Pacote ‘keynesiano’ de Biden: Uma corrida ilusionista contra o tempo?

"A questão de fundo reside na capacidade do governo Biden-Harris de unificar o país em torno de um projeto único: a nação imperialista é atravessada por um conflito sem precedentes, que divide as diversas frações da classe dominante e se estende de forma generalizada entre a população", diz o colunista Milton Alves sobre o pacote de estímulos de Joe Biden para os EUA

Presidente dos EUA, Joe Biden
Presidente dos EUA, Joe Biden (Foto: REUTERS/Mike Segar)
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O pacote de estímulos para a retomada da economia norte-americana apresentado pelo presidente eleito dos Estados Unidos Joe Biden, na noite da última quinta-feira (14), é uma tentativa de resposta para a profunda crise econômica, institucional e sanitária em curso no principal país imperialista, que também é sacudido por uma forte polarização política e social.

O pacote de 1,9 trilhão de dólares representa um improvisado giro de tipo keynesiano no país do Tio Sam e foi recebido com frieza e hostilidade por setores do mercado financeiro de Wall Street. Uma análise do plano indica um esforço no sentido de expansão da demanda interna, com a injeção direta de recursos no bolso da população – mais da metade do montante do pacote é destinado ao auxílio direto das famílias, dos trabalhadores e das regiões mais deprimidas pela crise econômica.

Entre as medidas anunciadas por Biden para enfrentar a recessão na economia, e o estrago causado pelo negacionismo do governo Trump no combate ao coronavírus, que já levou a vida de quase 400 mil norte-americanos, estão a promessa de um auxílio de 1.400 dólares para as famílias da classe trabalhadora, a ampliação do seguro-desemprego de 300 para 400 dólares por semana até o mês de setembro, a concessão de licenças remuneradas para os trabalhadores contaminados pela Covid-19 e um plano nacional de vacinação com o custo estimado em 400 bilhões de dólares (2,1 trilhões de reais) para imunizar 100 milhões de pessoas em cem dias.

Além disso, o pacote apresenta a proposta de dobrar o salário mínimo, uma medida que talvez encontre maior resistência entre os congressistas, segundo avaliação de economistas. O rol de medidas destina ainda 440 bilhões (2,3 trilhões de reais) para apoiar diretamente a recuperação de pequenas e médias empresas.

Em seu pronunciamento Biden cogitou que pretende apresentar um projeto de reativação da indústria norte-americana no mês de fevereiro. “Espero trabalhar com todos os partidos na Câmara para recuperar os Estados Unidos. Imaginem o futuro: feito nos Estados Unidos, fabricado totalmente nos EUA por [trabalhadores] americanos. Compraremos produtos americanos, sustentando milhões de empregos na indústria dos EUA”, prometeu. Vale lembrar que o futuro governo tem as demandas permanentes do complexo militar-industrial, um fator de pressão para a drenagem de bilhões do orçamento a favor dos gastos na indústria armamentista e militar.

No plano político, o pacote de Biden aposta no efeito de uma contenção da arremetida de Donald Trump contra o seu governo, esvaziando os apelos dos setores mais extremistas da direita republicana – que encontram ressonância entre segmentos da classe trabalhadora branca desempregada e da classe média rural empobrecida.

Com a posse marcada para o dia 20, Biden tem enormes desafios também no front externo, a começar sobre como vai conduzir a relação geopolítica e comercial com a China, um dos contenciosos herdados da “Era Trump”. Na conturbada agenda da política internacional terá que desmontar – ou manter – as armadilhas acionadas no apagar das luzes pelo governo trumpista : Sanções renovadas contra o Irã e a inclusão de Cuba na lista de países que supostamente apoiam o terrorismo.

A grande questão de fundo reside na capacidade do governo Biden-Harris de unificar o país em torno de um projeto único: A nação imperialista é atravessada por um conflito sem precedentes, que divide as diversas frações da classe dominante e se estende de forma generalizada entre a população -, que nutre sentimentos de rancor e revolta crescente contra o establishment político sediado em Washington.

Resta saber o alcance e a consistência das medidas desse esquálido “New Deal” democrata na vida real da população. Ou será mais uma corrida ilusionista contra o tempo para segurar o processo de decomposição e decadência do imperialismo norte-americano. Pois a crise que engolfa os Estados Unidos é mais uma expressão da agonia do capitalismo em seu atual estágio parasitário, cada vez mais, concentrador, predador e excludente.

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