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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Pesquisas mostram que o golpe ainda respira

A pesquisa Atlas mostra que a condenação de Jair Bolsonaro não destruiu a extrema direita

Atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023 (Foto: Joedson Alves/Agencia Brasil)

Há pesquisas que medem intenção de voto. E há pesquisas que medem o estado de uma democracia. A Atlas/Bloomberg divulgada nesta terça-feira, 28 de abril, pertence ao segundo grupo. No cenário em que os candidatos de 2022 são novamente apresentados ao eleitor, Lula aparece com 45,2% e Jair Bolsonaro com 45,0%

A diferença é irrelevante do ponto de vista estatístico. Mas é devastadora do ponto de vista político. A pergunta feita ao eleitor era simples: “se as eleições presidenciais fossem acontecer no próximo domingo e se os candidatos fossem os mesmos de 2022, inclusive Lula e Bolsonaro, em quem você votaria?” 

A resposta é um retrato brutal do Brasil de 2026. Mesmo condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro continua aparecendo no mesmo patamar eleitoral do presidente que o derrotou nas urnas em 2022 e tomou posse em 1º de janeiro de 2023. 

O dado é estarrecedor. Mas não é inexplicável. Ele mostra que a democracia brasileira venceu juridicamente o golpe, mas ainda não derrotou socialmente a mentalidade golpista. 

“Realidade estarrecedora” 

Não por acaso, a repercussão foi imediata. Em análise publicada pela TV Fórum no próprio dia da divulgação da pesquisa, Antonio Mello definiu o resultado da Atlas/Bloomberg como a revelação de uma “realidade estarrecedora” sobre a política brasileira. A expressão é precisa. 

O estarrecedor não está apenas no empate técnico entre Lula e Jair Bolsonaro em um cenário hipotético de repetição de 2022. Está no fato de que, mesmo condenado, inelegível e identificado juridicamente como líder de uma trama golpista, Bolsonaro continua funcionando como referência eleitoral para quase metade do país. 

A pesquisa não mede apenas nostalgia eleitoral. Mede a profundidade da intoxicação política produzida pela extrema direita. Mostra que a condenação judicial do golpismo não foi suficiente para dissolver sua base social. Ao contrário: em parte dela, a sentença foi convertida em prova de perseguição, combustível de martírio e instrumento de mobilização. 

A condenação virou combustível 

Em uma democracia menos intoxicada, a condenação de um ex-presidente por crimes ligados à tentativa de ruptura institucional deveria significar o encerramento de sua viabilidade política. No Brasil de 2026, porém, a sentença não eliminou Bolsonaro do imaginário de seus seguidores. Produziu, em parte da base radicalizada, o efeito inverso. 

Bolsonaro deixou de ser apenas o ex-presidente derrotado. Passou a ocupar o lugar de mártir. A extrema direita aprendeu, com Donald Trump, a converter derrota em fraude, investigação em perseguição, condenação em prova de grandeza e prisão em certificado de autenticidade política. 

A justiça deixa de ser justiça. Vira “sistema”. A sentença deixa de ser sentença. Vira “vingança”. O crime deixa de ser crime. Vira “narrativa”. É assim que um condenado por atentar contra a democracia ainda aparece empatado com o presidente que derrotou o golpe nas urnas. 

Bolsonaro não sobrevive eleitoralmente apesar da condenação. Sobrevive, em parte de sua base, também por causa dela. Esse é o mecanismo central da política extremista contemporânea. O líder não perde força quando é acusado, julgado ou condenado. Ele tenta transformar cada etapa da responsabilização institucional em espetáculo de perseguição. 

Não responde aos fatos. Substitui os fatos por uma mitologia. Foi assim com Trump. É assim com Bolsonaro. O resultado está na pesquisa: o golpe perdeu no Supremo, mas ainda respira na sociedade. 

O pai como mito, o filho como instrumento 

Mas há outro dado, ainda mais importante para 2026. Bolsonaro pai está condenado, inelegível e preso. Bolsonaro filho aparece como a tradução eleitoral possível desse mesmo campo político. Na véspera da Atlas, a pesquisa BTG/Nexus já havia mostrado Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em eventual segundo turno: 46% para Lula e 45% para Flávio

A diferença era pequena, dentro da margem de erro. Mas o sinal político era claro: Flávio deixava de ser apenas herdeiro simbólico do bolsonarismo para se apresentar como adversário real de Lula numa disputa presidencial. 

