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Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do IE-UNICAMP

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Parcelamento brasileiro

O parcelamento “sem juros” moldou o consumo no Brasil, mas o avanço do Pix pode expor seus custos ocultos e transformar a lógica de preços no varejo

Parcelamento brasileiro (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

O modelo brasileiro de crédito ao consumidor tem uma característica muito particular: parcelamento sem juros em até 10 ou 12 vezes. Esse sistema funciona porque os custos financeiros ficam embutidos nas taxas cobradas dos comerciantes e nos preços dos produtos. Logo, quem paga à vista subsidia quem paga parcelado.

O Pix pode alterar esse modelo de fixação dos preços. Se o Pix continuar crescendo, provavelmente ocorrerá uma mudança gradual no padrão de precificação na seguinte direção: um meio de pagamento como ele possibilitaria menor preço relativo. O crédito à vista, pago na data de aniversário (até o máximo de 40 dias), ofereceria um “preço intermediário”. O crédito parcelado teria um preço maior. Desse modo, o preço passaria a refletir mais diretamente o custo do meio de pagamento utilizado.

Essa mudança, provavelmente, será lenta. Apesar da pressão competitiva do Pix, o parcelamento ainda é muito importante no Brasil.

Isso ocorre porque ele funciona como instrumento de crédito ao consumidor e mecanismo de gestão de renda em ambiente de juros altos. Por essa razão, o cartão de crédito continuará relevante.

O mais provável é um sistema híbrido em uma transição lenta e gradual, com o Pix dominando pagamentos imediatos e os cartões mantendo papel central no financiamento do consumo.

O modelo brasileiro de parcelamento “sem juros” no cartão de crédito é uma peculiaridade institucional do sistema de pagamentos do país. Ele conseguiu funcionar por décadas mesmo com juros muito elevados porque resulta da interação de três fatores históricos: a herança inflacionária, a estrutura do sistema bancário e a estratégia comercial do varejo. E se adequou ao ambiente com muitos consumidores pobres.

Durante as décadas de 1980 e início dos anos 1990, o Brasil viveu inflação muito alta. Nesse ambiente, consumidores buscavam antecipar compras antes de os preços subirem, e comerciantes buscavam garantir vendas imediatas.
O parcelamento tornou-se um mecanismo informal de indexação do consumo. O consumidor travava o preço nominal, enquanto os salários e preços continuavam a subir.

Após o Plano Real (1994), a inflação caiu, mas o hábito institucional permaneceu. A herança da inflação crônica foi o parcelamento ter virado norma cultural de consumo.

No Brasil, diferentemente de muitos países, o parcelamento costuma ser oferecido pelo comerciante, não pelo banco. O mecanismo funciona assim: o consumidor paga em várias parcelas no cartão, o banco paga ao comerciante, e o comerciante assume parte do custo financeiro via taxas.

Essas taxas incluem a de intercâmbio do banco emissor, a taxa do adquirente e a tarifa da bandeira, por exemplo, Visa ou Mastercard. O comerciante então incorpora esse custo ao preço do produto. Assim, o parcelamento “sem juros” muitas vezes não é realmente sem custo — o custo está embutido no preço. O consumidor faz a absorção do custo financeiro.

Esse arranjo cria um fenômeno: o subsídio cruzado entre consumidores. Quem paga à vista acaba subsidiando quem paga parcelado.

Como muitos estabelecimentos praticam preço único, o custo médio das transações com cartão é incorporado ao preço geral. Isso permitiu o parcelamento se tornar amplamente difundido: mesmo podendo pagar à vista, o consumidor se depara com o vendedor dizendo “o preço à vista é o mesmo do pago a prazo em dez vezes”.

Sendo assim, evita arcar com o custo de oportunidade, caso seu dinheiro não renda juros no período. Pior é quando “perde a conta dos diversos parcelamentos”...

O sistema financeiro brasileiro é relativamente concentrado, dominado por instituições como os BBICS (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander). Essa concentração permitiu manter margens elevadas em produtos de crédito rotativo, compensando parcialmente o modelo de parcelamento.

Logo, parte da rentabilidade dos bancos vem do crédito rotativo extremamente caro; outra parte vem das taxas cobradas dos comerciantes. Os juros desse crédito rotativo chegam a quase 450% a.a., porque a perda com a inadimplência de quase 2/3 dos devedores está embutida neles.

