Petição repudia título de Cidadã de Fortaleza à primeira-dama Michelle Bolsonaro

Em vista da quebra do sigilo bancário do senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e de mais 95 pessoas ou empresas ligadas à família e seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o tema em torno dos cheques depositados na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, pelo ex-assessor Fabrício Queiroz, voltou à tona

Petição repudia título de Cidadã de Fortaleza à primeira-dama Michelle Bolsonaro
Petição repudia título de Cidadã de Fortaleza à primeira-dama Michelle Bolsonaro (Foto: Marcelo Camargo/Ag�ncia Brasil)

Em vista da quebra do sigilo bancário do senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e de mais 95 pessoas ou empresas ligadas à família e seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o tema em torno dos cheques depositados na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, pelo ex-assessor Fabrício Queiroz, voltou à tona.

E, com ele, um assunto ocorrido em Fortaleza mês passado. No dia 16 de abril, a Câmara Municipal dos Vereadores aprovou o Decreto Legislativo 4/2019, que agracia a primeira-dama do país com o título de cidadã de Fortaleza. Dois dias depois, na condição de jornalista com deficiência (sou portador de Osteogênese Imperfeita, uma doença rara congênita que afeta a formação dos ossos) e criador do site Sem Barreiras (www.sembarreiras.jor.br), voltado para a causa da pessoa com deficiência, criei uma petição de repúdio ao projeto de autoria da vereadora Priscila Costa (PRTB).

Até o momento, 640 pessoas assinaram a petição. No dia 26 de abril, o Jornal O Povo abriu espaço para a petição e me entrevistou. Na ocasião, afirmei: "aquele discurso em LIBRAS foi muito mais uma estratégia de marketing do que uma sinalização de inclusão. Na prática, ele não traria um retorno efetivo para a comunidade surda e era muito pouco para se afirmar que o país se tornaria mais inclusivo". Não demorou muito para o presidente confirmar minhas previsões.

A vereadora Priscila Costa também foi ouvida e suas argumentações beiram o inacreditável. Primeiro, ela afirma que "a petição é muito insignificante para ganhar espaço". Em seguida, ela baixa o nível da discussão e mostra quem ela realmente é ao me acusar de "esquerdomachismo". "O 'esquerdomachismo' valoriza as mulheres como revolucionárias, como submissas às cartilhas ideológicas e partidárias, que não é o caso de uma mulher brasileira que é mãe, devota e esposa. Ela é comum demais para esquerda, mas o Brasil é feito de mulheres comuns", disse.

O posicionamento da vereadora acerca da petição surpreende pelo autoritarismo e desconhecimento do teor do texto que embasou o abaixo-assinado. Primeiro, ela não tem o direito de considerar uma legítima manifestação da sociedade civil como "muito insignificante".

Ao agir assim, ela demonstra ser uma parlamentar totalmente desconectada com a realidade e com o sentido real de representante do povo. Em discurso no plenário da Casa, em 30 de outubro passado, a jornalista/vereadora afirmou que a vitória de Jair Bolsonaro foi uma "vitória do povo, elegendo um candidato que não era uma indicação do sistema".

Foi além. Disse que Bolsonaro "foi escolhido e reconhecido pela população mesmo quando as grandes emissoras tentavam fingir que ele não existia". Essa afirmação é um despautério, pois bem sabemos a contribuição da chamada grande imprensa na eleição do candidato do PSL. Podemos citar o cancelamento dos debates de segundo turno contra o candidato Fernando Haddad (PT) após recusa do candidato do PSL em comparecer ou ainda o silêncio cúmplice da grande mídia em torno da ligação criminosa da família Bolsonaro com as milícias cariocas e, por fim, o acobertamento das denúncias de fraude eleitoral do whatsapp, matéria publicada pela Folha de São Paulo e logo esquecida.

A pérola do discurso da vereadora foi sua crítica ao então candidato do PSOL à presidência, Guilherme Boulos. "Os comunista(sic) são poucos criativos, ideais mofadas de antigamente, de dizer que o seu oponente é uma ameaça". A vereadora, certamente, estava em outra galáxia quando seu candidato fez gestos de arminhas com as mãos ou ameaçou "metralhar a petralhada" no Acre. Infelizmente, no entanto, Priscila Costa se calou diante dos meus argumentos de destruição dos direitos das pessoas com deficiência – CONADE, BPC, SECADI. Me ofender com termos grosseiros e medíocres e justificar a homenagem afirmando que Michelle Bolsonaro é "mulher, mãe e devota" é um desrespeito à sociedade fortalezense.