No dia seguinte, a Atlas/Bloomberg reforçou o alerta: Lula e Flávio aparecem novamente em empate técnico, agora com Flávio numericamente à frente por apenas 0,3 ponto percentual — 47,8% a 47,5%, diferença dentro da margem de erro. A diferença não autoriza triunfalismo de nenhum lado. Mas confirma uma tendência essencial: a transferência do capital político de Jair Bolsonaro para Flávio Bolsonaro está em curso. 

O pai permanece como mito de mobilização. O filho surge como instrumento eleitoral. Jair Bolsonaro concentra o ressentimento, a narrativa de perseguição, o ódio ao sistema, a recusa da derrota, a memória do golpe e a promessa de revanche. 

Flávio Bolsonaro oferece a embalagem eleitoral: menos tosco no tom, mais palatável para setores do mercado, mais aceitável para elites que têm horror a Lula, mas também receio do bolsonarismo original em estado bruto. É a mesma mercadoria política em embalagem nova. 

Essa é a diferença fundamental. Jair Bolsonaro representa a ruptura aberta, o confronto frontal com o resultado das urnas, a recusa da alternância democrática e a tentativa de permanecer no poder apesar da derrota. 

Flávio Bolsonaro tenta oferecer uma versão administrável desse patrimônio político: o sobrenome, a base radicalizada, a guerra cultural, a aproximação com o trumpismo e a promessa de restauração do bolsonarismo no comando do Estado. 

Não é uma candidatura autônoma. É uma candidatura de sucessão dinástica. Mais do que isso: é uma candidatura de restauração. 

A filial brasileira do trumpismo 

Como publicamos recentemente no Brasil 247, a disputa que se desenha não é simplesmente entre Lula e Flávio Bolsonaro. É entre Lula e a filial brasileira do trumpismo. 

Lula representa, com todas as contradições de uma frente ampla, a preservação do pacto democrático, a defesa da soberania nacional, a reconstrução social e a negociação política como método de governo. 

Flávio Bolsonaro representa a sucessão dinástica de um projeto derrotado nas urnas, condenado no Supremo e ainda vivo nas redes, nos púlpitos, nos quartéis nostálgicos, nos grupos de WhatsApp, no mercado mais predatório e nas conexões internacionais da extrema direita. 

A candidatura de Flávio tem uma função objetiva: preservar o pai como símbolo e oferecer ao sistema político uma candidatura formalmente viável para carregar o mesmo conteúdo histórico. 

Bolsonaro pai é o mártir. Bolsonaro filho é o operador. Trump é o espelho externo. Lula é o obstáculo histórico. Essa é a fórmula. 

Por isso, a aproximação entre Lula e Flávio nas pesquisas não pode ser lida como uma disputa eleitoral convencional. Ela indica que o bolsonarismo encontrou uma forma de sobreviver à condenação do chefe: transformar a punição judicial em combustível político e a herança familiar em projeto presidencial. A extrema direita não está apenas procurando um candidato. 

Está tentando preservar uma linhagem de poder. 

O Brasil não esqueceu o golpe — parte dele o incorporou 

O dado mais duro da Atlas não é apenas Bolsonaro aparecer empatado com Lula. É o que esse empate revela. O Brasil não esqueceu o golpe. Uma parte do país o incorporou como identidade política. 

Para milhões de eleitores, o 8 de janeiro não foi um ataque à democracia. Foi tratado como revolta legítima. A trama golpista não foi vista como crime. Foi reinterpretada como resistência. A condenação de Bolsonaro não foi absorvida como responsabilização institucional. Foi convertida em prova de perseguição. 

A extrema direita não disputa apenas votos. Disputa a interpretação da realidade. Se Lula venceu em 2022, dizem que foi fraude. Se Bolsonaro tentou permanecer no poder, dizem que foi vítima. Se o Supremo condena, dizem que há ditadura. Se Flávio herda o espólio político do pai, dizem que é renovação. 