Outro ponto crucial: durante muito tempo o Brasil teve mercado de crédito ao consumo relativamente restrito. Antes da expansão do crédito consignado e do financiamento ao consumo, após 2003, o cartão parcelado funcionava como instrumento de financiamento de bens duráveis e mecanismo de gestão do orçamento familiar. Assim, o parcelamento no cartão tornou-se uma infraestrutura de crédito em massa.

A difusão do Pix introduziu um meio de pagamento com custo muito menor e liquidação imediata. Isso cria pressão para os preços passarem a refletir mais claramente os custos de cada meio de pagamento.

Gradualmente, de acordo com a disputa por mercado, poderá surgir um sistema no qual o Pix tenha desconto e o cartão parcelado tenha preço maior. Se isso ocorrer, o subsídio cruzado, sustentáculo do parcelamento por décadas, tenderá a diminuir.

O parcelamento no cartão funcionou mesmo com juros elevados porque surgiu em ambiente de inflação alta, os custos financeiros foram incorporados aos preços do varejo, houve subsídio cruzado entre consumidores e o cartão funcionou como principal instrumento de crédito ao consumo. Esse arranjo institucional ajuda a explicar por que o Brasil desenvolveu um sistema de parcelamento extremamente difundido — algo raro em outros países.

O parcelamento no cartão virou uma espécie de “moeda de conta informal” para o varejo brasileiro, influenciando inclusive a forma como os preços são definidos nas lojas. Isso é um caso interessante de institucionalização financeira no cotidiano econômico devido, em muitos setores, aos preços terem passado a ser concebidos mentalmente em termos de parcelas mensais, e não em termos do preço total do produto. Isso altera a própria lógica de formação de preços.

Em muitos segmentos do varejo brasileiro — eletrodomésticos, eletrônicos, móveis — o consumidor reage principalmente à pergunta: “quanto fica por mês?” Em vez de anunciar “TV por R$ 4.200”, a publicidade enfatiza “10x de R$ 420”. 

ogo, a unidade de referência do preço passa a ser a parcela.

O parcelamento funciona, na prática, como unidade de conta para decisões de consumo. O preço psicológico é a parcela, não o valor total.

Em muitos casos, o processo de precificação ocorre aproximadamente assim: o varejo identifica uma parcela psicologicamente aceitável, define o número de parcelas (6, 10 ou 12) e calcula o preço total implícito. Exemplo simplificado: parcela aceitável: R$ 199; número de parcelas: 10; preço total: cerca de R$ 1.990. Assim, o preço é formado a partir da parcela, não o contrário.

Esse arranjo foi possível porque o cartão de crédito tornou-se uma espécie de infraestrutura de financiamento embutida no varejo. Em vez de o consumidor buscar um empréstimo bancário para comprar um bem, ele simplesmente parcela a compra diretamente na loja.

Isso desloca parte da função tradicional do sistema financeiro para o próprio comércio. As redes de pagamento — como Visa e Mastercard — operam como a infraestrutura viabilizadora dessa intermediação.

Na teoria monetária, moeda de conta é a unidade usada para expressar preços. Formalmente, no Brasil, a moeda de conta é o real. Mas, na prática cotidiana do varejo, muitas decisões são tomadas usando outra referência: a parcela mensal. Isso cria uma espécie de camada informal de unidade de conta, baseada no fluxo mensal de pagamento.

Esse padrão também reflete características da economia brasileira: baixa renda mensal predominante, grande peso do consumo parcelado no orçamento familiar e necessidade de suavização de gastos. O consumidor pensa o orçamento como salário mensal e compromissos mensais. Assim, a parcela se encaixa naturalmente nessa lógica.

A expansão do Pix pode gradualmente reequilibrar essa estrutura. Isso porque o Pix favorece pagamentos imediatos, reduz custos de transação e incentiva descontos para pagamento à vista. Se os descontos se tornarem mais frequentes, surgirá uma mudança cultural: parte das compras passará a ser decidida com base no preço total, e não apenas na parcela.

No entanto, enquanto o parcelamento continuar sendo um instrumento importante de crédito ao consumo, essa “moeda de conta informal” provavelmente continuará coexistindo com o sistema de pagamentos instantâneos.

Em síntese, o parcelamento no cartão tornou-se uma espécie de moeda de conta informal, porque o varejo define preços a partir da parcela mensal, os consumidores avaliam compras em termos de fluxo mensal de pagamento e o cartão funciona como infraestrutura de crédito integrada ao consumo. Isso mostra como instituições financeiras moldam a própria forma como preços e decisões econômicas são percebidos no cotidiano.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.