Patologias mentais: a fabricação do inimigo

O pensamento e os atos abjetos em curso nos apontam exatamente para a mesma lógica política obscena e paranoica do império norte-americano, cada qual com as suas peculiaridades

O pensamento e os atos abjetos em curso nos apontam exatamente para a mesma lógica política obscena e paranoica do império norte-americano, cada qual com as suas peculiaridades
O pensamento e os atos abjetos em curso nos apontam exatamente para a mesma lógica política obscena e paranoica do império norte-americano, cada qual com as suas peculiaridades (Foto: Cássio Vilela Prado)
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"Permitam-me uma palavra introdutória. Eu vivo em Nova Iorque – no coração do Império – há poucos anos, e, minha perspectiva nos Estados Unidos é a de um forasteiro ou um estrangeiro residente, como éramos chamados (e às vezes um estrangeiro um tanto atordoado). Estou muito mais familiarizado com a política europeia, e viso aprender mais sobre o contexto brasileiro, pois, apesar de saber que vocês têm tido alguns problemas particulares nos últimos meses, não tenho ideia se o enfoque que proponho aqui para se pensar o político teria alguma relevância para o Brasil. Mas é claro que espero que sim".
- Simon Critchley

Partindo do filósofo britânico, Simon Critchley, (1960 – 56 anos), docente na New School for Social Research, New York(USA) - influenciado pelo pensamento de Emmanuel Levinas e Jacques Derrida – eminentemente no seu artigo: O criptoschmittianismo1, tecerei abaixo algumas considerações acerca do momento político brasileiro, principalmente no que se refere ao processo de impeachment recentemente forjado pela oposição derrotada, objetivando tão somente a destituição da Presidente da República, Exma. Sra. Dilma Rousseff, eleita democraticamente em outubro de 2014 pelo voto popular – Partido dos Trabalhadores – reafirmando assim a preferência do povo, pela quarta vez consecutiva, pelo Projeto Político e Social desse partido e desse governo. Indiscutivelmente.

Não obstante, com a indesejável e insuportável (e importante que se diga) derrota consecutiva dessa "oposição ao Brasil", conforme comunicou na mídia o candidato concorrente, Aécio Neves, representante dessa oposição mencionada, o que se viu foi um fenômeno – que já estava em curso desde a era Lula, embora recrudescido nessa campanha eleitoral – de frustração, ódio, inveja e recusa concentrados na voz, nos gestos e nos atos do elemento citado.

O representante dessa "oposição ao Brasil", Sr. Aécio Neves, aliado aos seus comparsas, tomados pela ira, iniciaram imediatamente após a proclamação dos resultados do pleito um movimento antidemocrático doloso jamais visto na história do Brasil. Com o apoio da imensa maioria da mídia, eminentemente pela Rede Globo de Rádio e Televisão, associados a setores da elite capitalista (não toda), deflagraram um processo de massificação, incitando o povo brasileiro (e aí se inclui a classe média fantasiosa em adquirir somente para si os bens públicos e os bens de consumo mais o reino dos céus) contra a Presidente eleita, num massacre midiático vil, diário e permanente. Assim, iniciou-se a fabricação de um inimigo.

Conforme Critchley, os políticos e o povo em geral norte-americano "leram seus Maquiavel, seus Hobbes, seus Léo Strauss e leram mal seus Nietzsche (aqui no Brasil, muitos dos que leram, também assim o fizeram, inclusive os leitores de Engels e Hegel, digo eu). Eles compreenderam as mentiras mais ou menos nobres que precisam ser contadas para a segurança e a manutenção do poder político. Em suas mãos, algumas das palavras mais preciosas que temos – democracia, direitos, dignidade humana e, acima de tudo, liberdade – foram mudadas e degradadas para mentiras ignóbeis que são contadas no intuito de manter o poder político".

E continua Critchley, criticando e ironizando o modelo cowboy de fazer política, principalmente aquele inspirado em seus Carl Schmitt: "O político é uma esfera de atividade que está preocupada com a segurança externa e com a ordem interna de uma unidade política – o que usualmente chamamos de Estado, seja local, nacional ou imperialista. Além disso, o político é aquela atividade que assegura a ordem interna de uma unidade política, como Estado imperialista, através da ameaça mais ou menos fantástica de um inimigo. O político está a ponto de construir um inimigo para manter a unidade da cidadania. O que quer dizer que a unidade dos cidadãos, neste caso, americanos, é constituída através da relação com um inimigo." – Apenas um exemplo claro disso: Saddam Hussein (Iraque).

Portanto, essa mesma lógica paranoica americana de pensar e fazer política, importada pela "oposição ao Brasil", através de seu viés excludente e opressor fascista, foi utilizada para produzir um inimigo tupiniquim pelas vias antidemocráticas mencionadas mais acima, embora, no caso brasileiro, interior à própria nação, mas externo aos interesses espúrios de uma unidade política ("oposição ao Brasil") erigida sobre o solo do ódio, da inveja, da negação e da recusa ao Estado Democrático de Direito. O inimigo fabricado é apenas um, não há diferenças entre os termos que unificam um mesmo inimigo: Dilma, Lula e o PT. As três palavras se tornaram sinônimos perfeitos: inimigo. Pior ainda, o seu significado passou a evocar: terror.

