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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Petróleo a US$100 muda o cenário: inflação sobe e corte de juros no Brasil pode ser menor

"Tudo dependerá da duração do conflito"

Visão aérea de uma plataforma da Petrobras na Bacia de Campos, a P-52 (Foto: REUTERS/Bruno Domingos)

É verdade que o governo anunciou medidas para atenuar parte desse choque. Ainda assim, a Petrobras já aumentou o preço do diesel no sábado em cerca de 11,6%, o equivalente a aproximadamente R$0,38 por litro. Esse reajuste só não foi maior por causa da subvenção do governo. Mesmo com esse aumento, várias estimativas indicam que o diesel ainda permanece defasado em torno de 50% em relação ao preço internacional. O mesmo vale para a gasolina. Portanto, mesmo com a redução de PIS e Cofins, há um risco relevante de pressão inflacionária nos próximos meses.  

Tudo dependerá da duração do conflito. Se a tensão geopolítica diminuir rapidamente, o choque pode ser temporário. Porém, se o conflito se prolongar — e neste momento não há muitos sinais de resolução rápida — o impacto macroeconômico tende a ser mais significativo.

Por outro lado, a sequência de dados de atividade econômica de janeiro surpreendeu positivamente. Praticamente todos os indicadores vieram acima das expectativas. O IBC-Br, considerado uma proxy do PIB mensal, registrou crescimento de cerca de 0,8%, um resultado forte. Esse desempenho já era parcialmente esperado, pois as pesquisas setoriais divulgadas anteriormente haviam vindo bastante robustas.  

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) mostrou crescimento relevante, a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) também veio acima do esperado e a produção industrial (PIM) apresentou alta de aproximadamente 1,8%. Ou seja, praticamente todos os componentes da atividade econômica avançaram em janeiro, sinalizando uma recuperação após os dados mais fracos observados em novembro e dezembro e após um PIB do quarto trimestre praticamente estagnado.  

Esse conjunto de fatores — petróleo alto, inflação revisada para cima e atividade econômica resiliente — reforça a percepção de que o Copom provavelmente fará um corte menor de juros na reunião desta quarta-feira. Hoje o mercado já trabalha majoritariamente com a hipótese de um corte de apenas 0,25 ponto percentual.

Alguns analistas ainda consideram possível um corte de 0,50 ponto, mas há inclusive quem já discuta a possibilidade de manutenção da Selic em 15%. Na minha avaliação, o cenário mais provável continua sendo um corte de 0,25 ponto, diante das pressões inflacionárias recentes.

Também teremos na quarta-feira a reunião do Federal Reserve, com divulgação do Summary of Economic Projections, que inclui o famoso “dot plot”, o gráfico de pontos que mostra onde os diretores do Fed projetam a taxa de juros no futuro. Em meio a esse ambiente global turbulento, será importante observar como o Fed enxerga o cenário.

Hoje já há praticamente zero expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos no curto prazo. Parte do mercado passou a projetar eventuais cortes apenas no segundo semestre, possivelmente no quarto trimestre. Ou seja, o cenário global de juros também ficou mais desafiador.

Outro ponto importante é a capacidade de resposta do Irã, que vem se mostrando maior do que muitos imaginavam inicialmente. Isso aumenta a probabilidade de que o conflito se prolongue por semanas ou até meses. Caso isso aconteça, estaremos diante de uma mudança macroeconômica relevante: petróleo a US$100 é um cenário completamente diferente daquele do início do ano, quando o barril estava próximo de US$60 — uma alta de mais de 50%.

Por enquanto, a Petrobras repassou apenas parte desse choque, com um reajuste de cerca de 11% a 12% no diesel, mas ainda há uma inflação potencial represada. Será necessário acompanhar como esses preços serão ajustados ao longo do tempo.

Assim, começamos esta semana com mercados um pouco mais calmos do que no pico de estresse observado na sexta-feira passada, mas ainda em um ambiente bastante desafiador. A curva de juros brasileira segue pressionada, com os juros longos próximos de 14%, enquanto dois meses atrás estavam em torno de 13%. Nos Estados Unidos, o rendimento do Treasury de 10 anos também subiu, saindo de 4% para cerca de 4,22%.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.