Pautas identitárias: o sujeito agora é outro

O linguista Gustavo Conde comenta a polêmica em torno das pautas identitárias. Ele diz: "o discurso não independe de seu sujeito enunciador, em toda sua complexidade psíquica, histórica e simbólica". E acrescenta: "as pautas identitárias restituem esse sujeito ao enunciado, mas não mais o sujeito “ideal” das gramáticas. Para essas pautas e para o nosso tempo, o sujeito agora é outro (e deve ser outro)"

(Foto: George Campos)
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Certos intelectuais são tomados por um dogmatismo tão extravagante, que o discurso produzido por eles migra imediatamente, no conteúdo e na forma, para o rol dos corpora que compõem o campo dos estudos da linguagem.

Antonio Risério é este imenso ‘corpus científico’, prontinho para a autópsia crítica.

Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, erigido com a desenvoltura de um aristocrata, ele nos convida à diversão e ao entretenimento intelectual.

Por partes. Comecemos pelo regime de pressupostos.

Risério acha que o identitarismo é socialista, que fascismo também pode ser de esquerda, que ‘coletivos’ são a versão marxista de ‘milícias’ e que só o fascismo de direita - sic - é atacado pela ‘opinião pública’.

É um fenômeno.

O mais inusitado é que ele toma suas impressões extravagantes - furiosamente seletivas - de mundo como fatos dados e incontestáveis, derivando daí os argumentos mais delirantes que este pobre linguista já teve a (in)felicidade de ler.

Risério faz parte do que eu chamaria de ‘intelectuais bufões’. É um Reinaldo Azevedo piorado, um Paulo Francis com tosse, um Olavo de Carvalho com unha encravada.

Ele, Risério, consegue ser mais encantador - no sentido da ‘picaretagem encantadora’ - que todos esses três, pois o vitimismo agressivo de seu ethos, repleto de sutilezas, tende a conquistar a simpatia editorial de um mercado saturado por lixo explícito.

Uma sofisticaçãozinha sempre vende.

Eu me diverti. O poeta (ele é poeta e a poesia dele é excelente - o que prova que arte e crítica são dois universos distintos) cita um único episódio de um suposto gesto autoritário de identitaristas em Cachoeira do Paraguaçu (BA) (quando estes impediram o sociólogo Demétrio Magnoli de palestrar) como prova de que o segmento é fascista.

Notem seu rigor técnico: um evento isolado comprova como a pauta identitária é tão fascista quanto a extrema-direita.

Há padres com mais rigor científico que isso.

Mas, tudo bem. O mundo também é feito de intelectualistas.

Aliás, permitam-me mencionar o título do artigo de Antonio Risério: “Lugar de fala é instrumento para fascismo identitário”.

Titulaço. Periga o Abraham Weintraub citá-lo em seu próximo discurso de criminalização à cultura (te cuida, Risério!).

O bardo também cita Stálin e Fidel Castro como genocidas para ‘sofisticar’ ainda mais seu argumento crítico às pautas identitárias. É aquela história: quando alguém cita Stálin, pode esquecer. É a assinatura em relevo de quem cresceu lendo Seleções de Reader’s Digest.

O que mais impressiona-encanta no texto de Risério, no entanto, é seu estilo. Digressivo, improvisado, pedante (cita os ‘famosos’ intelectuais Destutt de Tracy, Reinhard Bendix e Karl Abraham), iconoclasta e estridente. É muito parecido com Reinaldo Azevedo, caso de plágio, eu diria.

Tudo isso para concluir que o identitarismo simboliza o retorno às características físicas do indivíduo como fiança para o acesso ao discurso: a mulher, o negro, o índio, o gay. E se você não for um desses quatro, estará fadado à interdição.

Damares Alves não redigiria um enredo melhor.

Sem meias palavras: é muita boçalidade argumentativa para uma voz que se pretende crítica. É a estrutura argumentativa dos Hélios Negões, dos Fernandos Holidays, dos Abrahans Weintraubs e dos Sérgios Camargos (aquele que quase foi presidente da Fundação Palmares).

Aliás, Risério lembra, com toda a pompa de pesquisador que não deu certo: os negros africanos venderam os próprios negros africanos na moenda econômica escravocrata dos século 19.

É essa a matriz persuasiva de um poeta crítico que traduziu a poesia iorubá Oriki Orixá? Simplificar a questão desse jeito e com esse nível de ‘julgamento’ - ‘julgamento’ este que ele, aliás, projeta aos identitaristas?

Pobre Risério, não entendeu o conceito de ‘lugar de fala’ - pouca gente entende, é verdade. Ele resolveu facilitar e embarcar na demonização de um fenômeno social espontâneo que ganha densidade e modifica concretamente as relações de poder.

Não entendeu que o discurso do “somos todos iguais” - ao qual se opõe as pautas identitárias - é a engrenagem cínica da desigualdade econômica, simbólica e social que vemos aprofundar sob um governo - para citar um exemplo - que encarna exatamente todas as ideias postas em seu artigo.

É a mesma estrutura argumentativa que demoniza as cotas raciais, que demoniza o bolsa-família, que demoniza a universidade pública.

O fenômeno do embate público na produção e distribuição do discurso é muito mais complexo que essa visão romântica e simplista proposta por Risério. Para ser didático, poderia dizer: o discurso não independe de seu sujeito enunciador, na inteireza de toda sua complexidade psíquica, histórica e simbólica.

As pautas identitárias restituem esse sujeito ao enunciado, mas não mais o sujeito “ideal” das gramáticas vagabundas e, estas sim, totalitárias. Para essas pautas e para o nosso tempo, o sujeito agora é outro (e deve ser outro).

Como todo conservador que se nega a aceitar algo conceitualmente novo no horizonte, Antonio Risério combate, distorce e fulaniza as pautas identitárias, expondo-se ao risível da absoluta ausência de rigor associada ao vitimismo egocêntrico da iconoclastia de vitrine.

Faça-se a crítica ao identitarismo - que, como todo fenômeno social humano tem suas armadilhas -, mas faça-se uma crítica que possa ser levada a sério.

A percepção de totalitarismo enunciativo embutida no bojo das pautas identitárias, por exemplo, pode ser abertamente enfrentada, sem essa ginástica ressentida impregnada de frustração e o eterno fetiche de trolar a esquerda.

O tema é importante demais para ser tratado com tamanha truculência semântica.

Olavo de Carvalho que se cuide. Ele pode ser destronado de seu posto de guru com essas novas promessas no campo da autoria crítica.

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