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Maurício Rands

Advogado, professor de Direito Constitucional da Unicap, PhD pela Universidade Oxford

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Os super-humanos e a desigualdade

Pessoas com muitas posses que podem lançar mão de ferramentas e substâncias que permitem atuar no corpo humano para otimizar suas capacidades

Ciência

A matéria de capa da The Economist de 22/03/2025 analisa a ascensão dos super-humanos. Pessoas com muitas posses que podem lançar mão de ferramentas e substâncias que permitem atuar no corpo humano para otimizar suas capacidades. Alguns já flertam com a “juventude eterna”, como Bryan Johnson, hoje com 47 anos, CEO da Kernel, uma empresa que desenvolve interfaces cérebro-máquina. Apresentando-se como um “atleta do rejuvenescimento”, Johnson fez da sua vida um experimento. Dorme às 20h30, acorda às 5h, ingere um coquetel de 100 suplementos e remédios indicados por uma equipe de cientistas. Um regime no qual despende US$ 2 milhões por ano. Faz uma hora de exercícios físicos e se alimenta de uma dieta vegana. A partir das 11h não come mais nada. Fez uma transfusão com o sangue de seu filho, depois de verificar o sucesso com ratos. E outra para substituir o plasma de seu sangue por uma proteína chamada albumina. Outros superbilionários como Peter Thiel e Elon Musk têm-se ocupado de implantes cerebrais e uso de drogas que amplificam a mente e o corpo. A ciência e a medicina vistas não apenas como restauradores do corpo diante da doença. Mas como instrumentos para ampliar o poder físico e cognitivo. E a própria longevidade. Esses tratamentos são de três categorias: suplementos, terapias genéticas e implantes neurais.

Tome-se o caso da epidemia atual da obesidade. Os ricos já dispõem de medicamentos como o Mounjaro, que foi aprovado pela Anvisa para o diabetes tipo 2. O Monjauro é mais eficaz do que um outro remédio também muito usado para reduzir a obesidade, o Ozempik. A versão do Mounjaro para reduzir peso estará nas farmácias brasileiras a partir de junho. A um preço em torno entre R$ 4 e 6 mil o frasco. Enquanto isso os pobres cada vez mais padecem de obesidade. Inclusive porque consomem mais os alimentos ultraprocessados. Outras drogas, como a Ritalin, a NAD+ e a metformin são vistas como amplificadoras do ciclo de vida e da capacidade mental. Já existem clínicas que inserem genes nas células. Algumas incentivadas por bilionários como Peter Thiel. Outros já se aventuram com equipamentos concebidos para transferir sinais diretamente para o cérebro humano a partir de chips de silicone. Sejam externos, sejam implantados no cérebro. Elon Musk fundou a Neuralink para desenvolver esses mecanismos. Há experimentos com implantes cerebrais para mover membros ou para restarar a visão de quem a tenha perdido. Para Musk, somente um cérebro humano capaz de atingir simbiose com a inteligência artificial pode ter esperança de permanecer relevante num mundo de máquinas inteligentes.

Impossível não comparar o potencial dessas tecnologias com a realidade dos nossos indicadores econômicos e sociais. Elas já começam a produzir resultados ainda incipientes. Mas em pouco tempo podem escalar. E daí surge a questão de como fomentar o acesso aos não-ricos. A história da tecnologia mostra que ela sempre foi apropriada pelos privilegiados. Às vezes seus benefícios são negados a grandes contingentes por séculos. O saneamento, por exemplo. A ONU estabaleceu o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 6, que visa garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos até 2030. Não obstante, metade da população do planeta ainda não tem acesso a serviços adequados de saneamento. No Brasil, esse número chega a 24,3 milhões de pessoas. Em Pernambuco, 66% da população não tem acesso à coleta de esgoto. No Recife, 50,5%. Ou 751 mil pessoas. O acesso a medicamentos básicos é muito restrito para a população de baixa renda. Por isso, o governo federal criou o Programa Farmácia Popular. Os medicamentos mais sofisticados permaencem uma quimera para muita gente. Imagine-se o acesso a equipamentos que ampliem as capacidades cognitivas e retardem de verdade o envelhecimento. O contraste torna-se ainda mais aviltante quando se observam outros indicadores. Como o acesso à educação de qualidade. Ricos e pobres frequentam escolas que em nada se parecem. Delas saem jovens com capacitações tão desiguais que dificilmente permitirão alguma competição menos injusta pelas oportunidades de renda e desenvolvimento profissional. 

O desenvolvimento tecnológico nessa área do aprimoramento humano (o chamado human enhancement) deve ser elogiado. O retardamento do envelhecimento e a ampliação de capacidades físicas e cognitivas já são realidade. Infelizmente, para muito poucos. O desafio é duplo. Primeiro, como criar regras e instituições que viabilizem o acesso também dos não-ricos a essas tecnologias. O segundo é como induzir que os investimentos e a competitividade possibilitem novas conquistas na área e o barateamento desses medicamentos e equipamentos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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