Pesquisa Quaest: duas eleições

"É como se houvesse duas pautas opostas em disputa: um diálogo de surdos entre dois países que não conversam", avalia

www.brasil247.com - Lula e Jair Bolsonaro
Lula e Jair Bolsonaro (Foto: Ricardo Stuckert | ABr)


Por Rodrigo Vianna

A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (11/05) mostra forte estabilidade na corrida presidencial, especialmente nos índices obtidos pelo ex-presidente Lula. O petista tem 46% dos votos, contra 31% de Bolsonaro e 13% dos outros (Ciro/Doria etc). São índices praticamente idênticos aos de abril, e que deixam em aberto a possibilidade de uma vitória de Lula no primeiro turno. 

Mas, quando olhamos para os detalhes, trata-se de uma estabilidade com ventos levemente favoráveis ao capetão. Em novembro de 2021, Bolsonaro tinha 21%. Subiu 10 pontos em seis meses, o que se explica principalmente pela retirada da candidatura Moro.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ao mesmo tempo, a rejeição ao governo Bolsonaro recuou 10 pontos. O governo era ruim/péssimo para 56% dos entrevistados, em novembro. Hoje, são 46%. A explicação, dirão alguns, está no Auxílio Brasil. Não. A redução na rejeição foi até maior entre quem não recebe o auxílio. Bolsonaro se recupera mais fortemente entre quem ganha acima de 5 salários mínimos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Parece haver uma (leve) sensação de melhora na economia, explicada pela reabertura pós vacinação - o que favorece o discurso mentiroso bolsonarista de que "fechar a economia foi um erro".

Bolsonaro também retoma apoios entre evangélicos e moradores do Centro Oeste (onde o peso do agronegócio é decisivo).

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Podemos dizer, então,que a melhora relativa na avaliação do governo deve-se a um misto de discurso moral e sensação difusa de que o pior já passou.

São ventos favoráveis, mas insuficientes hoje para uma reversão do quadro eleitoral. Lula segue em primeiro lugar nas duas regiões mais populosas do país (Sudeste e Nordeste), e lidera com empate técnico no Norte e (surpreendentemente) no Sul. O petista também tem a forte preferência de mulheres, católicos e dos mais pobres.

Segue possível uma vitória lulista em primeiro turno, especialmente nos cenários em que Ciro sai da disputa. Hoje, isso decidiria a eleição. Sem o pedetista, Lula ganha 4 pontos na disputa.

Até agora os movimentos de Bolsonaro serviram para consolidar votos nos setores que já estão com ele: homens, evangélicos, agro. Isso garante a ele um piso de 30%. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O que Bolsonaro vai fazer a partir de agora é a "Operação Rejeição". Ele precisa encontrar uma forma de aumentar a rejeição de Lula enquanto reduz aos poucos a dele. Para isso, não adianta só falar de "corrupção/Lula ladrão". Para ganhar voto novo, o capetão precisa de um bombardeio moral. Felipe Nunes da Quaest deixa claro o que poderia mover votos de Lula para Bolsonaro: a questão religiosa, do aborto etc.

É como se houvesse duas eleições, com duas pautas diferentes:
- numa, o debate é sobre economia/emprego/esperança;

- noutra, o debate é sobre religião/aborto/"valores"/medo de fechamento de igrejas e do PT abortista.

A economia, diz a Quaest, é o tema central da eleição para a maioria. Bolsonaro, portanto, precisaria mudar a pauta. Nesse ponto, o vídeo recente da campanha de Lula, com a Oração de São Francisco, foi muito importante. Impede que o terror religioso bolsonarista avance para além de sua bolha. Foi um movimento defensivo de longo alcance.

Lula aposta na esperança. Bolsonaro joga com o medo. A ideia de golpe, violência nas ruas, militares: tudo isso ajuda a compor um quadro de caos e insegurança que é a chance de Bolsonaro virar o jogo. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Bolsonaro tentará a quadratura do círculo: um candidato governista que fala como se fosse "oposição ao sistema". Tentará vender a ideia de que "está ruim comigo, mas pode ficar ainda pior com o petismo abortista".

Minha impressão: nada disso será suficiente, porque do outro lado há a lembrança dos tempos bons de Lula. Mas vai ser uma batalha suja e triste. E, ao mesmo tempo, uma conversa de surdos entre dois países que não dialogam entre si.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email