Os sonhos heróicos de Tiradentes, a luta justa e a indústria de traidores

Os intelectuais, os religiosos de todas as confissões, estes avançando para além da inocência tática e estratégica da Teologia da Libertação, somos todos conclamados à luta organizada contra o neoliberalismo e pela construção de um modelo coletivo econômico humano e social

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Querida amiga Maria Luíza Dias Fernandes

Agrônoma e Professora no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, Juína, Mato Grosso.

Após manifestar-lhe meu encantamento por sua cuia de chimarrão sobre sua mesa de estudos e de trabalho, prometi-lhe uma “Carta e Reflexões”  para tratar do simbolismo necrófilo da “gripezinha” miliciana e protofascista do rachadinha Jair Bolsonaro. Sobre essa reflexão escreverei em outra oportunidade.

Ontem, depois de um susto com a explosão de minha pressão arterial, sinalizando pré infarto, deite-me e dormi profundamente pensando no camarada e herói Joaquim José da Silva Xavier, nosso arquétipo brasileiro da causa revolucionária.

Penso, minha amiga, que não há como pensar no projeto revolucionário de Tiradentes, respeitados os imensos limites ideológicos e políticos do tempo dele, sem considerarmos a contradição expressa no sistema traidor que deu à história o contra símbolo Joaquim Silvério dos Reis.

Vivemos ainda os reflexos da semana santa, cruzando pelo segundo domingo da páscoa. Neste ano  o evento Judas, o Iscariotes, tem especial significação, que se harmoniza indelevelmente com  a traição ideológica encarnada por Quinquim dos Reis.

Judas é uma figura simbólica representativa de um sistema alicerçado na traição como coisa natural dos grupos instalados estupidamente no poder.

Não haveria Judas se, de um lado, não houvesse o Cristo popular, libertador dos pobres, aglutinador dos pescadores e funcionários da alfândega romana, dos setores herodianos e pilateanos (como a própria Claudia, esposa do Pilatos),  decepcionados com a brutalidade da violência contra os pobres doentes, leprosos, prostituídos pelos hipócritas moralistas e os mártires assassinados a patadas dos portentosos cavalos das legiões romanas ou os crucificados como sediciosos perigosos ao sistema, pai dos traidores.

E de outro, não haveria traidores se não sobrassem “sumos sacerdotes”, saduceus e anciãos compradores dos traidores, como oligarcas ladrões para pagar míseras trinta moedas de prata pelo serviço sujo do traidor, protagonista fantoche do sistema poderosamente opressor, inventor e patrocinador de condenações e assassinatos de agitadores apaixonados pelo povo como Jesus, Tiradentes e milhares de outros heróis e heroínas, que tombaram ensanguentados, esquartejados, afogados, arrastados, jogados de aviões nas águas geladas dos mares, metralhados e abandonados.  

Nosso herói Tiradentes, infelizmente adotado como patrono de milicianos, foi mais do que traído pelo seu colega de farda e de classe ruralista e mineradora, o indigitado, vendido e covarde Joaquim Silvério dos Reis.

Se Joaquim Silvério dos Reis apenas entregou seu irmão maçom, compensado financeiramente pelo serviço sujo, o sistema o enforcou, o esquartejou,  espalhando seus membros  mortos por toda a cidade de Vila Rica. Também os senhores escravocratas mandaram matar todos os descendentes do mártir, incendiar a casa dele e salgar o terreno, objetivando eliminar as raízes que poderiam brotar em novas revoluções.

Os colonizadores, escravocratas cruéis, ladrões de ouro e de minérios, em acordo com a matriz empresarial em Portugal, dona da coroa e do trono aqui, são a fonte e a essência da traição.

Tiradentes visava, segundo historiadores, construir um projeto menos injusto com mais distribuição de renda com o dinheiro  advindo dos pesados impostos cobrados pela coroa e roubados pelos senhores donos de escravos e das mineradoras extratoras de riquezas do subsolo, notadamente do ouro.

Homem estudioso, dedicado à leitura dos filósofos iluministas e dos revolucionários franceses, Tiradentes liderou luta revolucionária contando com solados  graduados e rasos, com revoltados trabalhadores e escravos que começavam a testar a liberdade “doada” pela alforria em teste.

Como protótipo inteligente por ser homem poliglota, leitor que, invariavelmente, era encontrado com livros na bolsa que sempre carregava, nosso mártir Tiradentes é buscado e lembrado em conjunturas sombrias como a que vivemos.

Os melhores e as melhores patriotas brasileiros/as são herdeiros/as do ímpeto de Joaquim José da Silva Xavier, um homem apaixonado pelo povo, pelo estudo e pelas  mulheres, como todos os bons revolucionários, sempre plenos da generosidade e de carinho.

Nossa visão, mesmo que sejamos herdeiros revolucionários do grande mártir enforcado pelos exploradores, clama por avanços no processo de lutas no Brasil, terreno minado pelo sistema pai de traidores da pátria dos mais sórdidos e imorais.

O sistema traidor e pai dos traidores de hoje, não faz acordos e, quando finge fazê-los, inicia logo a compra criteriosa de traidores imorais, os mais compráveis possíveis.

O sistema capitalista é engrenagem que só funciona contando com a macro peça chamada mercado e com a ideologia denominada de neoliberalismo.

