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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Oscar 2026 consagra a mudança: o Brasil deixa de ver o cinema — agora o cinema nos vê

Enquanto Hollywood reverenciava Stand by Me e a obra de Rob Reiner, o Brasil surgia com O Agente Secreto, mostrando ao mundo a vitalidade narrativa do cinema

Prêmio Oscar (Foto: Lewis Joly/Pool via REUTERS)

A noite de 15 de março de 2026 ficará registrada como uma daquelas raras ocasiões em que o Oscar ultrapassa o território previsível das estatuetas e se transforma em algo maior: um encontro entre a memória do cinema e o futuro de suas narrativas. No Dolby Theatre, em Los Angeles, a cerimônia parecia respirar um ar diferente. Não era apenas a celebração anual da indústria. Havia ali uma atmosfera de reconhecimento histórico, como se a própria história do cinema tivesse decidido passar pela sala para conferir se estava sendo bem contada.

O grande vencedor da noite foi Uma Batalha Após a Outra. A distribuição dos prêmios, contudo, surpreendeu pela diversidade e pela justiça com que diferentes filmes foram reconhecidos. Havia produções radicalmente distintas entre si subindo ao palco para receber troféus importantes. E isso, por si só, já era um sinal de maturidade do momento atual do cinema mundial.

O Brasil não saiu da cerimônia com uma estatueta nas mãos. Mas esteve ali de forma vibrante, visível, incontornável. Por muito tempo tínhamos apenas direito de assistir, agora conquistamos com O Agente Secreto o direito de sermos assistidos. E sem fazermos concessões.

Quando Wagner Moura subiu ao palco e falou com elegância sobre o elenco de O Agente Secreto, a presença brasileira deixou de ser apenas uma indicação em uma categoria. Tornou-se representação cultural. Tornou-se narrativa. Narrativa com molho bem brasileiro saída das cozinhas baiana e pernambucana. E isso não é pouco.

O cinema brasileiro não estava apenas concorrendo.

Estava ocupando espaço.

Era impossível não perceber a quantidade de brasileiros circulando entre os convidados, produtores, diretores, atores, técnicos. Uma pequena invasão afetiva no centro simbólico do cinema mundial. Aquela presença coletiva transmitia algo mais profundo do que simples participação: indicava que o país chegou a um novo patamar de reconhecimento internacional.

Talvez por isso a sensação predominante fosse curiosamente agridoce.

Claro que gostaríamos de ver O Agente Secreto levar a estatueta. Isso seria uma celebração imediata, ruidosa, incontestável. Mas a história do cinema raramente se constrói apenas com vitórias formais. Muitas vezes ela nasce da permanência silenciosa de um filme no imaginário coletivo.

E ali estava Kleber Mendonça Filho, com sua cinematografia refinada, com sua trajetória construída sem atalhos, ocupando um lugar absolutamente merecido naquele cenário global.

Sua obra tem algo raro: um olhar profundamente brasileiro que não tenta se universalizar artificialmente. Pelo contrário. É justamente a precisão local que torna seu cinema compreensível em qualquer parte do mundo.

O Agente Secreto carrega essa força.

Se Ainda Estou Aqui, no ano anterior, apresentou ao mundo uma narrativa profundamente marcada pela história política brasileira e pelo trauma da ditadura, o novo filme expande ainda mais o mapa cultural do país. Trata-se de um filme recifense — e isso não é detalhe. É uma afirmação estética.

O Brasil é um país continental. Cada região possui ritmos, memórias, sotaques e paisagens próprias. Exportar essa diversidade talvez seja hoje uma das maiores riquezas do nosso cinema.

O público internacional começa a perceber isso.

O Oscar de 2026 deixou essa impressão clara: o cinema brasileiro não está mais com “um pé na porta”. Está com os dois.

E talvez por isso a noite tenha guardado um segundo momento de profunda emoção, quando a cerimônia interrompeu seu ritmo festivo para prestar homenagem a um dos grandes narradores da história recente do cinema.

Rob Reiner.

Billy Crystal subiu ao palco para conduzir o tributo. Sua voz carregava algo que raramente aparece em eventos dessa magnitude: afeto verdadeiro. Amigo de décadas do diretor, Crystal lembrou que Reiner herdara do pai, Carl Reiner, não apenas o talento para a comédia, mas também a habilidade de transformar histórias aparentemente simples em reflexões duradouras sobre a vida.

Quando o telão exibiu fragmentos de A Few Good Men, Misery e The Princess Bride, o público reagiu com aplausos calorosos. Mas foi quando surgiu um breve trecho de Stand by Me que o silêncio tomou conta do auditório.

Menos de trinta segundos.

Quatro garotos caminhando sobre trilhos de ferro. Sol alto. Uma paisagem aparentemente comum.

E, ainda assim, uma das imagens mais comoventes da história do cinema.

Dirigido por Rob Reiner e lançado em 1986, Stand by Me — conhecido no Brasil como Conta Comigo — tornou-se muito mais do que uma adaptação da novela The Body, de Stephen King. O filme capturou algo universal: o momento delicado em que a infância começa a desaparecer.

