Paulo Guedes é apenas a Zélia de Bolsonaro

"Guedes convenceu o entorno mais ingênuo do bolsonarismo de que é insubstituível, escreve Moisés Mendes, do Jornalistas pela Democracia, que completa: "não mexam com Guedes, é o grito de guerra do mercado"

Paulo Guedes
Paulo Guedes (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)
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Por Moisés Mendes, para o Jornalistas pela Democracia 

Paulo Guedes parece que é o que nunca foi e gostaria de ter sido. E nunca será o que imaginam que possa vir a ser. Mas sobreviveu à tentativa de drible de Braga Netto e emparedou os generais e Bolsonaro.

Guedes convenceu o entorno mais ingênuo do bolsonarismo de que é insubstituível, porque tem bons amigos do mercado e ainda não completou o serviço. Não mexam com Guedes, é o grito de guerra do mercado.

Mas Guedes nunca foi o que se esforça para que pensem que é. Era do terceiro time das gerações dos anos 80 e 90, que tentou, com algum brilho, aplicar no poder teorias que pediam a chance de serem testadas.

Guedes nunca testou nada. Não acompanhava o pique de um Lara Resende, um Edmar Bacha, Luiz Gonzaga Belluzzo, Pérsio Arida, Eduardo Modiano, João Sayad, alguns mais poetas do que economistas, mas todos atrevidos e inventivos.

Guedes, se tivesse prosperado naquela época como economista liberal com alguma capacidade de operação, poderia ser quem sabe no máximo um Gustavo Franco ou um Mailson da Nóbrega.

Ninguém encontra um texto relevante de Guedes publicado em jornal algum. Não há paper de Guedes. Não há uma entrevista com alguma ideia provocativa.

Mas Guedes está onde está. Deu um chega pra lá no Pró-Brasil dos generais com a autoridade de uma sumidade. E Guedes é tão insubstituível quanto a Damares, enquanto se vende como a pilastra do governo.

Espalharam que ele é a racionalidade liberal de Bolsonaro. Vendeu o pré-sal, vende o arrocho, venderá a Casa da Moeda e o que for possível, conduziu parte das reformas, ainda não entregou o ouro da capitalização da Previdência para os bancos, brecou o Pró-Brasil de Braga Netto e vai sobrevivendo.

Tudo o que ele fez qualquer economista liberal faria, com o suporte do mercado, da Fiesp, dos banqueiros, dos latifundiários, dos grileiros, dos fabricantes de armas, dos jagunços, das milícias e dos desmatadores da Amazônia.

Guedes não é um astro no que diz fazer, não é de exceção, não é diferente. É um tático esquemático, que às vezes surpreende, mas só porque aparece com os pés supostamente descalços.

Até os pés descalços de Guedes, o tarefeiro, apenas aparentam estar descalços, mas não estão.

A racionalidade de Guedes é parte de um governo que vai deixar morrer milhares de pessoas por não querer enfrentar a pandemia, que não sabe socorrer miseráveis, que não consegue ao menos organizar a fila dos sem-CPF.

Há no mercado, em bancos e salinhas de gestores de fortunas, figuras com a mesma capacidade de Guedes.

Se Bolsonaro demitir Guedes amanhã, o mercado vai murmurar, mas no dia seguinte, com um bom economista mediano, tudo volta ao normal, talvez até com mais entusiasmo liberal.

Mas quem? Um Armínio Fraga talvez não seja maluco o suficiente para aceitar a empreitada. Mas Alexandre Schwartsmann poderia topar.

Chamem pelos Guedes nas portarias de bancos, da FGV e da PUC do Rio e verão dezenas de outros Guedes descendo escadas e elevadores. Não há nada de excepcional em Guedes, nem a incapacidade de agir politicamente.

Dispensem Guedes e contratem um economista que não precise repetir as bobagens dos filhos de Bolsonaro, que não fale em AI-5, que não ofenda as domésticas. Tudo continuará do mesmo jeito.

Mandem Guedes embora e não acontecerá nada. Até o ajudante-de-ordens de Braga Netto sabe que Guedes é apenas a Zélia Cardoso de Mello de Bolsonaro.

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