Perguntas que não querem calar para além do “E daí”

Desde os tempos "imemoriais" em que ocupou pela primeira vez as cadeiras do parlamento, Bolsonaro nunca escondeu quem é. Nunca usou disfarces

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

O que faz com que repórteres das mídias corporativas (pessoas supostamente comuns, como eu e você), mesmo que suas agências estejam agora eventualmente em oposição política ao despresidente, ainda consigam normalizar grande parte dos atos escancaradamente psicopatas e criminosos de Bolsonaro? 

Por que essa tolerância extrema? Porque só agora se perguntam - surpresos, espantados? - como o despresidente é capaz de tantos atos e palavras sórdidos, quando este sempre demonstrou, abertamente, ao longo dos trinta anos de vida pública, sua índole doentia e perversa? Porque essa tolerância insana, de uma sociedade inteira, diante dos atos desse arauto da morte e da indiferença humana, que projeta para todos nós uma   sociedade voraz, morbidamente preconceituosa e hostil? Porque essa sociedade, esse país, não se deixa/ deixou tocar pela crueza dos fatos expostos à luz do dia, sem constrangimento algum, que desde sempre (e também durante a campanha presidencial) desnudavam sem subterfúgios o nível de psicopatia do sujeito que queria ocupar a cadeira presidencial? 

Desde os tempos "imemoriais" em que ocupou pela primeira vez as cadeiras do parlamento, Bolsonaro nunca escondeu quem é. Nunca usou disfarces; sempre foi ostensivo. Falava de morte, tortura, racismo e misoginia com a gelidez de quem banaliza o mal.   É, então, uma cegueira deliberada, uma insistência em não ver o óbvio que impede essa sociedade adoecida de perceber - e reagir! – ao avanço acelerado, inconteste, do país   em direção ao abismo do autoritarismo fascista?

Qualquer leitura sobre o surgimento dos governos historicamente alcunhados como "fascistas" (Mussolini, na Itália; Franco, na Espanha; Salazar em Portugal, entre outros) nos faz perceber como esses fenômenos e esses processos apresentam características muito semelhantes, tão assombrosamente similares que, em dado momento, nos perguntamos: de quem mesmo estamos falando?

Não vou desenvolver nesse artigo aspectos relacionados à aliança econômica entre o governo fascista e o establishment - do qual a mídia corporativa é parte essencial, constituindo uma espécie de pacto sádico e suicida. Mas vale ilustrar muito brevemente algumas outras semelhanças entre o atual governo brasileiro e  conceitos mais básicos de fascismo.  Pode-se qualificar esse regime autoritário como uma amálgama de sentimentos de revolta com ideias e valores reacionários (Reich}, cujas principais características poderiam ser listadas como:  o anticomunismo; a antipolítica; o nacionalismo; o antiintelectualismo e a misoginia. Como se não bastasse isso, ainda podemos acrescentar a permanente utilização de estratégias para mobilização dos apoiadores, dentre as quais a criação do ‘’inimigo’’ é um excelente exemplo, de forma a garantir um processo de militarização e eclosão de violência social constate. 

Há vários outros fatores e características que convergem para o nosso cenário atual, alguns deles relacionados ao papel da esquerda no contexto imediatamente anterior à eclosão do regime fascista, mas esse tema pode ser explorado em outra ocasião. Há, entretanto, um elemento que desejo ressaltar. Trata-se do que alguns autores definem como o ‘’paradoxo do fascismo”: se, de um lado, os regimes fascistas se constituem atacando as instituições do estado democrático liberal; de outro, são essas mesmas instituições ‘democráticas’ que estabelecem vínculos de cumplicidade com o novo governo, garantindo-lhe a legitimidade de existência.

Assim, aqueles que ainda acham que as instituições do país são fortes o suficiente para conter essa fúria doentia e autoritária, que coloquem suas barbas de molho. Há uma grande batalha pela frente e - a história está aí para nos mostrar -  não é certo ainda como e quem sairá vencedor.

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247