Ou burro, ou ladrão

O mandado contra Agnelo Queiroz era apenas de busca e apreensão. Mas o ex-governador do DF terminou preso por manter em casa uma carabina para a qual não tem porte de arma

Agnelo Queiroz
Agnelo Queiroz (Foto: Jonas Pereira / Agência Senado)
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Por Luis Costa Pinto, para o Jornalistas pela Democracia

Outubro de 2010. Tarde de domingo, segundo turno da eleição. Telefonei para Agnelo Queiroz, que em poucas seria proclamado governador do Distrito Federal eleito com quase 70% dos votos válidos. Weslian Roriz, mulher do emblemático Joaquim Roriz, que governara Brasília por quatro mandatos – três deles, eleito. Um, biônico. Impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa, Roriz empurrou a esposa para a cabeça de chapa. Foi um equívoco político enorme. O médico Jofran Frejat, personalidade querida e respeitada na cidade, era o candidato a vice. Se estivesse no lugar de Weslian, como temíamos no bunker que eu chamava “Agnelolândia”, venceria a eleição com facilidade.

– Preciso encontrá-lo antes de as urnas fecharem – disse-lhe ao telefone.

– Venha àquele local sigiloso. Ficarei aqui até a proclamação do resultado.

Ele me pedia para ir a uma espécie de hotel, à beira do Lago Paranoá, no Setor de Clubes Sul, próximo à Vila Planalto, onde fizéramos algumas reuniões da campanha. Havia sido responsável pela estratégia de comunicação da candidatura dele. Fui. Antes das 16h encontrei-o no apartamento que lhe fora cedido por um amigo. A mulher e o filho do candidato estavam lá. Pedi para falarmos a sós.

– Agnelo, hoje você derrota Roriz, a mulher do Roriz, a família do Roriz, e vira governador. Mas você não vai derrotar o rorizismo. Ele está na cultura política desse condomínio privado chamado Distrito Federal e você o pôs dentro de sua chapa. Está condenado a governar com ele. Se deixar que ele o contamine, morre junto com ele e leva junto o PT e a oposição brasiliense.
O candidato a vice-governador de Agnelo era Tadeu Filipelli, líder local do PMDB, àquela altura recém-separado de uma sobrinha de Joaquim Roriz. Filipelli fora todo-poderoso secretário do ex-governador em diversas pastas. Tinha acesso aos códigos-fonte da operação de poder na capital da República.

– Pode deixar. Não darei margem a isso. Comigo, não se criam – foi o que ele me respondeu. Fingi acreditar, pois queria muito que estivesse falando a verdade. Passei às estratégias operacionais:

– O resultado oficial deve sair entre 18h30 e 19h. Dê uma coletiva aqui – sugeri. E segui: – O primeiro tema que você tem de abordar é o estádio Mané Garrincha. Não há chance de a Fifa abrir a Copa do Mundo no Mané Garrincha. Não tem sentido construir um estádio para 72.000 pessoas em Brasília. As obras nem começaram. Anuncie que vai cortar o projeto para 36.000 pessoas – a metade do delírio atual, o mínimo exigido pela Fifa. E, na largada, você estará dando a notícia de que cortará os custos da obra pela metade.

– Excelente, mestre. Excelente – respondeu-me Agnelo Queiroz balançando a cabeça de forma rápida. Era um gesto habitual vê-lo menear a cabeça daquela forma. Em seu corpo esguio, lembrava um coqueiro bailando ao sabor da brisa à beira mar. Maldoso, perspicaz e inteligente, um publicitário que atuou conosco na campanha apelidara-o de “calango” em razão dos bailes craniais.

Surpreendendo-me, ele cumpriu o combinado. Desceu do quarto, deu a entrevista ao ser proclamada a vitória, anunciou o corte no projeto do Mané Garrincha e disse saber que havia derrotado Joaquim Roriz e sua mulher; mas que a missão a partir dali seria enterrar o rorizismo no Distrito Federal.

Transcorreu uma semana bíblica, sete dias, até que o governador eleito do Distrito Federal deu nova coletiva. Desistiu da ideia de desistir do estádio para 72.000 pessoas e anunciou que seria o maior lobista pela escolha de Brasília como cidade abertura da Copa de 2014. Procurei Agnelo novamente, até porque ele insistia para que virasse secretário de Comunicação ou de Publicidade Institucional e eu neguei três vezes a possibilidade de aceitar a deferência.

– Você conhece a sina de Brasília? – perguntei-lhe.

– Não – respondeu-me na ampla sala de sua casa que amanheceu nesta quinta-feira, 23 de julho, repleta de agentes do Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Não me furtei a explicar-lhe:

– De José Aparecido para cá, para governar Brasília, ou se é burro; ou se é ladrão. Roriz não era burro. Cristóvam Buarque, professor contra quem não se pode fazer acusações de roubo, além das deslealdades políticas, cometeu inúmeras burrices estratégicas na operação do poder.

Perdeu a reeleição para Roriz, que se reelegeu e seguiu sem jamais poder ser chamado de burro. Arruda, que o substituiu, também não tinha a burrice como diferencial competitivo em seu desfavor, muito pelo contrário. Deu no que deu. Paulo Octávio, vice de Arruda, ficou só seis dias no cargo porque era muito inteligente. Rogério Rosso, o governador-tampão eleito pela Câmara Legislativa, é burro e também não tem fama de ser lá muito honesto – deslindava qualidades e defeitos de cada antecessor e então o desafiei: 

– Você terá de escolher: burro? Ou ladrão?

Desde aquele diálogo, e muitas brigas nossas depois, Agnelo Queiroz já puxou cadeia por outras acusações e investigações de corrupção.

O mandado contra ele, nesta quinta-feira, era apenas de busca e apreensão. Mas o ex-governador terminou preso por manter em casa uma carabina para a qual não tem porte de arma. Guardava a espingarda mesmo sabendo que estará na mira de investigações distritais e federais pelos próximos dez anos ainda. Não foi uma atitude inteligente. Quanto às acusações que pesam contra seus atos como governador, bem, são inúmeras e falam por si. Talvez ele tenha escolhido seguir o caminho de Rosso ao mesmo tempo em que renunciou à chance de derrotar o nefasto rorizismo na capital da República.

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