Penoso regresso

"Se o Grão-Mestre confere um título a si mesmo, está como aqueles ditadores dos romances hispano-americanos, que, não havendo quem os louve, louvam-se a si mesmos. Um passo à vista, se a loucura continuar, será um coroamento capaz de transformá-lo num Napoleão de quarta ou quinta edição, sem séquito e sem prestígio, pois este se evaporou"

www.brasil247.com - Jair Bolsonaro e Torre de Pisa
Jair Bolsonaro e Torre de Pisa (Foto: Reprodução)


Talvez para compensar o fiasco de sua viagem à Itália, onde deveria ter figurado entre os importantes dirigentes do G20, em seu penoso regresso, o Presidente Bolsonaro achou por bem conceder a si mesmo o título de Grão-Mestre do Mérito Científico. Havia uma lista de pessoas que se qualificariam para a homenagem, enquanto se excluíam outras. Houve protestos. Ao fim, os agraciados devolveram a honraria. Ele, Bolsonaro, aproveitara a Itália para fazer turismo. Não parecia muito disposto a sentar e trabalhar junto a dirigentes que, de fato, não o identificavam como digno de destaque. Assim, ao lado de sua comitiva e de um filho, aqui e ali, absorvendo a beleza da arquitetura de Roma, distraiu-se tanto que não conseguiu memorizar a grandeza de monumentos históricos, como a Torre de Pisa, que designou à imprensa como Torre de Pizza, ao mesmo tempo que confundia John Kerry com o comediante Jim Carey. Temos de rememorar, nesse particular, a esperteza de Garricha. Na Suécia, não conseguindo guardar os apelidos complicados, usava o expediente de chamar a todos por João. Mesmo assim, cabe reconhecer, na Itália, houve intervalos de tensões. Tirando um choque e outro com manifestantes e jornalistas (um deles levou um soco no estômago), é possível que o Presidente tenha descansado. O Haiti, que nos perdoe Caetano, não estava lá. O Haiti é aqui.

No filme Amargo regresso, de Hal Ashby, filmado em 1978, com Jane Fonda e Jon Voight, conta-se a história de um personagem que se ausenta, porque vai para o Vietnã. Na volta, se depara com uma situação amarga. A mulher, dedicando-se à assistência a veteranos, envolvera-se com um deles. Era a ruína dentro da ruína. Sem forçar demasiado, a comparação cai como uma luva. Estamos há algum tempo presos a impasses que resvalam para desastres cada vez mais acentuados, sem que nada nos indique, na linha do horizonte, que a administração, por talento, possa reverter os problemas e nos devolver a esperança. Se a houvessem construída aqui, a Torre de Pizza (!?) teria desabado e matado um número de vítimas, enquanto, de braços cruzados, um grupo de autoridades se divertiriam com a cena. Ao nosso Grão-Mestre do Mérito Científico faltam as qualidades de cultura e de conhecimento para a posição que ocupa. Ainda por cima, costuma privilegiar seu círculo de assessores por motivos ideológicos, o que, é óbvio, num país das dimensões do Brasil, não pode funcionar. E é uma estratégia injusta, porque, afinal, nas eleições, escolhemos gente que deve governar para todos. A ideia nos leva a perder excelentes quadros que, assim, ficam de fora da administração e não as enriquece.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Seja como for, a esta altura, já não nos é possível guardar ilusões. Se o Grão-Mestre confere um título a si mesmo, está como aqueles ditadores dos romances hispano-americanos, que, não havendo quem os louve, louvam-se a si mesmos. Um passo à vista, se a loucura continuar, será um coroamento capaz de transformá-lo num Napoleão de quarta ou quinta edição, sem séquito e sem prestígio, pois este se evaporou. Paralelamente, a ruína chega às raias do delírio, com o povo passando fome e lutando para dividir um caminhão de ossos, sob uma inflação cada vez maior e um ministro da economia em estado de paralisia. Dizem que o Grão-Mestre, de vez em quando, chora no banheiro. Pois que chore. A ele e a todos nós, motivos não faltam.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email