Paulo Guedes e a decência

"A desfaçatez de Guedes é tão extrema que chegou a defender que não se aumente o imposto para quem tiver dinheiro lá fora e quiser trazer de volta. Já não se trata de estarmos lidando com uma postura legal ou ilegal, moral ou imoral. É acima de tudo uma questão de decência", escreve o jornalista Eric Nepomuceno

Com Bolsonaro, governo central tem 2º maior déficit para março
Com Bolsonaro, governo central tem 2º maior déficit para março (Foto: Alan Santos/PR)


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Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

Se até agora, na sua absoluta ineficácia e na mais completa dedicação a destruir o patrimônio público, Paulo Guedes era, ao menos neste aspecto, um retrato redondo do pior governo da história da República, a mais recente novidade envolvendo sua figura reforça essa imagem de maneira contundente: ele também não tem a mais remota ideia do que significa a palavra decência.

Outra estrela desse governo, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, forma, com Guedes, o par perfeito.

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Um é ministro da Economia. O outro preside o Banco Central, e, em tal condição, também o COPOM, o Comitê de Política Monetária, que entre outras funções tem a de determinar a taxa de juros básicos, a SELIC.

Os dois, como todo rico muito rico, tratam de escapar de instabilidade, prejuízos e, acima de tudo, impostos.  

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Por isso puseram dinheiro no famoso esquema offshore, ou seja, paraísos fiscais sem impostos e sem vigilância. Fazem companhia a ricos de todos os quilates, de estrelas como Shakira e Julio Iglesias a enganadores de otário como Eike Batista, pilantras como Luciano Hang e, claro, ditadores, bandidos e traficantes do que for.  

A legislação brasileira permite a qualquer um abrir uma offshore, desde que declare tudo direitinho. E tanto Guedes como Campos Neto fizeram isso. Portanto, dentro da lei.

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Mas só até aí. Porque a partir desse ponto, cometeram, além de ilegalidades, a mais pura indecência.  

A legislação brasileira é de uma limpidez cristalina: proíbe que membros do governo façam investimentos ou aplicações no exterior que possam ter benefícios a partir de políticas desse mesmo governo. Existe, além de lei específica, um Código de Conduta, que determina, com todas as letras, que a autoridade pública não pode manter investimentos enquanto tiver acesso a informações privilegiadas.

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Pois bem: o que dizer, então, quando a autoridade pública não só tem acesso a informações privilegiadas como pode interferir, ou pior, determinar diretamente políticas de governo?

Guedes e Campos Neto têm, é óbvio, vastíssima informação privilegiada. E além disso, podem determinar ou influenciar o valor do câmbio. E, portanto, do seu patrimônio.

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Cada vez que o COPOM, presidido por Campos Neto, altera a taxa de juros, interfere no câmbio.

Cada vez que Guedes adota determinada medida, interfere no câmbio.  

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A desfaçatez de Guedes é tão extrema que chegou a defender que não se aumente o imposto para quem tiver dinheiro lá fora e quiser trazer de volta.

Já não se trata de estarmos lidando com uma postura legal ou ilegal, moral ou imoral.  

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É acima de tudo uma questão de decência. Campos Neto é um ativo e bem sucedido agente do mercado financeiro. Guedes jamais passou de ser um bem sucedido especulador.

Os dois asseguram que, desde que entraram para o governo de Jair Messias, não mexeram em seus investimentos.

E precisavam? Bastou mexer no câmbio para aumentar seu valor em reais.

Se fossem decentes, teriam pedido demissão. Se Jair Messias tivesse alguma decência, teria catapultado os dois.

Mas como falar em decência num governo onde ninguém, absolutamente ninguém, vale coisa alguma?

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