Ainda aguardamos posicionamento oficial da mesa diretora da Casa e reafirmamos nossa exigência de revogação do Decreto, em respeito ao país e ao segmento de pessoas com deficiência. Jair Bolsonaro está destruído o Brasil e a seguridade social. Homenagear sua esposa é, não apenas um disparate para uma Casa Legislativa, mas também uma forma de amenizar os atos criminosos de seu marido.

Segundo matéria publicada no site da Câmara, Priscila Costa afirma: "fico feliz com a oportunidade de valorizar outra mulher. Michelle não representa uma ideologia partidária (grifo nosso), ela representa o brilhantismo da mulher comum. São mulheres anônimas que ajudam a construir o nosso país e quando foi colocado holofote na primeira-dama, ela pôde mostrar seu trabalho na realização de coisas extraordinárias".

A vereadora "justifica" a honraria em dois argumentos: a atuação da primeira dama em defesa das pessoas surdas, realçada pelo famoso discurso em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) na posse do seu marido, Jair Bolsonaro; e na sua ligação com Fortaleza em virtude de seu pai, Vicente de Paula Firmino, conhecido como "Paulo Negão", ser natural da cidade de Crateús, a 350km da capital cearense.

O discurso em LIBRAS criou uma expectativa no segmento das pessoas com deficiência, em especial na comunidade surda, de que o país se tornaria mais inclusivo pela presença de alguém sensível à causa próximo ao núcleo dirigente do Estado e, sem dúvida, foi um momento especial. Soube de pessoas surdas que choraram com o discurso da primeira-dama, pois se sentiram incluídas pela primeira vez na vida. Contudo, no dia seguinte à posse, Jair Bolsonaro aprovou medida do então Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, acabando com a SECADI (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão), o órgão que cuidava da educação dos surdos.

Criada em 2004, a SECADI tinha como função fortalecer a atenção especial a grupos que historicamente são excluídos da escolarização. Ela foi desmontada com a promessa de criação da subpasta Modalidades Especializadas, que teria como titular uma pessoa surda, outra vez agradando o segmento. O problema é que essa subpasta jamais foi vista nesses cinco meses. Os 4.970 surdos da cidade de Fortaleza, citados pela vereadora no Decreto Legislativo, perderam a secretaria que tinha como função cuidar de seus interesses educacionais.

Mais recentemente, o presidente extinguiu o CONADE (Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência), juntamente com diversos outros conselhos sociais que compunham a Política Nacional de Participação Social (PNPS). A medida deixa desassistidos 45,6 milhões de pessoas com deficiência no país, 23,92% da população, segundo censo do IBGE de 2010. Dos 500 conselhos existentes, somente 70 deverão continuar.

O governo recua o país 40, 50 anos na história ao excluir a sociedade civil organizada das políticas públicas, uma atitude com claro viés ditatorial e anti-povo. Por fim, o governo Bolsonaro sinaliza o fim do BPC (Benefício de Prestação Continuada) com a Reforma da Previdência, que garante um salário mínimo a idosos acima de 65 anos ou pessoa com deficiência de qualquer idade, cuja renda seja menor que ¼ do salário mínimo, ou seja, pessoas inseridas na categoria da extrema pobreza e que dependem dessa ajuda governamental para sobreviver. A Câmara dos Vereadores vai assinar embaixo de todas essas atitudes criminosas do marido da homenageada?

O outro motivo alegado diz respeito ao pai de Michelle ser de Crateús. Paulo Negão apareceu em vários vídeos do então candidato após surgirem acusações de racismo contra ele. Além de racista, o presidente demonstra total desprezo ao povo nordestino, não tendo feito nenhuma visita oficial à Região após sua eleição e ao afirmar, em entrevista ao SBT, em janeiro, não ser presidente do Nordeste e que "o presidente deles está em Curitiba", referindo-se ao ex-presidente Lula.

Michelle Bolsonaro jamais realizou qualquer trabalho de assistência social em Fortaleza, confirmando o absurdo da homenagem. Uma parlamentar querer afagar o presidente de sua preferencia e parceria ideológica é normal e costumeiro, mas a Câmara de Vereadores assinar embaixo é imperdoável. Encerro esse texto com um chamamento à racionalidade dos senhores vereadores e da mesa diretora para revogar essa absurda homenagem, que poderá terminar sendo uma homenagem a uma miliciana envolvida em casos de corrupção e lavagem de dinheiro da família do marido.

Assine aqui o abaixo-assinado - http://chng.it/yWvDXqG8m8

* Victor Vasconcelos, 42, jornalista há 20 anos e editor do site Sem Barreiras - www.sembarreiras.jor.br

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