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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Payroll forte, revisão fraca: mercado ignora número cheio e mantém aposta em corte de juros nos EUA

"O destaque de hoje é a divulgação do payroll nos Estados Unidos"

Payroll forte, revisão fraca: mercado ignora número cheio e mantém aposta em corte de juros nos EUA (Foto: Paulo Emílio)

O destaque de hoje é a divulgação do payroll nos Estados Unidos. Foram criadas 130 mil vagas em janeiro, bem acima da expectativa do mercado, que era de 65 mil. A taxa de desemprego caiu de 4,4% para 4,3%. À primeira vista, portanto, trata-se de um dado positivo para o mercado de trabalho americano.

No entanto, a leitura não é tão simples. Ao longo da semana, já havíamos visto o relatório JOLTS mostrar enfraquecimento, com a relação entre vagas abertas e desempregados caindo para algo próximo de 0,9 — abaixo do nível de uma vaga por desempregado que marcou o auge do aperto no mercado de trabalho. Isso indicava uma acomodação relevante.

Além disso, junto com o dado de hoje veio a revisão anual (benchmark revision) do payroll. Essa revisão é feita porque há duas metodologias de mensuração do emprego: a pesquisa com empresas (establishment survey) e a pesquisa domiciliar (household survey), além das estimativas de criação de vagas associadas à abertura de novas empresas — um componente mais impreciso, que ganhou maior distorção no pós-pandemia.

Na revisão divulgada hoje, constatou-se que 862 mil vagas estimadas como criadas nos últimos 12 meses, na verdade, não existiram. No ano passado, a revisão já havia eliminado cerca de 800 mil vagas. Somando os dois anos, estamos falando de mais de 1,5 milhão de empregos superestimados nas leituras preliminares. Isso evidencia um ruído estatístico relevante no dado mensal, que muitas vezes é tratado como fotografia precisa, mas está sujeito a revisões significativas.

Portanto, o número forte de janeiro (130 mil vagas) vem acompanhado de um ajuste negativo expressivo no estoque anterior. É, como se diz, “uma no cravo e outra na ferradura”. O mercado entendeu dessa forma. O dólar (DXY) chegou a subir levemente, mas permanece em torno de 96 pontos — próximo das mínimas desde 2022. Para lembrar, no rali pós-eleição americana o índice havia ido a 110; desde então, houve uma desvalorização de cerca de 15% frente às moedas fortes. O real também se apreciou significativamente, saindo de níveis próximos a R$ 6,30 para a faixa de R$ 5,15–5,10.

As Treasuries de 10 anos subiram marginalmente, de 4,13% para algo próximo de 4,20%, mas seguem relativamente estáveis. O mercado continua dividido entre cortes de juros em junho ou julho. A leitura predominante é de que o Fed pode encerrar o ano com juros próximos a 3%.

Em resumo, o payroll forte de janeiro não altera de maneira estrutural o cenário. A tendência ainda é de desaceleração gradual da economia americana e início do ciclo de cortes no meio do ano. Para o Brasil e demais emergentes, isso mantém um ambiente favorável: bolsa mais forte, juros longos em queda e câmbio apreciado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.