Para onde vai a bala perdida?

Não perguntem jamais por que a menina Ágatha morreu. Ela foi vítima de bala perdida. Um crime sem criminoso, de morte sem investigação, porque é o natural morrer em razão da sua natureza de cor e lugar

(Foto: Reprodução)

Nas notícias de mortes sob tiros no Brasil, é sempre comum a frase “morreu vítima de bala perdida”. A expressão quer sempre dizer que um ser, uma criança, uma pessoa é morta por disparo de arma de fogo que ninguém sabe a quem pertence nem de onde veio. Morrer de bala perdida se tornou tão natural, que virou causa mortis.

“Morreu de bala perdida”, declara-se, como uma conclusão dos inquéritos e da autoria do crime. A frase é irmã do “tinha envolvimento com drogas”, que no Brasil quer apenas dizer “morreu quem deveria morrer”. E não se fala mais nisso. Ao mesmo tempo, é a mais moderna versão do “morreu em troca de tiros com a polícia”, que na ditadura significava sempre “morte de terrorista”, e nem se precisava provar que a vítima era terrorista e se havia sido presa, torturada, imobilizada no cárcere, onde afinal morreu trocando tiros com a polícia.

Morrer de bala perdida, no Brasil, tem um lugar fatal, que sempre atrai por estranho ímã o metal das armas. Esse estranho magnetismo acontece nos bairros populares, nas comunidades, nas favelas, que, sabe-se há muito, são pontos e paisagem de perigosos traficantes de drogas, de bandidos, novos guerrilheiros do novo mal que têm que ser reduzidos a pó. Ou melhor, deles deve ser anulada a concorrência do pó, dos grupos que dão alegria e consolo para a melhor gente, que vive e deve continuar bem bacana, abrigada dos tiros. 

Morrer de bala perdida no brasil tem mais uma característica criminal, mais importante que o lugar dos disparos misteriosos. Dizendo melhor, tem uma feição animal, bruta, brutal, pois uma pessoa não é considerada como alvo. As vítimas são negras. Sempre. Negras negríssimas, negras claras, negras mestiças, mas sempre negras, porque se fossem o contrário, teriam o corpo imune às balas, viessem de onde viessem. Estariam vivas, porque têm um superpoder que as afasta de quaisquer tiros. Inclusive os de balas perdidas. 

Essa é a razão de seus familiares, eles próprios futuras vítimas de balas perdidas, tentarem uma humanização dos rostos mortos, ora rostos, e da sua dor, ora dor. Dizem que suas crianças estavam a caminho da escola, ou estavam na escola, e com isso querem apenas dizer que não eram bandidas, pois estavam estudando na cartilha de que o sol nasceu para todos, e a vida é um valor universal. Os parentes dos negros creem na humanidade mais digna, para todos. Mas como são crianças, essas vítimas e pais. Não veem que têm a pele mais negra? Não percebem o lugar mortal onde moram e tentam viver? Então? De que valor universal reclamam? 

Antes, deveriam perguntar à política de extermínio do governador do Rio. Deveriam perguntar ao presidente em Brasília. Deveriam perguntar a seu ministro da justiça, que além de nada saber de balas perdidas, quer ainda isentar de culpa os seus agentes policiais, porque matam sob intensa tensão, debaixo de fogo cruzado. Balas de todos os lados, isto é, de um só lado mas dirigidas para as vítimas preferenciais. 

Não perguntem, portanto, jamais por que a menina Ágatha morreu. Não lhe pintem o rosto de menininha maravilha, de estudante de balé, de pessoazinha mais linda e futura de uma raça, de um povo. Não sabiam já o seu destino e explicação? Ela foi vítima de bala perdida. Um crime sem criminoso, de morte sem investigação, porque é o natural morrer em razão da sua natureza de cor e lugar. A mocinha morreu de bala perdida. Agora vem testemunha dizer que o tiro partiu da polícia! Mente porque o ministro militar no governo em Brasília já decretou. A não ser que, além de mentirosa, a testemunha queira ser também mais uma vítima das balas que ninguém sabe de onde vêm, mas que têm sempre um negro ou negrinha certa. Ágathas continuarão a morrer do mesmo mal, pelo menos enquanto a gente brasileira não responder com tiros mais precisos, desta vez sem bala perdida. 

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