Os ursos proibidos de serem felizes

Dimas e Kátia, assim se chamam os dois ursos que hoje vivem em condições precárias no Zoológico São Francisco do Canindé, no Ceará, mantido por líderes franciscanos. Sua triste vida poderia ganhar uma nova oportunidade, não fosse por ações, no mínimo, suspeitas

Dimas e Kátia, assim se chamam os dois ursos que hoje vivem em condições precárias no Zoológico São Francisco do Canindé, no Ceará, mantido por líderes franciscanos.

Mesmo tendo sido sequestrados ainda jovens de seu habitat natural, com dentes e unhas cruelmente extraídos para se tornarem inofensivos, a fim de serem subjugados a treinamentos para espetáculos circenses dos quais foram explorados por mais de duas décadas; a triste vida dos ursos poderia ganhar uma nova oportunidade, não fosse por ações, no mínimo, suspeitas.

Esses dois animais têm sido protagonistas de um filme de terror há mais de 20 anos. Trata-se de dois ursos típicos de regiões com temperaturas muito inferior a que vivem hoje, que atualmente se encontram enclausurados num recinto muito apertado de escassa vegetação, água turva e um calor de mais de 40° graus no zoológico. A cena é de partir o coração: de cabeça baixa, prostrados e com movimentos repetitivos indicando estresse profundo, os ursos claramente estão definhando dia após dia.

Dimas viveu aprisionado em um circo que o explorou em nome do lucro. Quando ele não tinha mais serventia, foi covardemente abandonado. Em 2008, o urso foi encontrado às margens da BR-222, em Sobral, no Ceará, com garras e dentes extraídos e uma lesão em um dos olhos.

Mas o resgate não lhe trouxe uma vida melhor. Encaminhado ao zoológico, Dimas continuou a ser explorado para entretenimento humano, recebendo o apelido de "urso dançarino" e sendo tratado com uma mera atração.

Kátia também foi vítima da crueldade humana. A ursa viveu durante anos sendo forçada a andar de bicicleta e de skate e a se equilibrar em uma bola – práticas extremamente anti-naturais e, portanto, prejudiciais. Em 2011, ela foi levada para o zoológico onde vive Dimas e, no local, passa pelo mesmo sofrimento que o urso.

Mas acontece que existe a possibilidade da dupla ser transferida para o Rancho dos Gnomos, um belíssimo Santuário na cidade de Joanópolis, no interior do Estado de São Paulo, na fronteira com Minas Gerais. O local possui infraestrutura de dar inveja no mais mimado dos animais. O ambiente foi construído exclusivamente para receber estes ursos: com piscina, área de recreação, vegetação em abundância, uma belíssima vista, comida de qualidade, aclimatação amena e equipe multidisciplinar de especialistas em cuidar de animais que sofreram traumas físicos e psicológicos. Porém, o espaço construído para o sossego dos ursos permanece apenas com a presença de Rowena, resgatada em setembro de 2018, numa força tarefa entre o Rancho dos Gnomos, ativistas de defesa animal e a F.A.B (Força Aérea Brasileira) numa operação que ganhou ampla repercussão nacional.

Em coletiva realizada no auditório da SEMACE, no dia 30 de novembro, o Secretário do Meio Ambiente do Ceará, Artur Bruno (@artur.bruno.ce), foi desfavorável à libertação dos ursos, ao contrário, encheu de pormenores laudatórios com objetivo de atravancar a transferência. Não somente ele, mas o veterinário Reinaldo Viana Neto (@reinaldoviananeto), falando em nome do Conselho Regional de Medicina do Ceará, prestou infelizes declarações de que os ursos estão acostumados ao calor, tratando o assunto de forma fria e jocosa, sem levar em consideração o bem-estar físico e emocional dos animais. Quais interesses estão por trás desta crueldade?

Nesta sexta-feira (7), o perfil do Instagram @ursarowena publicou um vídeo com uma imagem escandalosa em que mostra que a situação do Zoológico São Francisco do Canindé só se complica. Um vídeo em que aparecem pedaços de carnes putrefadas como flagrante de desleixo e descaso à alimentação servida aos ursos causou revolta nas redes sociais. Confira aqui.

Para o biólogo Frank Alarcon, especialista do Instituto Luisa Mell, entidade que está conduzindo boa parte das negociações, "se não houvesse uma alternativa para onde esses animais pudessem ser enviados, talvez eles devessem ser mantidos no zoológico do Canindé, uma vez que, na época em que eles foram "resgatados" pelo poder público e pelo Ibama, apenas o zoológico se predispôs a acolher esses animais. No entanto, hoje, havendo outras possibilidades de remanejamento desses animais, resulta muito controverso ver que os gestores do atual cativeiro não queiram ceder esses animais para um ambiente mais propício."

É preciso que o governador reeleito, Camilo S. Santana (@camilosantanaoficial), se pronuncie, levando em consideração as características biológicas e de bem-estar animal, visando a transferência dos ursos Kátia e Dimas para o local apropriado e favorável, onde é evidente, a olhos nus, a discrepância entre um alojamento e outro; prezando a realocação dos animais para o Rancho dos Gnomos, onde poderão viver livres de visitações.

Com certeza, esse seria o desejo de São Francisco de Assis, padroeiro dos animais e também do Papa Francisco: que estes animais possam, enfim, terminar sua vida sossegados e dignamente, como sujeitos de direito e jamais sendo explorados pelo homem. É o mínimo que nós, enquanto seres 'humanos', devemos a eles.

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