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Gustavo Guerreiro

Indigenista na Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Pesquisador do Observatório das Nacionalidades, editor da Revista Tensões Mundiais. Doutor em Políticas Públicas. Especialista em questões militares. Diretor de Pesquisas do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz).

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Parem de invocar os céus

Que o infortúnio de Brasília sirva, ao menos, para iluminar (sem trocadilhos) a necessidade de aterrissarmos

Parem de invocar os céus (Foto: Reprodução/YouTube)

Parece que o destino, com seu senso de humor por vezes macabro, resolveu ilustrar literalmente a metáfora que desenhei neste mesmo espaço na semana passada. Quando alertei sobre o perigo de invocarmos as Erínias — aquelas fúrias vingativas da mitologia grega — para o centro do debate político, não imaginava que a resposta da natureza viria sob a forma de uma descarga elétrica fulminante sobre a Esplanada dos Ministérios. O raio que atingiu dramaticamente a marcha do deputado Nicolas Ferreira poderia, aos olhos de um leitor de Ésquilo, soar como uma intervenção direta do Olimpo, um castigo dos deuses contra a hubris desmedida dos homens. Mas é preciso frear o pensamento mágico aqui mesmo. Não estamos em uma tragédia grega, mas no Brasil de 2026, onde a eletricidade obedece à física, e não à moral. A “coincidência” entre o meu alerta sobre as fúrias e o estrondo nos céus de Brasília cessa onde começa a responsabilidade civil: o que vimos não foi a ira divina, mas a imprudência profana de líderes que expõem multidões ao perigo e, quando o inevitável ocorre, ousam chamar o desastre de desígnio sagrado.

Há momentos em que a irresponsabilidade cobra seu preço com uma violência que dispensa metáforas. Qualquer estudante de ensino fundamental sabe que não é nada prudente erguer dois guindastes metálicos aos céus em campo aberto durante uma tempestade. O raio que feriu manifestantes na última terça-feira trouxe o debate político de volta ao chão duro da realidade material. Aos feridos, nossa solidariedade irrestrita, pois a dor nivela a todos; mas aos organizadores, cabe o escrutínio severo de quem trocou a segurança pela estética do espetáculo.

No entanto, passado o susto e prestado o socorro, a análise política é obrigada a voltar à cena do infortúnio, não para perscrutar os desígnios divinos, mas para investigar a irresponsabilidade humana. E é aqui que a tragédia climática se converte em farsa retórica. Ver milhares de pessoas expostas em campo aberto, sob a tempestade típica do verão no Planalto Central, obedecendo a convocação de líderes que parecem mais preocupados com a estética de seus vídeos para o Instagram do que com a integridade física de seus seguidores, é o retrato bem-acabado de um tempo onde a prudência foi abolida em nome do espetáculo. Mas o que me traz a estas linhas não é apenas a negligência civil dos organizadores; é a disputa narrativa que se seguiu ao estrondo, e o perigo que ela representa para a nossa já combalida vida republicana.

Confesso que, ao saber do ocorrido, fui assaltado por uma tentação intelectual mesquinha, quase irresistível. Seria fácil, demasiadamente fácil, cair na armadilha de usar a mesma régua teológica da extrema-direita para “ler” o evento. Ora, se eles afirmam que cada vitória eleitoral é uma bênção de Deus e cada derrota é obra de Satanás, não estaríamos nós, do campo progressista, autorizados a dizer que o raio foi um “aviso”, uma “punição”, um recado irascível do Altíssimo contra a pauta conservadora? A ironia é sedutora. Imagino as manchetes mentais que muitos colegas e militantes de esquerda desenharam: “Deus reprova o ato antidemocrático”, ou “A fúria dos céus contra o fundamentalismo”.

Mas precisamos resistir. Precisamos frear esse impulso atávico com todas as forças da nossa razão. Um raio é apenas um raio. É o encontro violento de cargas elétricas, um fenômeno físico explicado pela eletrodinâmica e pela meteorologia, despido de qualquer intenção moral. Se começarmos a celebrar o mau tempo como aliado político, estaremos apenas validando a lógica obscurantista que juramos combater. Se aceitarmos que Deus envia raios para punir Nicolas Ferreira, teremos que aceitar, por coerência, que Ele envia secas para punir o Nordeste ou enchentes para castigar o Sul. Entrar nesse jogo de interpretação de sinais cósmicos é a morte da política e o retorno à era das superstições, onde o sacerdote lia as entranhas de um animal para decidir se o exército marcharia ou não.

