Pandemia de Covid-19: quais as consequências para o clima?

Redução de emissões de gases estufa durante isolamento social não necessariamente aponta para um mundo mais verde pós-crise sanitária

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Os efeitos da pandemia de Covid-19, ou, mais precisamente, do isolamento social adotado mundo afora para combatê-la, sobre as emissões atmosféricas poluentes parecem indiscutíveis.

A NASA tem constatado o fenômeno na China, desde o mês de fevereiro. Medidas de confinamento humano adotadas em outros países da Ásia, principalmente na Índia, Europa, América e África levaram a uma desaceleração da economia mundial.

Os números falam por si: pesquisa da IHS Markit revela que, na zona do euro, a atividade da indústria de manufaturados sofreu uma queda de 10% em março (nível comparável ao de 2012); no setor de serviços, uma queda nunca observada: 47%, na Itália, 65%.

Em relação a atividades econômicas mais visíveis e diretamente poluentes, como o setor de transportes, as estatísticas são ainda mais impressionantes.

Nos EUA, na semana de 21 a 27 de março o tráfego rodoviário caiu 38% comparado ao da semana de 22 a 28 de fevereiro. Mais importante ainda foi a queda em algumas metrópoles americanas: 62% em Detroit, 54% em San Francisco, 48% em Nova Iorque.

De acordo com dados da Citymapper, o tráfego nas grandes cidades do mundo mais afetadas pelo surto do novo coronavírus é praticamente inexistente: 3% em Barcelona, Madri e Milão; 5% em Paris e Washington, etc.

Já o tráfego aéreo, após um recuo de 14% em fevereiro (segundo a IATA), os voos foram drasticamente suprimidos em março. O número global de fevereiro foi fortemente influenciado pela redução expressiva dos voos na zona Ásia-Pacífico, de 43%, especialmente no interior da China. O segundo maior aeroporto da França (Orly) foi fechado no final de março.

Apesar da incontestável redução das emissões atmosféricas poluentes, devido à queda da atividade econômica, especialmente nas grandes cidades, a catastrófica pandemia que assola o planeta seria uma dádiva para o clima?

Certamente não, ou muito pouco, porque o que conta é a concentração de gases de efeito estufa, que já estavam presentes na atmosfera antes de eclodir o surto do novo coronavírus.

O fato de não se liberar mais gases poluentes nas últimas semanas pouco influi. A menos que esta redução de emissões perdure por um longo período, de modo que a concentração atmosférica dos gases estufa se estabilize e, em seguida, comece a diminuir.

De fato, os satélites da NASA e da ESA registraram uma redução de 30 a 45% nas concentrações de CO2 na China, entre fevereiro e o início de março de 2020 e o mesmo período de 2019.

Segundo a NOAA/ESRL, em setembro de 2019, a concentração atmosférica total de CO2 equivalente foi de 408,6 ppm (partes por milhão); em fevereiro de 2020 foi de 414,1 ppm e, em março de 2020, de 414,5 ppm. Portanto, a dinâmica das emissões parece indicar uma estabilidade nos últimos dois meses.

Não há dúvida de que o nível das emissões anuais em 2020 será baixo, acompanhando a redução substancial do PIB global. E não se pode imaginar uma retomada econômica rápida, uma vez superada a pandemia.

Alguns países europeus já começam a falar no fim do isolamento social, mas todos sabem que isto não se dará da noite para o dia, e que cada país terá seu próprio cronograma de retorno às atividades econômicas.

Na China, país que mais rapidamente controlou a epidemia de Covid-19, a volta da população das regiões mais afetadas às suas atividades normais, tem sido muito difícil. E não será diferente nos demais países.

Globalmente, a atividade econômica só poderá ser retomada de forma progressiva. Mesmo que um determinado país volte à normalidade aparentemente rápido, ela poderá ser perturbada por fornecedores ou clientes de um outro país.

Alguns cientistas, que não excluem a possibilidade de nova disseminação do vírus SARS-CoV-2, preveem sérias perturbações na vida social e econômica dos países, que podem durar até dois anos.

Muitos analistas repetem a mesma cantilena, como sempre fazem em momentos de crise profunda: “estamos vivendo um momento histórico e o mundo não será mais o mesmo daqui para a frente”.

Mas por que o mundo seria diferente? A resposta está na resiliência, afirma o experiente jornalista Gérard Horny, do portal francês Slate. “Resiliência é um conceito da física de metais, que neste caso exprime a capacidade de uma sociedade resistir a um trauma, isto é, de voltar a seu estado anterior”, diz Horny.

Para o jornalista, especializado em questões econômicas, após a crise causada pelo coronavírus, nossa organização social e econômica tende a retornar à situação anteriormente vigente. “Coletivamente, o que nós desejamos? Reencontrar nossa vida normal, aquela de antes”, questiona e responde Horny.

É pouco provável que dirigentes políticos e empresários no mundo todo abdiquem do caminho mais fácil e rápido de retomar os rumos da economia, fazendo girar a mesma máquina, momentaneamente emperrada. Na China, por exemplo, a retomada econômica implicará no uso ainda mais intensivo do carvão, um combustível altamente emissor de gases poluentes.

Mas não é difícil encontrar ideias otimistas, que preveem um mundo pós-pandemia com uma retomada econômica sem maiores impactos sobre o clima. Para o professor de economia da Universidade de Paris-Dauphine, Christian de Perthuis, “um declínio histórico das emissões globais de CO2 começou”.

