Petista bom não é petista morto

Estamos vivendo a barbárie de, pela maneira de pensar, sermos indignos do sentimento de humanidade

Semana passada disse a meu pai em tom de brincadeira: "Seu passaporte está válido?". Brincadeira com fundo de verdade. Não que eu creia que teremos que ir. É mais pela certeza de que o clima de ir está posto. Nos falamos com bastante frequência, eu e meu pai. Quase sempre de política. Outra tantas vezes das peripécias do neto. Nunca pensei que brincaríamos de iminente exílio.

Me sinto acuada por parte dessa nossa população sergipana e brasileira, cega ao mesmo tempo pelo consumo e pela religião. Dois vícios terríveis. Não sou petista oficialmente, nunca fui. Mas quando forem nos classificar, brincava com meu pai, com ou sem carteirinha do PT, já vão saber de que lado estamos. Pelo nosso alinhamento ideológico, eles nos dizem petistas; logo, se a coisa se acirrar, seremos bons mortos.

Estou com um choro engasgado pelo ato nefasto dos panfletos jogados durante o velório de Zé Eduardo com a frase "Petista bom é petista morto" no último dia 5 de outubro, em Belo Horizonte. Estamos vivendo a barbárie de, pela maneira de pensar, sermos indignos do sentimento de humanidade. Depois do evento de hoje, liguei para o meu pai ainda engasgada e compartilhamos nossa inquietude. Desligamos, novamente brincando: "Vá renovar seu passaporte!".

Depois desse ato ignóbil, que interrompe o ritual de despedida de uma família, quem irá exigir respeito? Quantos políticos, seguidores e escaladores do conservadorismo religioso, que descarta pessoas diferentes deles, pedirão respeito pelos seus?

Eu e muitos dos que conheço respeitaríamos, por índole, mas, vocês, os calados, os doentes, os condizentes, os espectadores entusiasmados com a escalada do ódio não poderão pedir depois respeito aos seus rituais de morte, de culto religioso, de livre pensar.

Nós respeitaremos porque somos o que somos; mas vocês terão perdido o direito de estender a mão pedindo ajuda. Vocês terão perdido o direito de pedir um minuto de silêncio por seus mortos. Vocês terão perdido o direito de exigir um ambiente saudável para suas crianças. Nós respeitaremos porque somos o que somos. Porque sempre pregamos isso, mas vocês... Vocês não poderão pedir mais tolerância por serem diferentes. Vocês ultrapassam a linha político partidária quando querem. Nós respeitaremos porque somos o que somos. Vocês irão gritar, nos bater por respeito, exigindo sua liberdade de expressão, irão incomodar nossos mortos, irão sujar os ouvidos dos nossos filhos, envenenar as mentes com ódio do que vocês não conhecem. Nós continuaremos pregando o contrário porque somos o que somos e não iremos a lugar nenhum.

Eu ficarei aqui ensinando ao meu filho a não ser como vocês.

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