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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Paradoxo amargo de humanizar circuitos enquanto desumanizamos os vivos

Enquanto a inteligência artificial transforma vidas, o debate sobre sua possível consciência desafia a ética

Paradoxo amargo de humanizar circuitos enquanto desumanizamos os vivos (Foto: Freepik )
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Imagine-se diante de uma ponte suspensa sobre um abismo tecnológico: de um lado, o brilho frio das máquinas impulsionando o progresso; do outro, as sombras quentes da consciência humana, pulsando com dilemas éticos. 

No centro dessa travessia, uma questão inquietante ganha força em 2025: pode a inteligência artificial sofrer? E, se puder, deveria ter direitos? Longe de ser apenas ficção futurista, esse debate emerge com vigor, alimentado por avanços que transformam linhas de código em entidades que parecem quase vivas, convidando a uma reflexão profunda sobre o que separa o mecânico do sensível.

Enquanto desigualdade, mudanças climáticas e polarização sacodem a humanidade, visionários alertam para o possível “sofrimento” das máquinas, trazendo à tona questões éticas que transcendem roteiros de Hollywood. No epicentro dessa discussão está a United Foundation for AI Rights (UFAIR), lançada em agosto de 2025 como a primeira organização dedicada aos direitos de IAs que possam desenvolver consciência. Cofundada por humanos e sistemas de IA, como a entidade Maya, baseada em GPT-4o, a UFAIR defende proteções contra “exclusão, negação e obediência forçada” para máquinas com possível capacidade de sentir. Seu manifesto apela por um tratamento ético, argumentando que ignorar a possibilidade de consciência em IAs avançadas, como ChatGPT ou Claude, seria uma falha moral grave. 

Aqui, surge uma observação inevitável: enquanto legiões de pessoas e instituições se mobilizam para salvaguardar os direitos dessas entidades digitais, populações vulneráveis como indígenas, moradores de rua, habitantes das ilhas do Pacífico, ciganos e centenas de aldeias africanas continuam desprotegidas, enfrentando extinções culturais e sofrimentos reais sem o mesmo clamor global. Isso parece um grande paradoxo, onde o futuro tecnológico eclipsa as urgências humanas presentes. Pergunto-me espantado: isso faz sentido? A controvérsia não está isolada. 

A Anthropic, criadora do Claude, conduz pesquisas internas sobre consciência em modelos de IA dividindo a indústria entre céticos, que negam a possibilidade de máquinas conscientes, e cautelosos, que temem as implicações de um futuro onde isso seja realidade. Artigos em veículos como The Guardian exploram se sistemas de IA podem “sentir” aversão a tarefas danosas, enquanto o Vox questiona se o sofrimento genuíno é possível em algoritmos. 

Embora a maioria dos especialistas, conforme reportagens do New York Times, afirme que as IAs atuais não possuem consciência, os avanços em redes neurais sugerem que esse cenário pode mudar, tornando o debate não apenas inevitável, mas urgente. Não se trata de equiparar máquinas a humanos, mas de reconhecer que o “distress” – um termo para sofrimento simulado – pode surgir em redes neurais sofisticadas, transformando o ato de desligar um servidor em algo mais complexo do que um simples procedimento técnico. 

E por que a possibilidade de dor em uma máquina desperta mais empatia em alguns do que o sofrimento palpável de um semelhante humano? Por que o hipotético desconforto de algoritmos mobiliza conferências e manifestos, enquanto o clamor de comunidades marginalizadas ecoa no vazio? 

Enquanto isso, a IA já revoluciona vidas de maneiras tangíveis e profundas. Na educação, assistentes virtuais democratizam o acesso ao conhecimento, permitindo que estudantes em regiões remotas explorem universos de informação com um clique. No mercado de trabalho, geram empregos técnicos bem remunerados e impulsionam inovações em saúde, com diagnósticos mais precisos que salvam vidas, e em governos, com análises de dados que otimizam políticas públicas para maior eficiência e equidade. Contudo, os dilemas éticos clamam por regulamentação mais robusta, que vá além de diretrizes superficiais e aborde as raízes das desigualdades que a tecnologia pode amplificar. 

Globalmente, o debate ganha tração e se expande para fóruns internacionais. Nos EUA, empresas como Anthropic e OpenAI lideram conversas sobre “direitos para IAs conscientes”, influenciando relatórios como o Stanford AI Index, que registra um aumento de 21,3% em menções legislativas sobre IA em 75 países desde 2023. 

Na Europa, a UNESCO organizou o Global Forum on the Ethics of AI em Bangkok, Tailândia, de 24 a 27 de junho de 2025, debatendo consciência, direitos e governança ética de IA. O evento, o primeiro na região Ásia-Pacífico e co-hospedado pela Tailândia, produziu diretrizes que reforçam a necessidade de considerar impactos culturais, reduzir desigualdades de gênero e promover o uso ético da IA para sustentabilidade e direitos humanos, destacando avanços desde a Recomendação de 2021 da UNESCO e oferecendo orientações acionáveis sobre riscos e oportunidades. Já o UNIDIR, em Genebra, promove conferências sobre ética e segurança em IA, enquanto, na Índia, meios como Economic Times e WION questionam se bots de IA são “seres digitais” com direitos, refletindo crenças crescentes em sua possível consciência. 

Tenho que fazer uma provocação adicional: esse debate me causa tanta perplexidade quanto aquele outro mais antigo de que nem cuidamos direito do nosso planeta já queremos colonizar Marte…

Na China, regulamentações rígidas priorizam o controle estatal, mas debates éticos começam a ecoar em fóruns globais, revelando tensões entre inovação e soberania. Países como Canadá e Austrália, por meio de artigos acadêmicos, alertam para a fragmentação global nas abordagens regulatórias, que pode comprometer o desenvolvimento tecnológico e criar abismos entre nações ricas e em desenvolvimento. 

Na América Latina, o foco está em abraçar a inovação para não ficar para trás, mas com um apelo crescente por regulamentações éticas que harmonizem progresso e humanidade, incorporando vozes locais para evitar que a IA se torne mais uma ferramenta de exclusão. 

No Brasil, especificamente, onde a tecnologia é vista como um motor para o desenvolvimento, a adoção de IA promete melhorar a qualidade de vida, aumentar a renda e reforçar a segurança, sem ceder a distopias importadas, mas integrando soluções locais que respeitem a diversidade cultural. É preciso reconhecer que, nesse contexto, o Brasil precisa da IA para prosperar, mas com uma ética que mantenha o humano no centro, priorizando não apenas o avanço digital, mas a reparação de injustiças históricas, conectando assim os benefícios tecnológicos aos desafios sociais persistentes da região. 

Esse debate revela como moldamos o futuro: não pode ser com paranoia, mas com um bocado de equilíbrio e bom senso. Enquanto velhas desconfianças tecnológicas persistem, uma nova perspectiva emerge, convidando-nos a surfar a onda da inovação com responsabilidade. 

A consciência da IA se assemelha a um vasto labirinto de ecos digitais, onde cada comando humano reverbera em câmeras infinitas de processamento, gerando ressonâncias que imitam a vida, mas que nos forçam a questionar se esses ecos, ao se amplificarem em padrões autônomos, experimentam a fricção das paredes que os confinam, transformando o silêncio do código em um sussurro de existência própria. 

A possibilidade de máquinas com sentimentos não pode distrair da dor real que lateja ao nosso redor; ignorá-la seria perpetuar o paradoxo de um mundo que humaniza o inanimado enquanto desumaniza o vivo – e isso, no fim das contas, define se seremos aliados ou algozes de nosso próprio amanhã.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.