Perthuis acredita que a crise sanitária mundial nos obrigará a experimentar modos inovadores de organização e produção, que mantenham a redução das emissões atmosféricas após o isolamento social.

Que esta pandemia tenha colocado em evidência as fragilidades do nosso modelo de desenvolvimento, não há o que se discutir. Seria razoável, portanto, se esperar uma correção de rota.

Só que, levando em conta o estrago já contabilizado no PIB global nos meses de março, abril e talvez além, a urgência em retomar a atividade econômica de forma acelerada falará mais alto.

A intensidade do choque econômico imposto pela pandemia de Covid-19 é algo inédito, nada comparável à crise global precedente, que emergiu em 2008 e se estendeu até 2012.

Para todos os agentes econômicos, empresas e trabalhadores, assim como para os Estados, se imporá a necessidade de recuperação o mais rápido possível. Nessa ótica, nada mais seguro do que retomar as atividades de onde elas foram interrompidas e prosseguir, seguindo o mesmo modelo.

Políticas industriais “nacionalistas”, que visem a relocalização da produção de bens estratégicos, de modo a garantir autonomia às nações em tempos de crise como a vivenciada atualmente, precisarão de financiamentos significativos. A opção generalizada por um modo de transporte e produção de energia “de baixo carbono” também demandará altos investimentos.

Ora, num momento em que empresas e Estados já sofrem prejuízos incalculáveis com a queda na produção decorrente do isolamento social, é inimaginável que uma nova ordem econômica venha se estabelecer. Os problemas financeiros servirão de pretexto aos céticos do clima para que nada seja feito para que o baixo nível de emissões atual seja sustentável.

Nos Estados Unidos, um acordo entre republicanos e democratas para a adoção de um plano econômico emergencial de 2,2 trilhões de dólares só foi possível mediante fortes concessões em desfavor do meio ambiente.

Negociadores do plano que visavam incluir ações em prol do clima foram obrigados a renunciar à exigência ao setor aéreo de reduzir suas emissões de carbono, permitindo o abandono das pesquisas em combustível verde que as empresas deveriam financiar. Os setores de energia solar e eólica também não foram incluídos no plano trilionário americano.

Ainda no bojo deste mega plano econômico, o oportunista e cético do clima presidente Trump aproveitou para permitir um afrouxamento dos esforços da indústria automobilística, para atender ao controle federal de emissões preconizado pela administração Obama. Sem falar na execução, a partir deste mês, do projeto de um oleoduto para transportar petróleo do estado canadense de Alberta para os EUA, vetado no governo Obama.

O governo Trump decidiu, ainda, submeter à exploração da indústria de petróleo as reservas estatais de óleo cru. Do outro lado do mundo, a subsidiária russa da Gazprom está prestes a iniciar a construção de um oleoduto para levar gás da Sibéria para a China.

No âmbito da União Europeia, várias ações já foram recenseadas em Bruxelas pela jornalista especializada em assuntos de energia, Anna Hubert, para frear o Green Deal, anunciado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. 

“Para priorizar a retomada da atividade econômica, não podemos deixar de rever certas diretrizes legislativas”, declara James Watson, presidente da Eurogas. O Primeiro-Ministro da República Tcheca Andrej Babis afirma que “no momento, a Europa deve esquecer o Green Deal e se concentrar no combate ao coronavírus”.

Enquanto a Suprema Corte da Holanda confirma a decisão de que o país deve adotar as medidas necessárias para cumprir a meta de redução de emissões de carbono em 25%, em relação a 1995, seu ministro da economia declara, a propósito do Green Deal, que “muitos países e nós mesmo temos agora outras prioridades”.

São muitos os exemplos que colocam em xeque as políticas dos paises para reduzir emissões atmosféricas. A Conferência Mundial do Clima (COP 26), prevista para novembro em Glasgow (Escócia) e adiada para 2021, deverá abordar, entre outros pontos, a redefinição das políticas que os países signatários do Acordo de Paris (2015) devem seguir e as regras de funcionamento do mercado de carbono.

Embora o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, tenha julgado necessário a continuidade dos esforços na luta contra a mudança climática, lembrando que “a ciência sobre o clima não mudou”, é evidente que muitos Estados aproveitarão o adiamento da conferência para retardar a adoção de medidas em favor do clima.

Para o climatologista francês Jean Jouzel, “o que se faz para [combater] o coronavírus equivale a dois anos de financiamento em prol do clima”. Ele estima que a queda das emissões durante a pandemia pode ser seguida por um período de liberação maciça de CO2 na atmosfera.

Jouzel afirma que para fazer face à transição energética, a França precisa injetar em sua economia 20 bilhões de euros adicionais por ano. No entanto, o PIB francês encolheu nos três primeiros meses do ano 6%! E a atividade industrial no país foi reduzida a 25% de sua capacidade.

O que já era difícil obter em tempos de crescimento econômico, parece ainda menos provável com economias em recessão, quando os países tentarão recuperá-las no mais curto espaço de tempo. Tudo parece indicar que 2019 não tenha sido o ano do pico de emissões dos gases de efeito estufa.

Fontes:

http://www.slate.fr/story/189357/coronavirus-pandemie-climat-gaz-effet-serre-economie-mesures-redressement

https://www2.acom.ucar.edu/news/covid-19-impact-asian-emissions-insight-space-observations

https://www.co2.earth/historical-co2-datasets

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