Otimismo recorde às vésperas da posse: para 65%, a vida vai melhorar

Jornalista Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia, comenta a pesquisa Datafolha que aponta otimismo do brasileiro com o governo de Jair Bolsonaro; "São tantas as indefinições e dúvidas sobre o novo governo que melhor é esperar para ver como fica o Brasil a partir de janeiro. Não se trata só de torcer a favor ou contra, mas analisar friamente o que pode ou não dar certo diante da realidade concreta e não virtual dos fatos", diz Kotscho; "Se o otimismo mostrado pelo Datafolha sobreviver até o Carnaval, já estará de bom tamanho. No Brasil, como sabemos, o ano só começa depois da folia"

Otimismo recorde às vésperas da posse: para 65%, a vida vai melhorar
Otimismo recorde às vésperas da posse: para 65%, a vida vai melhorar

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia - "Otimismo do brasileiro com a economia do país dispara". 

A oito dias da posse de Jair Bolsonaro, esta é a manchete da Folha deste domingo com a pesquisa Datafolha que mediu as expectativas do brasileiro sobre o novo governo.

Confesso que fiquei surpreso com o índice de 65% de otimismo, o maior já registrado desde o início da série histórica do Datafolha, em 1997.

Apenas cinco meses atrás, antes da eleição, portanto, este índice era de apenas 23% _ ou seja, quase triplicou após a vitória de Bolsonaro.

Como a pesquisa não aprofundou a questão, para explicar a disparada do otimismo, fiquei curioso em saber em que se baseia esse sentimento dominante na sociedade brasileira.

Sejam quais forem as razões, o otimismo é bem vindo porque há um dado psicológico subjetivo que também determina os rumos na economia, não apenas números.

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Se as pessoas acreditam que a vida pode melhorar, é um bom começo para reacender esperanças, e tornar realidade os desejos. Ninguém vive sem esperança.

Ao contrário, se a maioria pensa que tudo vai piorar, acaba piorando mesmo, as pessoas não se arriscam a fazer nada.

A impressão que tenho é a de vivermos no momento entre duas realidades: a que é retratada diariamente pela imprensa, baseada em fatos, e aquela virtual disseminada pelas redes sociais, chamada por Bolsonaro de "comunicação direta com a população", em seu discurso, ao receber no TSE o diploma de presidente.

De um lado, temos as dificuldades e os desencontros na montagem do ministério, os constantes recuos no governo de transição, suspeitas de corrupção, a falta de clareza nas propostas econômicas _ um noticiário bastante crítico e negativo nos principais veículos da mídia nacional.

De outro, os tuítes e vídeos do presidente, que alimentam a rede bolsonariana, e são replicados por seguidores em diversas plataformas virtuais, na mesma linha beligerante da campanha eleitoral.

A julgar pelo resultado do levantamento, a maioria da população neste momento acredita mais nas redes sociais do que no noticiário convencional produzido por jornalistas profissionais, exatamente como aconteceu na eleição.

É impossível prever por quanto tempo persistirá esta preferência, depois da posse do novo governo, quando se confrontarão a realidade virtual com as ações concretas do dia a dia do governo.

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Por enquanto, não há sequer pistas para se saber quais serão as primeiras medidas do governo ao enfrentar os principais problemas nacionais e fazer a economia voltar a girar.

No pé da chamada de primeira página, há um alerta sobre outra pesquisa para aconselhar o leitor a ficar com os pés no chão: "Empresários se animam para 2019, porém não prevem contratações".

Vai direto ao assunto o título da página A24: "Confiança em 2019 não deve gerar empregos".

Na pesquisa realizada com diretores financeiros de todo o mundo pela Duke University, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, executivos brasileiros estão entre os mais otimistas com o próprio negócio, mas são reticentes em investir".

Não é preciso ser economista da equipe do Paulo Guedes para saber que, sem investimentos, não há como gerar novos empregos.

"O que me espanta na pesquisa é o nível de otimismo. No meu entender, os executivos deveriam ser mais racionais. Uma coisa é ter expectativa, outra é torcida e colocar isso nos projetos empresariais", explica Wlliam Eid, professor da escola de administração da FGV.

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No último Boletim Focus do Banco Central, economintas projetaram um crescimento de 2,55% para o próximo ano (um ponto acima do registrado em 2018).

"O levantamento mostra, porém, que diretores financeiros não planejam realizar investimentos, tampouco retomar as contratações".

São tantas as indefinições e dúvidas sobre o novo governo que melhor é esperar para ver como fica o Brasil a partir de janeiro.

Não se trata só de torcer a favor ou contra, mas analisar friamente o que pode ou não dar certo diante da realidade concreta e não virtual dos fatos.

Se o otimismo mostrado pelo Datafolha sobreviver até o Carnaval, já estará de bom tamanho.

No Brasil, como sabemos, o ano só começa depois da folia.

E vida que segue.

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