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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Petróleo recua após pico, mas conflito no Oriente Médio ainda ameaça inflação global

"A situação está longe de uma resolução clara"

Flames emerge from flare stacks at Nahr Bin Umar oil field, north of Basra, Iraq September 16, 2019. REUTERS/Essam Al-Sudani - RC1F6B230B80 (Foto: Essam Al Sudani/Reuters)

O preço do Brent recuou de forma significativa e voltou para a região de US$ 92 por barril, depois de ter alcançado um pico próximo de US$ 120. Esse movimento ocorreu após declarações de Donald Trump, sugerindo que o conflito no Oriente Médio poderia estar se aproximando de um desfecho. O mercado reagiu rapidamente a essa sinalização e houve uma correção forte nos preços.

No entanto, a situação está longe de uma resolução clara. Autoridades do Irã afirmaram que pretendem continuar com o bloqueio do Estreito de Ormuz, um ponto estratégico para o transporte global de petróleo. Por outro lado, Trump declarou que, caso o bloqueio continue, os ataques poderão se intensificar. Ou seja, o cenário permanece bastante incerto e o conflito segue em curso.

Isso significa que, embora o petróleo tenha recuado bastante em relação ao pico recente, também não parece provável que os preços retornem rapidamente para níveis muito mais baixos, como US$ 70 por barril. O mercado continua extremamente sensível aos desdobramentos geopolíticos, e qualquer nova escalada pode provocar novos movimentos fortes de preço.

Vale lembrar que um petróleo em torno de US$ 150 por barril teria efeitos inflacionários muito relevantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, isso poderia levar o preço da gasolina para algo próximo de US$ 5 por galão — hoje está por volta de US$ 3,30. No Brasil, isso equivaleria a algo próximo de R$ 7 por litro ou até mais. Portanto, trata-se de um choque potencialmente importante para a inflação global, afetando a economia americana, a economia brasileira e diversas outras.

Esse cenário naturalmente influencia as decisões de política monetária. Bancos centrais como o Federal Reserve e o Copom precisam considerar esses riscos inflacionários, especialmente em um momento em que novas decisões de juros estão se aproximando. Portanto, o comportamento do petróleo nas próximas semanas será um fator relevante para o debate sobre juros.

Além disso, teremos uma semana muito importante em termos de dados econômicos. Amanhã saem novos números de inflação nos Estados Unidos, e na sexta-feira será divulgado o PCE, que é o indicador de inflação preferido do Federal Reserve. Esses dados ajudarão a calibrar as expectativas do mercado sobre os próximos passos da política monetária americana.

Outro dado que chamou bastante atenção veio da China. As exportações chinesas cresceram 21,8% em fevereiro na comparação anual, muito acima do esperado pelo mercado, que era algo próximo de 7%. As importações também avançaram fortemente, cerca de 19,8%, indicando uma atividade industrial e comercial bastante dinâmica.

Isso mostra que, apesar das dificuldades no setor imobiliário e da desaceleração da construção civil, o setor industrial e exportador da China continua extremamente forte. Para se ter uma ideia, nos dois primeiros meses do ano o superávit comercial chinês já soma cerca de US$ 200 bilhões, e a balança comercial do país vem se estabilizando em torno de US$ 1 trilhão por ano — um número realmente impressionante.

Na prática, o motor da construção civil na China perdeu força, mas o motor industrial e exportador continua funcionando com grande intensidade. Basta observar, por exemplo, a presença crescente de carros chineses nas ruas de cidades como São Paulo, especialmente marcas como BYD e GWM, que têm avançado rapidamente no mercado de veículos elétricos.

Para o Brasil, esse cenário tem efeitos mistos. Por um lado, a força industrial chinesa aumenta a concorrência internacional e pode dificultar a vida da indústria brasileira. Por outro lado, a China continua sendo um grande comprador de commodities brasileiras, o que sustenta parte importante das nossas exportações.

No caso específico do petróleo, o impacto pode até ser parcialmente positivo para o Brasil. O país se tornou um grande produtor de petróleo, com produção próxima de 3,7 a 3,8 milhões de barris por dia, em níveis comparáveis aos de países importantes do setor. Isso faz com que a balança comercial de petróleo brasileira seja amplamente superavitária.

Inclusive, o próprio real chegou a se valorizar recentemente, refletindo em parte essa percepção de que o Brasil hoje é um exportador relevante de petróleo. Ou seja, embora preços mais altos tragam pressão inflacionária, eles também melhoram as contas externas do país.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.