Esse sistema eivado de ladrões e parasitas, a começar pela mais valia, de alta intensidade corrupta e desumana, matando os trabalhadores desde o primeiro emprego até suas mortes desassistidas, jogados no abandono por falta de utilidade no processo de exploração e acumulação de riquezas nas mãos de uma minoria perversa alimentadora de traidores, não aceita alianças nem conciliação de classes. É ingenuidade como a de Tiradentes desejar acordos com banqueiros, donos de grandes indústrias, do agronegócio e do comércio atravessador.

A conciliação sonhada pelos bons moços e pelas poetisas sociaisdemocratas não funciona nem com o jargão franciscano do “paz e bem”, virado superstição e mantra superficial de alienados.

O ímpeto revolucionário que recebemos de Tiradentes precisa observar com mais atenção os sumos sacerdotes, os Herodes e os Pilatos  modernos, violentos, armados até os dentes e apetrechados tecnologicamente, todos animados a muitos  trilhões de quaisquer moedas, sempre prontos a jogarem migalhas nas sacolas dos traidores espalhados pelo judiciário, no parlamento, nas inúmeras forças armadas, viradas antros de milicianos bandidos, em igrejas fundamentalistas safadas, em maçonarias e em toda a parte. Todos ávidos pelos cargos de Judas e de Joaquim Silvério dos Reis.

Nossa luta revolucionária hoje passa pela organização séria de nosso povo. Nossos trabalhadores não devem mais ser reduzidos a eleitores, a cabos eleitorais, a auditórios de mesas redondas e de audiências públicas para ouvir sabichões falar de fórmulas milagrosas de como aumentar a qualidade de vida pela distribuição de renda, sem tomar o poder, batendo nas costas e tomando cafezinho com os sumos sacerdotes do mercado, genitor de Mussolini,  Hitler e de milicianos contagiantes de coronavirus e do fascismo.

Na jornada, como herdeiros de Tiradentes, não há como desconsiderarmos as experiências construídas por outros povos nas duras lutas de conquista da Pátria, expulsando os mercadores assassinos de Jesus e de Tiradentes.

A leitura de Lênin com sua luta construída coletivamente nos sovietes, na construção teórica bolchevique até aportar no poder real se impõe como aprendizagem.

É indispensável lermos as anotações de próprio punho do grande líder revolucionário e construtor do Estado Socialista da República Popular Democrática da Coréia.

Nos oito volumes de suas “Memórias No Transcurso do Século”  lê-se do profundo afeto revolucionário de Kim Il Sung. O general do povo aborda o pai como rigoroso e disciplinado mestre que o empurrou aos estudos, onde Sung se encontrou com professores versados em Marx e em Lênin, seduzindo o futuro general patriota a estudar e se temperar para liderar a revolução.

Ler o amor de Kim por sua mãe, de quem se despediu para se dirigir às montanhas para a luta armada, descrevendo-a recostada no portão da casa pobre de onde saiu para o cemitério, é percebermos que se um líder revolucionário não amar  com gratidão não será revolucionário. Tal afeto orientou o líder mesmo na rigidez da disciplina militar de suas tropas revolucionárias. Seus livros de memória são testemunhos do amor profundo por seus camaradas e pelo povo pobre, exaurido pelo frio e pela fome nas montanhas da Coréia e da China, graças a opressão atroz e desumanas do imperialismo japonês.

Anos depois de implantada a revolução, de definido o Estado Socialista, Kim Il Sung escreveu suas memórias e nelas demonstra amor e saudade dos camaradas que tombaram heroicamente na luta contra o imperialismo invasor e ladrão.

A revolução é puro amor pelo povo feito sujeito, liberto das amarras do nacionalismo oportunista, da socialdemocracia, essa coisa adocicada da qual burguesia gosta e joga no esgoto quando não mais a quer, deixando o povo desorganizado e desiludido.

Não se pode deixar de lado as lições organizativas do revolucionário vietnamita,  Hồ Chí Minh , estadista ex primeiro ministro e presidente, que se destacou na luta revolucionária que derrotou o imperialismo americano na guerra insana no Vietnam do Sul.

Hồ Chí Minh, o maior quadro revolucionário do Século XX, preparava suas lideranças teórica, tática e estrategicamente para mobilizar o povo na resistência contra a coalização militar na guerra sangrenta que o imperialismo genocida impôs ao seu país. Depois de prontos eram enviados levando apenas um saco de um composto alimentar de farinha, ovos e sal. Na organização do povo para a resistência os revolucionários recebiam alimentação, apoio e sobrevivência.

Assim nosso herói organizou a nação na derrubada dos lacaios sustentadores do imperialismo e promoveu a debandada do poderoso exército feito de bandidos e assassinos.

Assim teremos que reparar nas lições da revolução cubana, com toda a riqueza teórica e prática de Fidel Castro e de Ernesto Chê Guevara. Como também para o grande talento organizativo popular e militar do patriota Hugo Chávez na Venezuela.

Nada a copiar, mas tudo a aprender na luta com quem percorreu os caminhos nada românticos da revolução.

O caminho revolucionário do povo é prenhe de traições, de traidores porque luta contra a vertente da traição,  o regime imperialista, articulado com os capitalistas nacionais, que são inegociáveis porque não amam a Pátria nem se interessam pelo nosso povo.

Penso, minha amiga, que os intelectuais, os religiosos de todas as confissões, estes avançando para além da inocência tática e estratégica da Teologia da Libertação, somos todos conclamados à luta organizada contra o neoliberalismo e pela construção de um modelo coletivo econômico humano e social.

Ousar lutar e ousar vencer são marcas do povo mobilizado e em marcha.

Venceremos!

Abraços críticos e fraternos,

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