A história é simples. Quatro meninos atravessam a paisagem do Oregon em busca do corpo de um adolescente desaparecido. Não há heroísmo épico, nem efeitos espetaculares. O que existe ali é algo muito mais raro: amizade, medo, descoberta e a percepção silenciosa de que crescer significa perder algumas coisas pelo caminho.

A própria música que dá nome ao filme — Stand by Me — atravessa a narrativa como uma corrente invisível de afeto. A canção foi composta em 1961 por Ben E. King, em parceria com Jerry Leiber e Mike Stoller, e lançada originalmente naquele mesmo ano na voz de King, tornando-se rapidamente um clássico da música popular do século XX.

Uma daquelas canções raras que resistem ao tempo, comparáveis à melancolia luminosa de Hotel California, dos Eagles, lançada em 1976, ou à nostalgia delicada de The Way We Were, eternizada por Barbra Streisand em 1973. na cerimônia anteontem, Bárbara Streisand cantou alguns versos dessa canção. É bem estranho o país das lágrimas

Quase quarenta anos depois, a pequena cidade de Brownsville continua existindo no mapa. Casas foram reformadas, ruas mudaram, o tempo fez o que o tempo sempre faz.

Mas o cinema tem um poder curioso.

Ele preserva aquilo que a realidade transforma.

Para milhões de espectadores ao redor do mundo, Brownsville permanece congelada naquele verão ficcional de 1959. O vento continua passando pelas árvores. Os trilhos continuam conduzindo os garotos rumo a uma revelação que mistura brutalidade e amadurecimento.

Durante o tributo, Billy Crystal lembrou também de River Phoenix, cuja atuação como Chris Chambers continua sendo uma das mais intensas representações da vulnerabilidade juvenil no cinema. Phoenix morreu jovem, aos 23 anos, em 1993. A lembrança dele acrescentou outra camada de emoção à homenagem.

A certa altura, o telão exibiu a frase final narrada por Gordie adulto:

“Eu nunca tive amigos depois como os que tive aos doze anos.”

A frase ecoou pelo teatro.

E, naquele instante, parecia que o Oscar deixava de ser apenas uma premiação. Tornava-se uma espécie de cerimônia de memória coletiva.

Talvez seja essa a verdadeira função do cinema. Ele não apenas conta histórias. Ele preserva aquilo que o tempo insiste em levar embora.

E, naquela noite em Los Angeles, entre a afirmação vibrante do cinema brasileiro e a lembrança emocionada de Rob Reiner, o público teve a rara sensação de assistir ao passado e ao futuro do cinema caminhando lado a lado.

Como aqueles garotos sobre os trilhos.

Seguindo adiante.

Sem saber exatamente o que encontrarão.

Mas confiando, profundamente, na beleza da jornada que conduz a criança pela mão para a vida adulta.

E é exatamente nesse ponto que o Oscar de 2026 ganha um significado que vai muito além da cerimônia.

Porque o que se viu ali não foi apenas a consagração de um filme ou a celebração nostálgica de um grande diretor. O que se viu foi um sinal inequívoco de que uma nova geografia criativa está em formação no cinema mundial — e o Brasil ocupa um lugar central nessa transformação.

Durante décadas, nossa cinematografia atravessou ciclos de brilho e silêncio. Produzimos obras extraordinárias, conquistamos festivais, formamos gerações de cineastas brilhantes. Mas também enfrentamos períodos de desmonte institucional, cortes de financiamento e um ambiente hostil à própria ideia de cultura como política pública.

Mesmo assim, o cinema brasileiro sobreviveu.

Sobreviveu porque nunca dependeu apenas de estruturas.

Dependeu, sobretudo, de imaginação.

De uma capacidade quase teimosa de contar histórias.

O que se viu nesta cerimônia foi justamente isso: uma geração de realizadores que já não pede licença para existir. Eles chegam com repertório, com identidade, com linguagem própria.

Chegam com a força narrativa de um país que aprendeu a transformar diversidade em potência estética.

O cinema brasileiro não está tentando imitar Hollywood. Merecemos um Oscar apenas por isso. Nunca mais vira-latas.

Ele está oferecendo ao mundo algo que Hollywood já não consegue produzir com a mesma intensidade: olhar autoral, risco narrativo, densidade humana.

E essa talvez seja a grande notícia daquela noite.

O Brasil voltou.

Voltou com suas histórias regionais que se tornam universais.

Voltou com diretores que filmam o Recife, o sertão, a Amazônia, São Paulo, Brasília — e transformam essas paisagens em linguagem cinematográfica compreensível em qualquer continente.

Voltou com atores que carregam no rosto a complexidade de um país real.

Voltou com roteiros que recusam simplificações.

E voltou com algo que nenhuma indústria consegue fabricar artificialmente: imaginação cultural.

O Oscar de 2026 talvez não tenha nos entregue uma estatueta.

Mas entregou algo possivelmente mais importante.

Reconhecimento.

Visibilidade.

E a confirmação de que o cinema brasileiro deixou de ser uma promessa para se tornar presença.

Não estamos batendo à porta.

Estamos dentro da sala.

E, pelo que tudo indica, viemos para ficar. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.