A mentira deixou de ser instrumento ocasional. Virou sistema de crença. O bolsonarismo sobrevive porque não depende apenas de Bolsonaro. Ele se tornou um ecossistema: redes digitais, canais de desinformação, lideranças religiosas, ressentimento antipolítico, nostalgia militar, ódio ao PT, medo social, interesses econômicos e submissão ideológica ao trumpismo. 

É essa engrenagem que mantém vivo um projeto derrotado nas urnas, desmoralizado pelos fatos e condenado pela Justiça. 

A elite diante do impasse 

Há também uma contradição essencial no comportamento das elites brasileiras. Elas não querem a volta do bolsonarismo tosco em sua forma mais descontrolada. Mas também não querem Lula. 

Rejeitam a desordem explícita, mas temem qualquer projeto de distribuição de renda, fortalecimento do Estado, soberania nacional e recomposição de direitos. Dizem temer o autoritarismo, mas frequentemente se mostram mais incomodadas com políticas sociais do que com ameaças à democracia. É nesse intervalo que Flávio Bolsonaro tenta crescer. 

Ele oferece ao mercado e a setores conservadores uma promessa sedutora: manter o conteúdo essencial do bolsonarismo, mas reduzir o ruído; preservar a agenda de submissão internacional, guerra cultural, ataque às instituições e concentração econômica, mas com aparência menos explosiva. 

Não é moderação. É maquiagem. A elite que se diz assustada com Jair Bolsonaro pode acabar flertando com Flávio Bolsonaro pelo mesmo motivo de sempre: prefere o risco autoritário ao risco democrático de um governo popular fortalecido. 

Esse é o velho drama brasileiro. Quando a democracia amplia direitos, parte das elites começa a procurar atalhos. Quando o voto popular ameaça a concentração de renda, a soberania nacional ou os privilégios históricos, o autoritarismo passa a ser tratado como “alternativa”. 

Primeiro com constrangimento. Depois com naturalidade. 

A escolha real 

A sequência BTG/Nexus–Atlas/Bloomberg mostra que 2026 começa a se organizar em torno de uma pergunta grave: o Brasil será capaz de transformar a condenação judicial do golpismo em derrota política do golpismo? Até agora, a resposta está longe de estar garantida. 

A condenação de Bolsonaro foi uma vitória institucional enorme. Mas a pesquisa mostra que a sentença não bastou para desarmar a base social da extrema direita. O bolsonarismo continua vivo porque é mais do que Bolsonaro. É um ecossistema de ressentimento, religião instrumentalizada, desinformação, antipetismo, militarismo, nostalgia autoritária e submissão ao trumpismo. 

É por isso que o empate entre Lula e Bolsonaro pai, somado ao empate entre Lula e Bolsonaro filho, não pode ser tratado como rotina de pré-campanha. É um alarme. A democracia brasileira derrotou o golpe nas urnas. Depois, derrotou o golpe no Supremo. 

Mas ainda terá de derrotá-lo no território mais difícil: a consciência política de uma sociedade dividida, intoxicada e bombardeada diariamente por uma máquina de mentira. A eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Será uma escolha entre a democracia e sua simulação autoritária. 

Pesquisam mostram que o golpe ainda respira 

Entre um presidente que chegou ao poder pelo voto, respeitou o resultado das urnas e tenta concluir sua biografia política com a marca da reconstrução nacional, e um herdeiro de um projeto que tentou impedir a posse do vencedor, atacou as instituições e agora tenta voltar pela porta da frente com o sobrenome do golpe. 

A pergunta, portanto, não é apenas por que Bolsonaro ainda tem 45%. 

A pergunta é mais profunda: como uma sociedade que viu a tentativa de golpe, viu a condenação do líder golpista e viu a máquina autoritária operar por dentro do Estado ainda admite reconduzir esse mesmo projeto ao poder, agora pela mão do filho? 

A resposta talvez esteja na própria doença política do nosso tempo. 

O bolsonarismo perdeu a eleição. Perdeu no Supremo. Perdeu a máscara democrática. Mas ainda não perdeu a capacidade de organizar medo, ódio e revanche em escala nacional. 

É esse o desafio de Lula. É esse o desafio da democracia. E é esse o verdadeiro sentido das pesquisas divulgadas nos últimos dois dias. Elas não mostram apenas uma eleição apertada. 

Mostram que o golpe ainda respira. 

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* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.