Para além da estupefação

É urgente que as lideranças institucionais deste País se convençam de uma vez por todas que é o momento de preservar as ferramentas do Estado Democrático de Direito, sob pena de pagarem caro pela omissão

(Foto: Adriano Machado - Reuters)

Estupefação é um dos sentimentos provocados pela atual conjuntura brasileira. Quando se tem um adversário político que combate sob as regras de um Estado Democrático de Direito há perspectiva de avanços e recuos, dentro de um processo político civilizado. A angústia, o desânimo e o temor da a oposição é saber que, para as forças que ora ocupam os poderes, não há limites e nem compromisso ético com o uso do poder. Pelo contrário, a barbárie é a política da situação e o poder é usado assim e assado, ao sabor de convicções ideológicas de um grupo de ultra-direita, que não tem programa de governo, nem propostas para tirar o País da crise e que a essência do discurso é a aniquilação do Estado. A silente anuência do Executivo e do Judiciário e de seus respectivos órgãos de fiscalização e controle, sobre o criminoso conluio entre o juiz Sérgio Moro e a Força Tarefa do Ministério Público Federal da operação Lava Jato, escancaram uma crise institucional na qual os desdobramentos são deletérios para o conjunto da sociedade.

Ao tolerar que alguns servidores do MPF influenciassem o processo eleitoral, coadunou-se com a fraude e conspurcou-se a democracia. Em países onde as instituições democráticas funcionam, Moro renunciaria ao cargo de Ministro e toda a equipe da Força Tarefa estaria afastada de suas funções. Os vazamentos dos diálogos estão em jornais de todo o mundo. Porém, no Brasil há uma ainda influente parte da imprensa que, quando não ignora os criminosos diálogos, os minimiza, ou os desqualifica com acusações infundadas. Há uma crise instalada, que pode jogar o Brasil em um caos social, com o surgimento de aventureiros políticos, quando não, pior, um regime autoritário.

Somente a organização da classe trabalhadora, dentro dos espaços apropriados, dará efetiva e vitoriosa direção no sentido de reestabelecer a República. A democracia ainda não criou instituições que melhor organizaram os trabalhadores que os sindicatos e os partidos políticos. Diante do iminente caos, cabe às partes interessadas se procurarem. De um lado, as entidades representativas dos trabalhadores devem intensificar o trabalho de rua, no sentido de levar informação diversa da que é consumida dos grandes veículos de comunicação, principalmente por meio da televisão, que ainda influencia muito a despolitizada opinião pública. Ao encontro dessa iniciativa devem se colocar todos os trabalhadores, ocupando os espaços de debate, cobrando, mas também apoiando o sindicato que o representa, para a construção das táticas para alcançar a estratégia de reverter o quadro de indigência ao qual o Brasil está sendo levado.

A água do banho não pode se jogada fora com a criança. Se há problemas nos sindicatos e nos partidos políticos, deve-se combater os erros, mas preservar e melhorar as instituições. Fechá-las é regredir no tempo, para antes da abolição da escravidão. Os trabalhadores devem participar, inclusive para mudar o que não concorda. Cobrar atitude do sindicato e do partido, mas, também, se ombrear em mobilizações de pressão sobre o capital. A conjuntura exige uma reação da sociedade. Depois da estupefação, deve haver reação. O Brasil foi enganado por uma operação cuja propaganda é o combate à corrupção, porém, seu modus operandi é o de uma quadrilha que extorquiu valores e delações de empresários, de diretores de empresas e agentes públicos. A Força Tarefa passa por cima das leis para controlar uma fortuna que beira R$ 10 bilhões. Isso tem nome, projeto de poder de um grupo que fraudou uma investigação, ludibriou milhões de brasileiros e causou um prejuízo à economia brasileira superior a R$ 140 bilhões.

Negar e tentar desqualificar o trabalho da Intercepet Brasil definitivamente não muda a existência do conluio. Moro prendeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, passadas as eleições, aceitou ser ministro de Bolsonaro. O fato causou enorme celeuma nos grupos de comunicação dos promotores, onde ele foi acusado de prejudicar a operação. Já Dallagnol, não conseguiu, mas, manifestou intenção de prejudicar a campanha do professor Fernando Haddad. Até o momento, não se sabe de algum promotor que tenha reprovado a conduta do coordenador da Força Tarefa. Esse é um dos resultados da supressão da democracia, em 2016. A ausência de leis e o justiçamento como ordem social consomem as instituições por dentro. Nem mesmo os operadores da operação que se tornou uma fraude se entendem quanto ao que pode ser quebra de decoro ético, ou não.

É urgente que as lideranças institucionais deste País se convençam de uma vez por todas que é o momento de preservar as ferramentas do Estado Democrático de Direito, sob pena de pagarem caro pela omissão. A história tem o efeito de retirar todos os véus que, durante o período de ocorrência do fato histórico, foram usados para esconder a realidade, com especial intensidade pela imprensa. O que impede a preservação das instituições para além dos cargos é a vaidade de quem os ocupa, como se fosse ele próprio a instituição. A classe trabalhadora brasileira tem pouca consciência da sua condição de agente político e transformador social. Para sair dessa crise, que vai da economia aos costumes, a estupefação não pode ser banal. O que se vive no Brasil não pode ser aceitável e há de haver reação. O poder está nas mãos da classe trabalhadora para transformar a conjuntura.

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