e a atuação pífia no Congresso no enfrentamento de Bolsonaro são fatores geradores dos problemas que a pré-campanha de Lula enfrenta. Note-se também que Bolsonaro, nas suas investidas golpistas, mobilizou mais do que as oposições. 

A desmobilização e a apatia dos ativistas e dos movimentos sociais são os principais ingredientes que configuram este início de campanha. A campanha vem sendo construída de forma burocrática e elitista, com pouca discussão das direções com as bases sociais. A construção da aliança com Alckmin deveria ter sido debatida com os ativistas, persuadindo-os da necessidade dessa aliança, mostrando que quem decidirá esta eleição serão os eleitores de centro. O mesmo ocorre com os temas e os pontos programáticos da campanha. 

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Tome-se como referência duas campanhas recentes que foram vitoriosas. Joe Biden derrotou a reeleição de Trump impulsionado por grandes mobilizações antirracistas devido ao assassinato de George Floyd que reavivaram o Black Lives Matters e pelo movimento Me Too. Sua campanha mobilizou negros, mulheres e jovens de forma intensa, mesmo com uma chapa de perfil mais conservador do partido Democrata. Gabriel Boric venceu depois de mobilizações estudantis e populares intensas e vitoriosas. A sua campanha contou com forte presença de comitês populares. Foram vitórias impulsionadas por movimentos de massa.

Ao que parece, a campanha petista enfrenta certa confusão nos focos temáticos. A forma como foram abordados até agora os temas do aborto, da reforma trabalhista e da regulação da mídia causou desgastes. Então vem a sábia filosofia de alguns petistas e afirma o seguinte: “Lula não perdeu nenhum voto ao falar do aborto”. O problema é quantos votos deixou e deixará de ganhar, pois o bolsonarismo vai esquentar este tema. A questão central de uma campanha é ganhar as eleições. Definido este objetivo é preciso ter uma estratégia clara e uma definição dos meios, procedimentos e ações para ganhar. Pouco adianta alguém se declarar ateu em nome da verdade se esta declaração favorece a vitória do inimigo de extrema-direita. 

Numa campanha, a capacidade persuasiva é decisiva. Lula sempre foi mestre nisso. Mas agora, no tema da reforma trabalhista, está sendo criada muita espuma: não se sabe se o PT quer anular a reforma ou reformar a reforma. É preciso que se diga o que vai ser proposto ou o que vai ser mudado. É certo que o orador precisa considerar o público específico que quer convencer em cada discurso. Mas ele precisa considerar que na era digital qualquer discurso que se profere para um público específico tem também como ouvintes o público em geral. O candidato e os estrategistas precisam avaliar as consequências do que se fala ou se anuncia. É preciso considerar o momento oportuno de cada fala, o auditório ouvinte, o conteúdo e a forma e as consequências gerais do que é proferido. 

Se esses cuidados não forem adotados, não há certeza de que a verdade e a justiça prevaleçam sobre a mentira e o ódio. É preciso saber que aquele que queira enganar, sempre encontrará um público que aceita ser enganado e que existe um público que acredita na mentira justamente porque a mentira expressa um absurdo. É preciso saber também que o ódio, em toda a história, sempre foi um afeto que tem grande poder mobilizador. 

Todos sabem que em 2018 Bolsonaro teve na estratégia da comunicação digital um dos principais fatores de sua vitória. Essa máquina de disseminação de mentiras absurdas, mas persuasivas, continuou funcionando durante o mandato. Se o PT não preparou meios e estratégias de comunicação para ocupar os espaços digitais nesse tempo todo é porque há uma certa cegueira. Não se viu nesse tempo todo uma estratégia de destruição das mentiras e de ataque aos pontos fracos de Bolsonaro e do bolsonarismo. Ainda há tempo para enfrentar esses problemas e superar as falhas. Mas além da convicção de que a vitória é possível, é preciso ter a certeza de que ela não será fácil. Acima de tudo, é preciso ter competência para dirigir a campanha e a determinação de que não deve haver espaço para o erro.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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