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Reynaldo José Aragon Gonçalves

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net

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Pesquisismo: entre cenários improváveis e guerra híbrida em curso

Para Reynaldo Aragon e Sara Goes a nova pesquisa Quaest expõe o pesquisismo: manipulação da percepção pública como arma na guerra híbrida informacional de 2026

Lula - 18/03/2025 (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Por Reynaldo Aragon e Sara Goes - A pesquisa Quaest divulgada hoje (2), com seus “todos os cenários” para 2026, é um excelente exemplo da operação contemporânea do pesquisismo — essa lógica em que as pesquisas de opinião deixam de ser ferramentas de leitura da realidade para se tornarem instrumentos de sua fabricação. O pesquisismo é a estetização da política como simulação: uma guerra de narrativas travada por números e gráficos que, na aparência de neutralidade científica, opera dentro do espectro da guerra híbrida e das operações psicológicas (psyops). As psyops, ou operações psicológicas, são estratégias utilizadas para influenciar emoções, crenças e comportamentos de populações inteiras, sem que elas percebam que estão sendo manipuladas — o objetivo não é convencer com argumentos, mas induzir percepções que sirvam a determinados interesses de poder.

Estamos assistindo à reedição sofisticada das velhas técnicas de desestabilização, agora anabolizadas pelo aparato das Big Techs e travestidas de democracia sob o signo da liberdade de expressão irrestrita. Essa disputa acontece no plano simbólico, afetivo e perceptivo. A guerra é informacional, mas seu alvo é o senso comum. É aqui que entra a FrenCyber — Frente Parlamentar da Cibersegurança — não apenas como uma instância institucional, mas como parte de um ecossistema maior de manipulação discursiva e vigilância ideológica. A nova bancada das Big Techs, como temos alertado, atua na instrumentalização da política digital e na legitimação de psyops, interferindo diretamente na soberania popular por meio de estímulos condicionantes que gradualmente modelam a percepção social e, consequentemente, o comportamento coletivo.

O que a pesquisa realiza, nesse contexto, não é apenas um levantamento de intenções. É a simulação de um estado de coisas. A naturalização da candidatura de um cantor sertanejo, a persistência de nomes como Pablo Marçal e Eduardo Bolsonaro em cenários repetidos, e a ausência de qualquer menção à militância de base ou aos movimentos populares revelam uma operação mais ampla: a substituição progressiva da política por avatares do algoritmo, com foco em afetos difusos, discursos de ódio e identidade midiática. É como se a pesquisa não colhesse opiniões, mas as plantasse.

A guerra híbrida se vale exatamente disso: ferramentas legais, veículos tradicionais e metodologias consagradas para produzir distorções profundas na percepção social. As pesquisas, nesse contexto, não são apenas demonstrações do estado atual das coisas — confiáveis ou não —, mas reflexos diretos de um fenômeno mais profundo: nos últimos anos, o comportamento eleitoral do povo brasileiro, mesmo diante de políticas públicas concretas e efetivas, perdeu parte de sua capacidade de compreensão da realidade objetiva, mergulhando em um estado profundo de dissonância cognitiva, descolados da realidade. O que se impôs no lugar foi uma percepção volátil, fragmentada por bolhas digitais, fake news e afetos manipulados em massa. A pesquisa deixa de ser instrumento de análise para se tornar um espelho do colapso da mediação racional — e o pesquisismo se alimenta exatamente disso.

A guerra já está em curso. E não se dá apenas nas urnas — mas nos campos minados das percepções. A cada nova rodada de números, as estruturas políticas reais - sindicatos, movimentos sociais, coletivos de base — vão sendo empurradas para fora do quadro. Em seu lugar, entram os influencers, os outsiders performáticos, os candidatos-algoritmo. É a substituição progressiva da política por avatares compatíveis com o capitalismo de vigilância. E, nesse jogo, o pesquisismo é a técnica de apagamento. 

Por isso, não se trata de desacreditar toda e qualquer pesquisa. Mas de romper com a naturalização do pesquisismo como linguagem oficial da política. A pesquisa Quaest é mais um alerta: o campo da disputa já está contaminado por mecanismos de manipulação perceptiva. E não há defesa da democracia possível sem denunciar esse modo de produção da realidade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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