É por isso que a fala da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, ao classificar a manifestação — mesmo com seu desfecho trágico — como “um evento conduzido por Deus”, é tão perniciosa. Ao sacralizar o ato, ela não está apenas oferecendo conforto espiritual aos seus; ela está operando uma blindagem política de alta voltagem. A frase carrega uma astúcia retórica impressionante: se o evento foi conduzido por Deus, então o raio não foi um erro de planejamento, nem uma exposição imprudente ao perigo. Foi um mistério, uma provação, parte de um plano inefável que nós, meros mortais (e o Supremo Tribunal Federal), não temos competência para julgar.

Essa sacralização da política transforma a disputa democrática em uma guerra santa, e isso tem consequências devastadoras para as instituições. Percebam a manobra: ao revestir a mobilização partidária com a linguagem do sagrado, cria-se uma narrativa messiânica onde o líder político não é mais um representante eleito sujeito a erros e leis, mas um instrumento da Providência. Se a marcha é uma “missão sagrada”, quem ousa criticá-la? Opositores tornam-se hereges; juízes tornam-se demônios; e o Código Penal torna-se uma afronta à liberdade de fé. Substitui-se o debate sobre responsabilidade civil (por que manter as pessoas na chuva?) por uma exegese delirante sobre a vontade de Deus.

A fé, nesse contexto, deixa de ser um refúgio da alma para se tornar um instrumento brutal de poder. O discurso messiânico visa deslegitimar qualquer oposição, pois discordar do “projeto de Deus” é, por definição, aliar-se ao Mal. É a morte da divergência racional. Como debater a reforma tributária ou o arcabouço fiscal com alguém que acredita lutar a batalha final do Apocalipse? A política exige terreno comum, exige a possibilidade de consenso ou conflito racional; o messianismo exige submissão ou martírio.

Vemos aqui, na prática, a urgência da tese que defendi anteriormente: a necessidade de excluir Deus da gramática oficial do poder. A insistência em misturar o céu com a Constituição não enobrece a política; ela rebaixa a fé à categoria de curandeirismo eleitoral e empobrece o debate público. Quando Michelle Bolsonaro diz que Deus conduziu o evento, ela não faz teologia, mas advocacia preventiva. É a astúcia de converter negligência terrena em desígnio celestial, lavando as mãos da responsabilidade civil na bacia da providência divina. O argumento subjacente é de um cinismo atroz: não se trata de erro de planejamento, mas de um mistério insondável, onde os organizadores alegam, convenientemente, que apenas seguiam a nuvem.

O risco às instituições democráticas é evidente. O messianismo político é incompatível com a democracia porque ele não reconhece limites. Para o fanático, uma decisão judicial é irrelevante diante de uma “ordem divina”. A Constituição é um papelório humano que não pode conter a “verdade revelada”. Se não cortarmos esse cordão umbilical entre o púlpito e o palanque, estaremos condenados a viver em um estado de exceção permanente, onde a lei vale apenas quando coincide com o versículo do dia.

O raio que caiu em Brasília não foi um recado. O céu não faz política. O céu produz chuva, vento e eletricidade. Quem faz política somos nós, homens e mulheres, que deveríamos ter a decência de assumir nossos atos sem nos escondermos atrás do mito e do sagrado. A esquerda não deve cair na tentação de usar o incidente como “prova” de favor divino, pois isso seria legitimar o mesmo pensamento mágico que sustenta o adversário. Nossa resposta deve ser a da política, da lei e da humanidade: choveu, foi perigoso, houve imprudência, pessoas se feriram. Ponto.

Ameaçar o Estado Laico com interpretações místicas de tragédias naturais é o caminho mais rápido para a barbárie. Que o infortúnio de Brasília sirva, ao menos, para iluminar (sem trocadilhos) a necessidade de aterrissarmos. Precisamos trazer a política de volta para o chão duro da realidade, onde os atos têm consequências legais, onde os líderes são responsáveis pela segurança de seus liderados e onde Deus, em sua infinita sabedoria (para os que creem), certamente preferiria não ser usado como álibi para a incompetência humana. Se queremos pacificar o país, comecemos por deixar os raios com a meteorologia e as leis com os homens. O resto é fúria, é ruído e, infelizmente, é dor desnecessária.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.