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Benedito Tadeu César

Cientista político

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Pesquisa Real Time Big Data revela desgaste de Flávio Bolsonaro e ascensão de alternativas da direita para 2026

O problema mais sério para o presidente talvez não seja enfrentar um bolsonarismo desgastado, mas uma direita reorganizada

Flávio Bolsonaro (Foto: Saulo Cruz/Agência Senado)
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A nova pesquisa Real Time Big Data sobre a sucessão presidencial de 2026 traz um dado que vai além da liderança de Lula. Os números sugerem que parte importante do eleitorado conservador e do centro antilulista começa a procurar alternativas ao bolsonarismo familiar, movimento que beneficia especialmente os governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

No primeiro turno, Lula aparece com 38% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro registra 31%. Caiado e Renan Santos alcançam 6% cada um, enquanto Zema soma 4%. Em um primeiro olhar, a distância entre Lula e Flávio parece consolidar a polarização que marcou as últimas eleições. Uma análise mais cuidadosa, porém, revela um fenômeno diferente.

Nos cenários de segundo turno, Lula derrota Flávio Bolsonaro por 45% a 40%. Contra Caiado, o resultado é um empate de 43% a 43%. Diante de Zema, Lula registra 43% contra 40% do governador mineiro, situação de empate técnico dentro da margem de erro.

Os números indicam que Caiado e Zema apresentam potencial eleitoral superior ao de Flávio em uma disputa direta contra o atual presidente. Isso não significa que estejam próximos de chegar ao segundo turno, mas demonstra que setores da direita e do centro antilulista parecem enxergar nesses nomes uma alternativa mais competitiva.

Caiado e Zema avançam enquanto Flávio perde força

A pesquisa foi divulgada após semanas de forte repercussão do caso envolvendo o empresário Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse, concebido para promover a imagem política da família Bolsonaro.

É evidente que pesquisas eleitorais não permitem estabelecer relações automáticas de causa e efeito. Ainda assim, a coincidência temporal entre o escândalo e a perda de competitividade de Flávio chama atenção.

Nas últimas semanas, o senador buscou reposicionar sua imagem por meio da pauta da segurança pública. O principal episódio foi a repercussão da decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.

O tema foi explorado politicamente pelo bolsonarismo como demonstração de firmeza no combate ao crime organizado. Entretanto, os números sugerem que essa ofensiva não produziu o efeito esperado.

Se houve algum ganho político decorrente do episódio, ele não foi suficiente para neutralizar o desgaste provocado pelas revelações envolvendo Vorcaro e os bastidores do projeto cinematográfico. Pelo contrário. A pesquisa indica que parte do eleitorado que tradicionalmente se posiciona à direita parece estar migrando para alternativas menos associadas ao núcleo familiar bolsonarista.

O caso Dark Horse e os limites da reação bolsonarista

O problema político enfrentado por Flávio não está restrito ao conteúdo das denúncias. O impacto decorre principalmente da combinação de elementos que se formou no imaginário público.

O caso reúne um filme de caráter político, um empresário envolvido em controvérsias financeiras e suspeitas que passaram a atrair a atenção dos órgãos de investigação. Em política, muitas vezes a percepção pública produz efeitos antes mesmo da conclusão dos processos judiciais.

Esse tipo de desgaste costuma atingir especialmente eleitores moderados. O núcleo ideológico bolsonarista tende a permanecer fiel, mas segmentos mais pragmáticos da direita e do centro frequentemente reagem de forma diferente quando surgem suspeitas de favorecimento, privilégios ou utilização indevida de recursos públicos.

Aparentemente, é exatamente esse eleitorado que começa a observar com mais atenção nomes como Caiado e Zema.

A investigação em São Paulo pode ampliar o desgaste

O cenário pode se tornar ainda mais delicado para Flávio Bolsonaro.

A Polícia Civil de São Paulo investiga contratos firmados pela Prefeitura paulistana com o Instituto Conhecer Brasil, organização ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora responsável pelo filme Dark Horse. As apurações envolvem suspeitas de irregularidades em contrato milionário destinado à instalação de pontos de acesso à internet em comunidades da capital.

Até o momento, não existe acusação formal contra Flávio Bolsonaro no âmbito dessa investigação. Tampouco há conclusões definitivas das autoridades responsáveis.

Politicamente, porém, o problema é outro. Caso novas revelações surjam e os indícios hoje investigados se fortaleçam, o desgaste poderá aumentar significativamente. Em disputas eleitorais, a sucessão de fatos negativos costuma produzir impacto maior do que qualquer episódio isolado.

Nesse contexto, a pesquisa Real Time Big Data pode representar não apenas uma fotografia momentânea, mas o início de uma tendência que ainda está em formação.

O principal obstáculo para Caiado e Zema continua sendo o mesmo: o bolsonarismo raiz permanece majoritariamente identificado com a família Bolsonaro. Para que qualquer um dos dois alcance o segundo turno, seria necessário um deslocamento relevante desse eleitorado.

Hoje, esse movimento ainda não aparece de forma consistente. Mas a continuidade ou ampliação dos escândalos pode alterar esse quadro ao longo dos próximos meses.

O dilema estratégico de Lula diante da crise de Flávio

A eventual deterioração da candidatura de Flávio Bolsonaro cria uma situação paradoxal para a estratégia eleitoral do presidente Lula.

Uma candidatura fragilizada do senador favorece o atual presidente em um eventual segundo turno. Os números da pesquisa mostram isso de maneira clara.

Entretanto, uma derrocada completa do herdeiro político do bolsonarismo pode produzir um efeito menos confortável para o campo governista. O espaço deixado por Flávio dificilmente permaneceria vazio.

Caiado e Zema surgem como candidatos capazes de reunir parcelas da direita tradicional, do agronegócio, do empresariado e de setores moderados do eleitorado conservador. Ambos carregam índices de rejeição menores e apresentam maior capacidade de diálogo com o centro político.

Por essa razão, o enfraquecimento de Flávio não representa necessariamente uma vantagem estratégica integral para Lula. Dependendo da intensidade da crise, o resultado pode ser a emergência de um adversário mais competitivo no segundo turno.

A pesquisa Real Time Big Data sugere exatamente essa possibilidade. O problema mais sério para o presidente talvez não seja enfrentar um bolsonarismo desgastado, mas uma direita reorganizada em torno de lideranças capazes de ampliar sua base eleitoral para além do núcleo ideológico da extrema direita.

A disputa de 2026 ainda está distante. Mas os sinais emitidos pela pesquisa indicam que o principal movimento político do momento ocorre dentro da própria direita brasileira. E é desse processo que poderá surgir o adversário mais perigoso para Lula na próxima eleição presidencial.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.