Ainda com Critchley: "Senão pelo terror... o soberano (o político fascista, digo eu) possui a habilidade, a potência e a virilidade de moldar as vontades de todos. Essa é a essência da riqueza comum, do tão falado contrato social, que Rousseau chama no Segundo discurso de 'fraudulento contrato social'. A paz não é nada além da regulação da economia psicopolítica do terror e do medo reverencial, do uso da ameaça do terror no intuito de atar os cidadãos ao circuito de sua própria sujeição".
Face a isso, na mesma lógica crítica, é imprescindível a citação de Critchley:

"Deixe-me esclarecer o que estou dizendo: entender o político é entender que ordem e segurança (e os dois termos têm se tornado sistematicamente entrelaçados: ordem é segurança, segurança da fantasia da pátria, da fantasia do inimigo através do controle das condições do espetáculo) são mantidas através da oposição a um inimigo, um inimigo ao mesmo tempo real e fantástico, uma espécie de vaga imago que pode atacar o coração do lugar que você chama de lar a qualquer momento. O quer dizer que a política é essencialmente o gerenciamento do medo, uma economia do medo, continuamente ajustando o nível de medo para produzir o nível certo de afeto na população. Estou pensando aqui em economia do medo no sentido de Freud, como a regulação da distribuição correta de energia, de fluxo afetivo, no organismo psicopolítico. Parece-me que há uma necessidade desesperada nos dias de hoje do desenvolvimento de uma disciplina que poderíamos chamar de 'psicologia política' ou 'psicanálise política'.".

Dito isso, cumpre relembrar alguns aspetos levantados até aqui, quais sejam, diante das derrotas sucessivas, inadmissíveis e inassimiláveis nas urnas democráticas, desta vez, em 2014, o então candidato Aécio Neves reuniu em torno de si, através dos mecanismos já descritos e em nome de um falso moralismo, pois o seu maculado nome está presente em diversas denúncias faladas e escritas, assim como o da grande maioria de seus comparsas, trouxeram à tona aquilo que supostamente fora derrotado, porém latente nos afetos de seus adeptos: o ódio, a inveja (mecanismos bem infantis, se não trabalhados devidamente, comprometem as suas próprias personalidades e contaminam as mentes pouco reflexivas), a violência e a negação da realidade democrática instalada há pouco tempo, forjando um inimigo imaginário e real comum a eles.

Naquilo que Critchley chama de "psicologia política" ou "psicanálise política", importante trazer um pouco do pensamento do médico vienense, o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939) – coincidentemente exilado e morto em Londres em virtude da avalanche neofascista – em seu brilhante texto Psicologia das Massas e Análise do Eu.

Freud nos disse que a formação grupal ocorre entre aqueles que se reúnem libidinalmente em torno de uma ideia ou/e com um líder, através do compartilhamento comum de determinado ideal, liderados por um "chefe" que encarna esses traços. Embora escrevo de forma simplista, sem me adentrar nos mecanismos psíquicos envolvidos, pois extensos que são, a leitura realizada por Critchley faz alusão direta à Psicologia das Massas de Freud.

Muito claro nesse viés. Repetindo, sob a égide primeira de Aécio e seu grupo (que na verdade já estavam contaminados antes mesmo de sua derrota, talvez no "DNA mental" capitalista selvagem e moral aético) subjugaram os insatisfeitos e sanguinários comuns (e aí também não faltam Cunhas, Moros, etc.), aliciando-os definitivamente num movimento camuflado de impeachment constitucional, apesar de frágeis argumentos jurídicos já refutados. Ou seja, os ratos sempre estão à beira e à espreita da Lei. Não para cumprí-la, mas para se especializarem em suas formas e conteúdo, exatamente para burlá-los em suas brechas que dão margens à exegese e à hermenêutica subjetiva oportunista e perversa em prol de seus próprios umbigos.

Pode-se pensar de tudo, acerca dessa oposição derrotada nas urnas, menos que não sejam espertos e inteligentes, porém suprassumos da perversão. A Lei serve-lhes senão como instrumento legal para o seu próprio uso imoral, sobretudo, perverso.

Fazer um impeachment de uma Presidente legítima, honesta, sem nenhuma acusação sequer que lhe pese, é a derrota da ética, do Estado Democrático de Direito e da nossa jovem Democracia, conquistada com o sangue e a tortura de vários brasileiros e brasileiras, inclusive com o sangue e a dor da nossa digníssima Presidente Dilma.

Por fim, pode-se dizer que essa parcela significativa de brasileiros que embarcaram nessa canoa furada do Golpe de Estado deixaram-se levar pela parte obscura de si mesmos, pela perversão assustadora de moleques e pelo delírio paranoico de sua própria exclusão enquanto raça histórica e pátria brasileira.

Finalmente, concluo com uma frase de Critchley emprestada do genial cineasta francês Jean-Luc Godard, em seu filme Nossa Música: "matar um homem para defender uma ideia não é defender uma ideia, é matar um homem".

E eu digo, uma mulher.

Respondendo a Simon Critchley, à epígrafe: "...não tenho ideia se o enfoque que proponho aqui para se pensar o político teria alguma relevância para o Brasil. Mas é claro que espero que sim.":

- Sim, Critchley, é muito relevante!

O pensamento e os atos abjetos em curso nos apontam exatamente para a mesma lógica política obscena e paranoica do império norte-americano, cada qual com as suas peculiaridades.

Nota:

1 CRITCHLEY, Simon – Filosofia Contemporânea-Niilismo. Política. Estética. O cripto-schmittianismo, Editora PUC Rio, Edições Loyola, Rio e SP, 2008, p. 128.

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